Seremos todos críticos? Novos espaços para a crítica em design

No dia 17 de Novembro no Grande Auditório da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa teve lugar a 3ª edição dos Encontros de Design de Lisboa, este ano com o tema: Design, Identidade e Complexidade. Um dos oradores do Encontro foi Teal Triggs, professora de Design Gráfico e Diretora Associada da School of Communication do Royal College of Art, em Londres, que apresentou algumas noções sobre o papel da crítica em design gráfico na prática e na investigação.

Durante a sua apresentação Teal Triggs abordou um assunto que ganha especial importância nos dias de hoje: “Seremos todos críticos?” Com o advento da Internet e dos mass media, das redes sociais e dos mais diversos tipos de plataformas online é possível encontrar locais onde qualquer pessoa se pode tornar um crítico de uma determinada matéria, desde o cinema, à literatura, arte, música, através de websites criados com essa mesma intenção. No entanto, enquanto algumas dessas plataformas têm somente o intuito de permitir que alguém que assim deseje deixe a sua opinião sobre um determinado assunto abordado, existem também outros espaços que têm como objectivo o debate e  aprofundamento desse assunto, levando ao questionamento e à investigação sobre os temas propostos.

“The increasing importance of ‘community-based cultures’ and niche marketing, the eradication of a difference between high and low culture and the ethnic and geographical diversity of the culture-minded audience, reduce and even delegitimize the need for dominant, centralised, critical voices.” [1]

No campo do design gráfico existem vários espaços onde se verifica esse tipo de exposição e debate. Um exemplo apontado por Teal Triggs foi o Eady Forum, uma plataforma de alunos do Royal College of Art para a discussão sobre design gráfico no domínio contemporâneo através de palestras e eventos. O Post-Eady foi fundado como uma resposta ao Eady Forum e é um colectivo composto por alunos formados pelo RCA como um espaço para workshops de criação e discussão crítica à volta do design gráfico. Estas plataformas são um exemplo de como a crítica pode também ser um espaço de criação, participação e questionamento sobre a própria disciplina.

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Fotografia de um workshop e cartazes para a promoção de eventos criados pelo Eady Forum

Um exemplo de um espaço sobre critical design é a plataforma Modes of Criticism, um website e também uma publicação que conta já com dois números, criada originalmente como uma plataforma para a investigação de Francisco Laranjo (também orador nos III Encontros de Design de Lisboa) no London College of Communication, que tem como objectivo investigar métodos para uma prática de design crítico e promover o debate sobre o que constitui “criticalidade” no design gráfico.

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Primeiro e segunda edição da revista Modes of Criticism

De uma forma completamente distinta o website Brand New (que conta já com 10 anos de existência) regista e fornece opiniões sobre identidades corporativas, encoraja a participação através de comentários e inclui também votações nos artigos onde os seus leitores podem votar com a sua opinião sobre o logotipo, a embalagem, a aplicação da identidade em diversos suportes, entre outros parâmetros. O Brand New organiza também a conferência anual Brand New Conference e os Brand New Awards que avaliam e exibem os melhores projectos de identidade produzidos durante o ano.

O surgimento destas novas plataformas permite a um maior número de pessoas participar nestas discussões mas levanta também a questão: o que é a crítica e o que faz um crítico? Pode qualquer pessoa com acesso à internet intitular-se crítico em design? A.O. Scott afirma no seu livro Better Living Through Criticism: How to Think About Art, Pleasure, Beauty, and Truth:

“Every writer is a reader, every musician a listener, driven by a desire to imitate, to correct, to improve, or to answer the models before them.” [2]

Podemos então concluir que a crítica pode também ser simplesmente a resposta natural ao processo de criação, uma tentativa de melhorar ou responder ao que já foi criado, tentando questionar pressupostos de valor cultural.

“(…) in the process of the critique, the critic is able to question and influence generally accepted notions of cultural value.” [3]

Isabel Franco


Referências

[1] BERGER, Maurice, The Crisis of Criticism, The New Press, 1998

[2] SCOTT, A.O., Better Living Through Criticism: How to Think About Art, Pleasure, Beauty, and Truth, Penguin Press, 2016

[3] BERGER, Maurice, Introduction in The Crisis of Criticism, The New Press, 1998

One thought on “Seremos todos críticos? Novos espaços para a crítica em design”

  1. Seria interessante pesquisar novas plataformas de crítica e apontar/estudar aquela que mais tem contribuído para uma reflexão verdadeiramente contracorrente: Serving Library com o projecto Dexter Sinister à cabeça.
    Peço que faça uma conclusão mais interessante.

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