O uso (in)devido do cartaz político

Pedro Costa

O cartaz político surge e impõe-se em situações sociais nas quais predomina algum tipo de tensão, que interfere com a vida da população. O seu conteúdo, valor e impacto vai depender dos seus autores e do tipo de reacção que pretendem suscitar quer nos passantes, quer na própria estrutura social. Deste modo, é possível constatar que o cartaz político pode seguir a direcção de problematizar essas questões, impelindo a uma atitude crítica e reflectiva, ou a direcção de normalizar e desvalorizar essa tensão, tentando criar uma certa aceitação e conformidade perante  essas situações. Seja qual for a sua utilização, o cartaz serve, portanto, como uma espécie de veículo ideológico na relação e postura que estabelece socialmente.

Democratização da propaganda

Em diversos períodos e situações históricas, foi comum o cartaz ser usado numa óptica de propaganda, com o intuito de gerar adesão patriota e moral, instituir figuras de autoridade e poder, e, sobretudo, impôr um sentimento de conformismo perante uma causa comum para o “bem da nação”[1]. A ideia por trás deste tipo de utilização do cartaz político terá ido ao ponto de, em alguns regimes, ser proibido qualquer suporte ou media que pusesse em causa o tipo de valores impostos pelos mesmos e presentes na sua propaganda.

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1. “A Lição de Salazar” — Martins Barata, 1938

Contudo, existe quem se oponha a esta óptica através da reapropriação do cartaz político e da sua redefinição. Isto é, surgem abordagens partidárias que passam a utilizar o cartaz democraticamente, uma vez que o recusam como um meio para proliferar ideologias opressivas que recusam qualquer oposição ou opinião contrária àquela que quem está no poder defende, como no caso do Estado Novo. O cartaz passa a ser usado como um suporte que partilha ideologias de diferentes teores partidários, não se cingindo a uma só posição. Esta transformação que se dá ao nível do conteúdo do cartaz, acaba por se exprimir, consequentemente, a nível da sua linguagem textual e visual. Neste sentido, e tomando como exemplo o Chile e a exposição feita pelo investigador Maurício Vico, durante a campanha de Salvador Allende, o cartaz político sofreu diversas alterações que se manifestaram em diversos níveis: no seu conteúdo, apresentando mensagens que expunham questões de carácter social; a nível da linguagem, simples, clara e directa; e a nível estético, introduzindo elementos novos neste tipo de suporte, através de ícones, símbolos e de uma mistura de pop-art com elementos psicadélicos[2][3][4]. Este tipo de abordagem trabalha o cartaz de modo a quebrar com os seus valores canónicos, problematizando questões sociais mais próximas da população e traduzindo as suas intenções ao nível da própria linguagem visual.

(Da esquerda para a direita) 2. “Por una universidad libre al servicio del pueblo” — Autor desconhecido, 1968; 3. “Brigada Ramona Parra” — Juventudes Comunistas de Chile, 1971; 4. “Cobre ya eres patria” — Autor desconhecido, 1992

Democratização do cartaz

Mais à frente, e continuando o exemplo do Chile, durante os movimentos estudantis o cartaz político toma uma nova dimensão. O cartaz deixa de representar uma figura de poder e passa a ser feito por quem contesta (neste caso os jovens), manifestando as ideias da população através de uma voz pública. Dá-se uma mudança na forma de protesto, distanciando-se a génese do cartaz de figuras políticas, e desaparecendo a autoria, uma vez que são trabalhados colectivamente[5][6].

(Da esquerda para a direita) 5. “Estudiantes por Chile” — Autor desconhecido, 2005; 6. “Mejor Educación Mejor Chile” — Nicolás Ramírez do Colectivo “Mano Alzada”, 2011

O cartaz passa a desempenhar a função de munir a população de um meio de expressão, difundido nomeadamente, a nível da internet, que permite um acesso mais amplo e rápido a esta informação. Tomando este exemplo, é possível confirmar a abordagem que José Bártolo faz ao estudar o cartaz político, uma vez que se confirmam as suas implicações ao nível do tipo de relação que estabelece com quem o lê, ao nível da relação que estabelece com a estrutura social ao problematizar determinados assuntos, e ao nível da sua linguagem, de acordo com a estética que adopta.

O papel reflexivo do cartaz

O papel da comunicação, passando neste caso pelo cartaz, deverá ser o de informar devidamente a população, suscitando uma atitude crítica e de pensamento sobre as situações sociais, de modo a criar espaço para que se desenvolvam opiniões independentes num ambiente de liberdade intelectual. Ao deixar que o cartaz político (entendendo-se aqui aquele que funciona numa lógica de propaganda partidária) seja forjado por aqueles que pretendem conformar a população de acordo com os valores de quem está no poder, permite-se que esta deixe de intervir na estrutura social e política da sociedade, passando a representar um elemento passivo e apático às questões que o rodeiam. Deste modo, torna-se essencial que a presença do cartaz político numa óptica activista (entendendo-se aqui aquele que se constitui como uma espécie de afirmação popular distante dos normativos ideológicos do poder e do contrapoder) seja constante, para que seja possível separar, distinguir e desdobrar as intenções dos paradigmas dominantes políticos em vigor e apresentar uma nova perspectiva e abordagem à população sobre determinadas questões. Convergindo estes dois objectivos, cessa a existência de uma adesão e coadunação cega por parte da população, e o cartaz passa a funcionar como um suporte mais democrático de comunicação, activamente preocupado com a sua linguagem, a sua relação com os indivíduos e o impacto que poderá suscitar socialmente.


Palavras-chave

cartaz político, propaganda, democracia, activismo


Notas

  1. VICO, Mauricio. “El cartel político del gobierno de Salvador Allende (1970-1973)”. Disponível em: <http://www.monografica.org/02/02/Art%C3%ADculo/3956>;
  2. VICO, Mauricio. “La lucha de todos. Movimientos juveniles y cartel en Chile”. Disponível em: <http://www.monografica.org/02/02/Art%C3%ADculo/3624>;
  3. BARBOSA, Helena; BRANCO, Vasco; CALVERA, Anna. “O design do cartaz político português: duas políticas, dois discursos.” Disponível em: <http://www.agitprop.com.br/index.cfm?pag=ensaios_det&id=99&titulo=>;
  4. HENDRIX, Michael. “Can Political Posters Still Make a Difference?”. Disponível em: <https://eyeondesign.aiga.org/do-political-campaign-posters-really-matter-anymore/>;

One thought on “O uso (in)devido do cartaz político”

  1. Efectivamente, ao longo da história, foram dados diferentes usos ao cartaz, com diferentes reacções, diferentes impactos e diferentes conteúdos. Enquanto instrumento de comunicação, tanto pode ser usado ao serviço da violência e da repressão, como para a sensibilização social. Apesar dos propósitos distintos com que o cartaz é usado, algo é comum: contribui para influenciar a opinião pública. Como o designer dificilmente se consegue distanciar das questões políticas e ideológicas, enquanto alguém que comunica, tem uma responsabilidade acrescida. Assim, uma análise crítica dos usos de objectos de design, como o cartaz, parece-me ser um excelente ponto de partida para desenvolvermos um trabalho socialmente responsável e rico. Neste sentido, acho que o post do Pedro faz isso mesmo. Esta reflexão, partindo dos exemplos dados durante as masterclasses, nomeadamente dos movimentos estudantis do Chile, é bastante pertinente e levanta várias questões que todos nós devemos colocar sobre o uso do cartaz, que se podem estender ao próprio design enquanto disciplina.

    A forma como o Pedro ilustra as suas ideias e faz a crítica ao cartaz enquanto instrumento para o conformismo da população, parece-me bastante relevante pois, de facto, apesar do potencial democrático do cartaz, muitas vezes é abusado de forma a servir o poder. Neste sentido, é importante pensar no uso do cartaz a favor do pluralismo, de forma a dar uma voz mais activa à sociedade e ao pensamento independente, análise que o Pedro fez e que contribui para pensar e explorar o potencial do design como forma de participação cívica mais rica.

    Ao longo do texto a linguagem é articulada e clara e o próprio uso da imagem para ilustrar as ideias revela uma pesquisa cuidada e atenção à relação texto-imagem. Numa formatação eficaz, com o uso de subtítulos que dividem o texto de forma clara e permitem acompanhar os usos divergentes do cartaz, acho também importante referir o uso equilibrado que o Pedro fez das hiperligações. Parecem-me bastante pertinentes as ligações que são feitas para outras páginas, pois ajudam a complementar o que é dito no texto. Todas estas opções ao nível da estrutura do texto são muito adequadas à plataforma em uso, incluindo as referências bibliográficas no final, que seguem as normas de referência.

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