Como o design brasileiro retrata a sua situação social

No passado dia 14 de Novembro, a turma de Design de Comunicação e Novos Media da Faculdade de Belas Artes recebeu como convidado o crítico e estudante de design, Frederico Duarte que apresentou a sua tese “O Desafio Contemporâneo do Design Brasileiro”.

Um dos temas por ele apresentado foi a colecção Stray Bullet por David Elia, que é composta por mobiliário de plástico que aparenta ter estado presente num tiroteio, em que os buracos são decorados com ilhós de ouro. David Elia diz ter-se inspirado numa cadeira de um bar que tinha sido alvo de balas. [1]

‘Survivor chair turns into luxury item. Chairs were target of shooting at a carioca bar from the Northern Zone of Rio de Janeiro. One of them, severely injured, was brought to our studio and, with luck, resisted the tragedy. And so, we celebrate it with our new Stray Bullet Collection.’-Design da Gema

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Fig. 1 Design de Gema, Stray Bullet Collection. “Empty used bullet shells pierce the surface of the crystal glass”.

Neste caso podemos ver como um objecto que está presente na vida da Classe C do Brasil, que é composta por mais de 100 milhões de pessoas, é ligeiramente modificado e utilizado como objecto de luxo para a Classe A. É feita um apropriação de um detalhe da vida quotidiana e violenta brasileira, para ser utilizada propositadamente nas casas de pessoas mais privilegiadas. Sendo o Brasil (Classe C) conhecido por design que actualiza e reutiliza materiais, os designers tem como obrigação criar produtos úteis e práticos e não produtos que chamem à atenção para uma situação, mas que ao mesmo tempo nada façam para ajudar a melhorar as condições de um certo cenário. É viável afirmar que esta apropriação desprestigia a sociedade brasileira, visto apenas querer vender peças de design não atribuindo o valor necessário à gravidade da situação.

A propósito deste tema lançado por Frederico Duarte, surge a problematização das dicotomias saussurianas – Significado/Significante. [2] Segundo Ferdinand de Saussure um signo é um signo apenas quando exprime ideias e suscita no espírito daquele ou daqueles que o recebem uma atitude interpretativa, sendo neste caso os signos as peças da colecção Stray Bullet. Um signo possui uma materialidade da qual no apercebemos com um ou vários dos nossos sentidos. Esta coisa de que nos apercebemos significa algo diferente – é a particularidade essencial do signo: estar lá, presente, para designar ou significar outra coisa ausente. É importante realçar que os signos por si próprios não têm significado, para se tornarem compreensíveis é necessária a existência de um código que estabeleça, dentro duma dada comunidade, a totalidade das relações entre significantes e significados, por forma a tornar possível a relação de significação. A colecção Stray Bullet por si só é apenas uma colecção de mobiliário mas atribuindo um significado e conteúdo é possível perceber que representa uma situação social violenta e ameaçadora.

Para concluir, penso que os designers têm um grande peso no processo de consciencialização e melhoria da situação social actual do Brasil, e devem usar a sua influência da melhor forma possível.

Nádia Silva


Palavras Chave

Design, Classe C, Significado, Significante


Notas

[1] David Elia, Stray Bullet installation at collective design reflects crime in Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.designboom.com/design/david-elia-stray-bullet-installation-collective-design-fair-new-york-design-week-05-20-2015/

[2 ] Raquel Basílio da Cunha, A relação significamte e significado em Saussure. Disponível em: http://www.revel.inf.br/files/artigos/revel_esp_2_a_relacao_significante_e_significado_em_saussure.pdf

One thought on “Como o design brasileiro retrata a sua situação social”

  1. Começa por afirmar que “neste caso podemos ver como um objecto que está presente na vida da Classe C do Brasil, que é composta por mais de 100 milhões de pessoas, é ligeiramente modificado e utilizado como objecto de luxo para a Classe A”. Qual é o objecto? A cadeira? O banco? Estes estão em todo o lado. O que interessa é perceber o objectivo do designer. A seguir propõe que “é feita um apropriação de um detalhe da vida quotidiana e violenta brasileira, para ser utilizada propositadamente nas casas de pessoas mais privilegiadas.” Ora aqui reside a questão central: qual a natureza deste projecto da David Elia? Sou tentado a pensar que se trata de um manifesto e não de um projecto de design industrial. Se for por aí, estes objectos só se destinam a quem os puder adquirir porque o seu mercado é o da arte.
    Contudo, por via dos equívocos que o designer e os críticos geram, bem como quem tem acesso ao objecto (que geralmente está exposto numa galeria) condicionam a sua leitura e somos levados a pensar que existe uma utilidade natural que não pode ser ignorada: uma cadeira ou um banco servem de assento. Neste caso, não. Servem de statement mesmo que mal explicado pelo autor.
    A relação com a teoria da comunicação dos objectos/ícones (significado / significante) é essencial para se compreender este fenómeno de absorção cultural e social. Mas não basta indicá-la, há que associá-la ao fenómeno brasileiro.
    Fica muito por dizer e a conclusão acaba por não o ser: “penso que os designers têm um grande peso no processo de consciencialização e melhoria da situação social actual do Brasil, e devem usar a sua influência da melhor forma possível”. Isto poderia ser a introdução do post. Seguia-se o como? e o porquê?
    O post não tem links que permitam aumentar o conteúdo do dito.

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