O porquê do cartaz político

Lucas Gómez

O cartaz político como expressão e manifestação crítica de uma época histórica. Leitura crítica sobre a conferência “Cartel (Poster) Político en Chile: 1970 y 1973 por Mauricio Vico” – Masterclass com Mauricio Vico e José Bártolo

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http://www.belasartes.ulisboa.pt/cartel-politico-en-chile-conferencia-de-mauricio-vico/

A partir das perspectivas colocadas por Mauricio Vico e José Bártolo pode-se analizar o porquê do cartaz político hoje, a sua importância e o papel que (continua a) desempenha (r).Tanto a conferência como a masterclass colocou elementos significativos de análise do cartaz como meio de manifestação cultural, voz representativa de luta e descontentamento social.

O “cartel” político de esquerda chilena, no governo da Unidade Popular

O “cartel” político de esquerda chilena, utilizado durante a governação da Unidade Popular (UP), toma as ruas, alguns meses prévios à eleição do 4 de setembro de 1970, na qual foi eleito o novo presidente, Salvador Allende (1970-1973). O “cartel” detém a palavra e a imagem para manifestar a urgente necessidade de uma mudança radical no rumo das políticas exercidas até então, pelo governo chileno de Eduardo Nicanor Frei Montalva. Esta necessidade de renovação política, social e cultural foi expressa com o “cartel”, mediante as novas formas discursivas da época. Durante o período do governo da UP, o “cartel” político manifestou as preocupações de um governo socialista, em confronto ao rumo que a ideologia capitalista, vinha a impor na América Latina, na agitada segunda metade do século XX. Porém o “cartel” tem um grande valor histórico, dá conta do cenário social e cultural que atravessa uma sociedade num momento determinado.

Projeto 40 anos cartaz político no Chile
http://afichepoliticoenchile.cl/1970-1973/

Em termos de design, o “cartel” político chileno e produto da necessidade de comunicação na complexa trama da época, as influências na narrativa e na linguagem visual foram dadas pelas necessidades políticas e as novas correntes artísticas: o “cartel”cubano, o Pop Art dos anos 60’s, a psicodelia, a escola suíça de design -Basileia-.

Projeto 40 anos cartaz político no Chile
http://afichepoliticoenchile.cl/1970-1973/

Com a finalidade de dar continuidade ao estudo do “cartel”e o seu discurso, Mauricio Vico apresentou o projeto “Que se vajan todos! Los movimentos sociales y estudiantiles 2011-2013“. A partir dos movimento estudantil que começou em 2006, o projeto tem registado uma vasta coleção de cartazes utilizadas pelas diversas manifestações. A partir desta leitura documental, Mauricio Vico destaca a mudança nas maneiras de protesto, a festa como ato de rebeldia coletiva, o uso das plataformas em internet -as chamadas redes sociais- e o desenho de cartazes de autoria coletiva. Alguns exemplos são o colectivo Gente Común; Mano Alzada e Gráfico Recabarren, entre outros.

“El cartel político una “vieja forma, su constante es sempre la representación del colectivo social, a través de las marchas, los mitin políticos. En este escenario, logra su funciona, su essência; la representação del  descontento, de la rebelión, de la crisis y la crítica, expresándose en el muro, el único lugar, que aún segue perteneciéndonos a todos.” [1]

Com todo o material apresentado é de destacar o enorme esforço que Mauricio teve em classificar, organizar e retomar a história do Chile, de fazer um resgate à cultura a partir do “cartel” político. No âmbito da masterclass, este ponto ficou explicito, trazendo a experiência do trabalho de campo para a aula, onde o trabalho da pesquisa adquiriu a forma de experiência, de convívio direto com o fenómeno estudado.

O análise do cartaz, por José Bartolo

A apresentação do docente e investigador José Bártolo, foi dirigida desde uma perspectiva abrangente, remetendo-se à críticos e teóricos como Rick Poynor, Paul Ricoeur e Roland Barthes, entre outros. A partir de uma tematização da problemática, foi possível entender o fenómeno do cartaz em diferentes níveis.

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http://observador.pt/2015/04/30/1-maio/

Ao coincidir com o trabalho de Mauricio, a análise abordou o cartaz político como arquivo, como suporte documental para produzir conhecimento. Isto é, os conceitos de ideologia e utopia, associados à construção de legitimação, identificação, alternativa ao poder e exploração do possível, foram destacados como elementos de análise. [2] No decorrer da apresentação foi possível estudar a peça cartaz como fenómeno semiótico de comunicação e significado.

O Porquê do cartaz

Considero importante destacar a ideia, em referência a um texto de Roland Barthes, que José citou sobre o valor da peça, de produzir significado mediante uma mensagem percetiva e em perspetiva cultural, estas são noções que colocam o fenómeno cartaz como expressão contemporânea e dado de informação histórica. Por outro lado, resulta interessante pensar a peculiaridade do cartaz; a sua espécie de “aura”. A parecer, é uma das poucas peças de comunicação na qual, a humanidade e suas vozes de reivindicação estão presentes, sem importar o meio de exposição da peça. Resulta significativa essa característica, ja não importa qual “muro” se utilize para colar um cartaz, nós sabemos do desencanto, da indignação ou que alguma coisa, precisa ser mudada.

http://pt.euronews.com/2016/04/04/polonia-protesto-em-varsovia-contra-proibicao-total-do-aborto

http://occupyposters.tumblr.com/

“Digital networks are infusing posters produced to contest an outrage or support a cause with a new lease of life. This kind of message has two places to attract attention now — out in the world and online — and the poster-making urge is benefiting from the same viral meme effect seen across our entire hyper-connected culture.“ [3]

1. “Que se vajan todos! Los movimentos sociales y estudiantiles 2011-2013”. Conferência no Auditório Maior, Facultade de Belas Artes, ULisboa, outubro de 2016.

2. “L’Ideologie et l’utopie” , Paul Ricoeur.

3. http://designobserver.com/feature/why-the-activist-poster-is-here-to-stay/36068

One thought on “O porquê do cartaz político”

  1. Este artigo foca-se nos 2 pontos principais ligados à produção do cartaz político: o cartaz político como manifestação cultural e o seu valor documental numa perspectiva histórica. Ou seja, o cartaz político e a sua propensão para produzir conhecimento.

    Mauricio Vico fez o levantamento e catalogação de cartazes políticos produzidos no Chile desde a eleição de salvador Allende até aos nossos dias, o que foi um trabalho complicado, uma vez que não havia informação sobre o tema. Isso obrigou o autor a fazer verdadeiro trabalho de campo, em convívio directo com os agentes que produziram ou fizeram produzir esses mesmos cartazes. A classificação e organização dos mesmos esteve sempre interligada com uma análise da história do Chile e o estudo destes objectos não faz sentido dissociado do contexto em que foram criados.

    Este tipo de abordagem permite uma leitura documental destes objectos de comunicação e permite estabelecer paralelismos entre mudanças sociais e mudanças na estrutura formal e na mensagem que é comunicada pelo cartaz político. Como o Lucas refere ele “tem um grande valor histórico, dá conta do cenário social e cultural que atravessa uma sociedade num momento determinado.”

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