O design (a)crítico do Brasil

Pedro Costa

No Brasil, a ascensão da denominada classe C é responsável por um novo padrão de consumo, remetendo para aquisições a nível de televisores, computadores, telemóveis, electrodomésticos e até mesmo automóveis. A partir desta questão, Frederico Duarte observa o modo como o design se torna adaptável e, se antes existia a ideia de que era algo feito de uma elite para outra elite, agora este preocupa-se com o crescimento da classe C e com aquilo que estas pessoas querem, desejam e procuram, tentando trabalhar numa lógica que tenha em conta estas questões. Ainda assim, o design percorre um caminho incerto, ao ser necessário determinar o seu papel neste contexto: maximizar as vendas, tentando perceber se a classe média baixa pretende ter os mesmos usos, vícios e desejos da elite, procurando alcançar esta ideia de estatuto social enaltecido, e aqui surge o factor favela, que procura aproximar-se da população explorando estereótipos brasileiros como motivo de venda; ou procurar desempenhar uma função social que tenha um impacto nesta sociedade. Deverá o design tentar maximizar o rendimento comercial através da oferta de produtos e serviços numa lógica de mercado adaptado à população, ou deverá assumir um papel social e procurar formas que ajudem a mudar esta mentalidade?

Factor favela: estereótipos vendedores

O factor favela remete para o modo como alguns designers exploram uma dimensão estereotipada da população brasileira, servindo-se disso como uma forma de vender os seus produtos, quer à população, quer a um público estrangeiro. Assim, através de meios que perpetuam estas ideias daquilo que é o Brasil, procura-se desenvolver produtos e serviços cujo conteúdo e respectivas estratégias de divulgação incluam referências simbólicas que remetam para o estereótipo do universo popular do Brasil [1] [2] [3] [4], o que para Frederico Duarte constitui uma “muleta formal muito pouco interessante”. A verdade é que através deste tipo de estratégias, se reforçam determinadas ideias relativas às vivências e características do cidadão brasileiro, o que apesar de, possivelmente, representar mais vendas, acaba por banalizar culturalmente questões de carácter social que se revestem de grande importância num contexto exterior a esta lógica de mercado [5] [6]. É também importante perceber até que ponto é que esta abordagem mistura origem com identidade e oportunidade social com oportunismo, uma vez que tratar despreocupadamente questões deste teor com fins comerciais desvaloriza e desrespeita o próprio povo brasileiro.

(Do topo para baixo, esquerda para a direita) 1. “Próteses e Enxertos” — Studio MK27, 2010; 2. “Cadeira Favela” — Irmãos Campana, 2003; 3. “Próteses e Enxertos” — Studio MK23, 2010; 4. “Neorustica” — Brunno Jahara, 2010; “Bala Perdida” — David Elia, 2011; 6. “Colecção Batucada” — Brunno Jahara, 2010.

O design enquanto um agente socialmente interventivo

Face à transformação económica cujo crescimento da classe C implicou, o único caminho viável e válido para o design não é o que se insurge como óbvio: alterar os métodos de produção de modo a corresponder às expectativas comerciais da população de modo a maximizar o número de vendas obtido; mais do que nunca, torna-se significativamente relevante que o design se constitua como um instrumento de mudança social capaz de chegar à população e provocar algum tipo de impacto ou transformação no seu comportamento. Ao procurarem clientes que pensem como eles, os designers passam a ter a possibilidade de criar condições de trabalho que correspondam às suas posições éticas e que lhas permitam pôr em prática através de projectos socialmente relevantes [7]. É, nomeadamente, possível obter este tipo de abordagens com efeitos positivos fora de áreas culturais ou sociais, dado que ao apostar-se neste tipo de design em cadeias como a coca-cola, se obtêm efeitos de enorme impacto, visto terem uma grande abrangência e importância económica. No Brasil, exemplos tão simples como o das calças primark [8] dado por Frederico Duarte revestem-se de grande impacto, visto que ao expôr um objecto do dia a dia facilmente reconhecível e capaz de suscitar interesse, se torna possível aproximar a população de uma nova perspectiva que a expõe a um lado bastante polémico e questionável da indústria, neste caso de vestuário.

(Da esquerda para a direita) 7. Cartazes Oficina ARARA, 2013; 8. “Denim Co Ganga Slim Fit” — Produzido para e vendido pela Primark, 2013.

Design crítico para sociedades acríticas

Num contexto económico no qual o modelo dominante é o capitalismo, a tendência será sempre a de procurar maximizar o número de vendas, investindo-se para isso em estratégias mais eficientes e lucrativas, independentemente das suas implicações a níveis sociais, culturais, e éticos. Os designers, enquanto escultores visuais destes meios que estabelecem contacto entre população e produto, devem questionar-se acerca do seu papel social e de qual a posição mais justa a tomar. No Brasil, o crescimento da classe C mune as pessoas de uma possibilidade de compra superior, o que constitui uma vantagem para as indústrias de grande dimensão que apostam na ingenuidade da população, construindo objectos simbolicamente próximos desta e procurando estabelecer um ideal de elite de modo a que a população consuma cada vez mais para alcançar este falso estatuto social. Cabe aos designers, enquanto agentes socialmente conscientes, combater este tipo de abordagens, como o factor favela, que desvalorizam as pessoas enquanto seres humanos e as encaram enquanto números, apostando em meios criticamente pertinentes e que informem e fomentem uma atitude crescentemente crítica na população de modo a que os cidadãos se constituam como elementos socialmente e culturalmente informados de modo a terem discernimento para tomarem decisões conscientes e devidamente pensadas, sem serem influenciadas ou manipuladas por entidades que procuram, acima de tudo, o lucro. O design detém assim os meios para exercer a sua função de transformação social e se constituir como um agente capaz de tornar crítica uma sociedade que se quer cada vez mais acrítica.


Palavras-chave

brasil, frederico duarte, fator favela, critical design


Notas

  1. Aplataforma. (2013). Entrevista: Frederico Duarte. Disponível em: <http://aplataforma.org/post/51197049170/entrevista-frederico-duarte>;
  2. A CASA. (2013). O Brasil é a imagem do futuro do mundo. Disponível em: <http://acasa.org.br/biblioteca/texto/463>;
  3. DUARTE, Frederico. Alvorada. Disponível em: <http://www.alvorada.org>;
  4. DUARTE, Frederico. (2011) O Fator Favela. Disponível em: <http://www.05031979.net/2011/06/o-fator-favela/>;

One thought on “O design (a)crítico do Brasil”

  1. Não chega a abordar concretamente o assunto inscrito no título do post: O design (a)crítico do Brasil.
    No final afirma que “o design detém assim os meios para exercer a sua função de transformação social e se constituir como um agente capaz de tornar crítica uma sociedade que se quer cada vez mais acrítica”. Há aqui uma contradição que suscita dúvidas sobre o que significa a crítica em design.

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