Como a favela virou um tema recorrente dentro do design Brasileiro e Internacional

(Marina Abramovic junto com Riccardo Tischi no Tate Americas Foundation Artists Dinner em New York City, May 8, 2013)

Abstracto
Com a consequência da pacificação de algumas favelas, elas se transformaram em lugares turísticos e exóticos, criando uma popularização convidativa para turistas. Esta popularização, e glamourização da favela trouxe uma nova importância às comunidades a nível social e económico, transformando a favela, que antes era apenas uma comunidade pobre, para um tema recorrente e presente nos mais diversos temas dentro da arte e do design.

Contextualização
A palestra “O Desafio Contemporâneo do Design Brasileiro” por Frederico Duarte, que aconteceu no dia 14 de Novembro de 2016, na faculdade de belas artes em Lisboa, levantou imensos temas interessantes como o design brasileiro de mobiliários de luxo, o design acessível, as culturas de consumo do país, os contrastes sociais, os constantes problemas políticos e económicos, a glamourização da pobreza, a diferença entre o design de luxo contra o design acessível, apenas para nomear alguns temas. Dentro de todos os tópicos, um me chamou mais a atenção, e esse seria o como que a favela passou de um ambiente onde apenas os moradores e a polícia tinham motivos para entrar nestas comunidades, para um ambiente exótico, de turismo, com uma estética interessante para quem vem de outro contexto, e como tudo isso levou a uma maior popularização da favela, transformando-a até em temas para suportes que nunca antes ligaram para ela, tentando entender esta ascensão a popularidade através da política, da economia e da sociedade.

Análise
É interessante reconhecer, após algumas leituras de diversos textos sobre o assunto de diferentes perspectivas e escritores, que existem duas extremas visões da favela e da pobreza, levando a sua condenação ou glamourização. Grande parte das pessoas que defendem a favela acabam por ter chavões atribuídos como “esquerda caviar”¹, para aqueles que são mais virados para a visão política de extrema esquerda. E por outras pessoas tipicamente pertencentes a um direita mais conservadora, àqueles que criticam e atacam as favelas, as comunidades, e seus moradores, recebem igualmente chavões como “coxinhas”².

Com isso, percebemos uma pequena parcela do problema da discussão desse tema, possuímos pessoas de diferentes visões políticas a discutir uma realidade que não lhes pertence, ignorando por grande parte a opinião da própria pessoa que mora na favela.

O livro “Um país chamado Favela” de Renato Meirelles e Celso Athayade, reúne entrevistas de moradores de mais de 60 favelas [1], tentando fornecer uma visão realista e apartidária dessas comunidades, e que ao ver de Rodrigo Constantino [2], nomeadamente liberal e “sem medo de polémica ou de patrulha da esquerda ‘politicamente correta’”, diz que apesar do livro ter como principal intenção esta visão realista e apartidária, ele tende a se esquivar para visões mais esquerdistas, simplesmente por conter entrevistas com pessoas que possuem argumentos muitíssimos válidos, mas que no fundo transpiram a sua inclinação política.

Acredito que grande parte da culpa de ainda existir problemas sociais e de pobreza no Brasil, e neste caso especificamente das favelas do Rio da Janeiro, é por ainda existir uma monstruosa rivalidade política e partidária no país, onde obtemos argumentos, opiniões e visões importantíssimas ignoradas simplesmente por rixas políticas. Infelizmente, na situação do Rio de Janeiro, estes problemas são muito mais complexos do que apenas esta rivalidade política, desde a infraestrutura da cidade que não favorece quem mora longe, e não possibilita a saída da favela por condições financeiras e geográficas, dos órgãos públicos sucateados e precários que servem apenas as classes que não possuem renda para recorrer a serviços privados, ordenados mínimos incoerentes com os custos e gastos e para uma vida minimamente digna, e milhares de outros factores.

A alguns anos, algumas favelas começaram a ser ocupadas pelas UPPs, Unidade de Polícia Pacificadora, [3] que por um lado bom, conseguiram diminuir a frequência dos tiroteios, diminuíram a criminalidade e os pontos principais de tráfico dentro das favelas, mas que infelizmente, não resolvem o problema principal do crime organizado no Rio de Janeiro, pois a localidade simplesmente favorece, mas os criminosos não dependem inteiramente desta localização, resultando em paz limitada com data e hora para acabar, tendo recentemente unidades fechadas por precariedade devido a falta de investimento do órgão público, e  a consequente retomada dos criminosos e dos confrontos armados [4][5][6][7] retomando a um estado crítico que tinha deixado de ser realidade há alguns anos. Mas interessantemente, as favelas da Zona Sul, a zona rica de classe média e alta, continuam muito mais tranquilas do que muitas das favelas que foram pacificadas em zonas pertencentes à classe baixa.

A zona sul é a zona principal de turismo do Rio de Janeiro, conjuntamente com suas favelas exóticas com vistas espectaculares das praias e das montanhas que cercam a cidade.

Estas características exóticas chamam muito a atenção de turistas, principalmente pela vistas, mas também por uma certa glamourização da pobreza, criando tours onde os turistas são levados por um Jeep para ver as ruelas, e construções improvisadas de moradores da comunidade, tal como um safari.

Além deste turismo mais distanciado e “seguro”, começaram a surgir outras formas de lucrar, que por um lado positivo, começa a gerar renda aos moradores, como a popularização dos bailes funks, que antes eram exclusivos para os moradores e patrocinados pela própria comunidade, sem intervenção alguma do governo, e também, junto com estas pacificações, começa a ser mais atractivo viver uma experiência mais completa na favela, possuindo diversos apartamentos criados pelos próprios moradores para aluguer turístico,[8][9] garantindo uma completa experiência local da comunidade.

A partir do momento em que o turismo passa a ser viável, o interesse do governo aumenta, e a garantia da pacificação das favelas mais “internacionais” passa a ter uma maior prioridade do que das outras favelas sem interesse turístico e mais afastadas da zona sul, começam também as preocupações com a infraestrutura, saneamento e transporte público para uma maior aquisição de impostos, demonstrando uma maior preocupação e prioridade em relação ao lucro, e não com o bem estar dos cariocas mais pobres.

Esta glamourização começa a se expandir além do turismo, passando a ter presença em estampas de roupas de marcas internacionais como a Givenchy [10], e até o mobiliário de luxo [11] e artístico[12], e de pouco em pouco, a favela se transforma em algo mais aceitável pelas pessoas não pertencentes daquela realidade, se tornando um símbolo de status social possuir contactos ou presença na favela, que por vezes, nem sempre acaba sendo o caso de quem consome algum produto com o dado tema. Mas, que de fato, leva a uma possuir uma presença na média, trazendo notoriedade à estas comunidades – grande parte das vezes por outros motivos que não são a preocupação social – e inevitavelmente, junto com a sua glamourização, traz conhecimento em paralelo, mesmo que seja muito menor do que a sua fama, sobre as dificuldades e as necessidades da comunidade e das pessoas que a habitam.

Conclusão
O objectivo desta reflexão é de tentar perceber como a favela virou um tema recorrente dentro do design, da moda e do mobiliário, analisando a situação socioeconómica do Rio de Janeiro e como as favelas e seus moradores fazem uma grande parte do que é o Brasil carioca, e de como as classes baixas possuem influência económica e cultural, não querendo criticar quem criou negócios e lucrou com a popularização da favela, mas sim gerar consciência sobre os problemas das favelas, e aprender com as coisas boas para a construção de ideias e pensamentos que podem servir de base, ou de factor impulsionador para uma melhora social, pois ao mesmo tempo em que estas comunidades possuem imensos defeitos – mas que não justificam o ataque, proveniente da extrema direita, e a culpabilização do morador e da comunidade, elas também possuem as suas boas características que também não podem ser elogiadas como um todo, ignorando os outros aspectos ruins em relação à segurança, infraestrutura e qualidade de vida – apenas para nomear alguns – pela extrema esquerda, mas sim de suprir esta enorme necessidade de cooperação entre ambas extremidades políticas, resultando em um governo com menos rivalidades, e mais atencioso com a sua nação, para, eventualmente, desenvolver um futuro minimamente digno para todos.

Notas de Rodapé
1 – Termo pejorativo proveniente da língua francesa, Gauche caviar, utilizado para descrever alguém que se diz socialista mas que leva uma vida de luxo e glamour.
2 – Gíria pejorativa usada para descrever uma pessoa burguês de classe média e alta de extrema direita.

Referências
[1] Renato Meirelles e Celso Athayde, Um País Chamado Favela, 2014 ( Rio de Janeiro, Editora Gente), acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.editoragente.com.br/livro/286/um-pais-chamado-favela.

[2] Blog do escritor e economista Rodrigo Constantino, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://rodrigoconstantino.com/.

[3]  Rute Imanishi Rodrigues E Eugênia Motta, A Pacificação das Favelas do Rio de Janeiro e as Organizações da Sociedade Civil, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/boletim_analise_politico/1301017_boletim_analisepolitico_04_cap4.

[4] “Quatro policiais são baleados em favelas pacificadas nesta quinta-feira”, O Dia, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-04-07/quatro-policiais-sao-baleados-em-favelas-pacificadas-nesta-quinta-feira.html.

[5] “Tiroteios assustam moradores de comunidades pacificadas“, O DIa, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-09-22/tiroteios-assustam-moradores-de-comunidades-pacificadas.html.

[6] “Rio tem tiroteios em favelas pacificadas e moradora é baleada nesta segunda”, R7, acessado dia 20 Novembro de 2016 http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/rio-tem-tiroteios-em-favelas-pacificadas-e-moradora-e-baleada-nesta-segunda-21032016.

[7]”A Pacificação do Complexo do Alemão Deu Certo?”, VICE, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.vice.com/pt_br/read/a-pacificacao-do-complexo-do-alemao-deu-certo.

[8] Empresa de turismo Favela Experience, acessado dia 20 de Novembro, https://favelaexperience.com/.

[9] Apartamentos para alugar por estadia no site AirBnB, acessado dia 20 de Novembro de 2016, https://www.airbnb.com.br/s/Rocinha–Rio-de-Janeiro–Brasil?page=1&s_tag=KIaSUR7f&allow_override%5B%5D=.

[10] ”Carol Celico usa camiseta de 8 mil com a palavra ‘Favelas’ e é criticada por seguidores“, Veja SP, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://vejasp.abril.com.br/blogs/pop/2016/01/08/carol-celico-usa-camiseta-de-8-mil-com-a-palavra-favelas-e-e-criticada-por-seguidores/.

[11] Aparador Favela, Oficina Irmãos Marques, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.gezomarques.com/favela-aparador4/.

[12] “Stray Bullet”, Design da Gema, acessado dia 26 de Novembro de 2016, http://www.davidelia.com/projeto/stray-bullet/.

[1] Renato Meirelles e Celso Athayde, Um País Chamado Favela, 2014 ( Rio de Janeiro, Editora Gente), acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.editoragente.com.br/livro/286/um-pais-chamado-favela.

[2] Blog do escritor e economista Rodrigo Constantino, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://rodrigoconstantino.com/.

[3]  Rute Imanishi Rodrigues E Eugênia Motta, A Pacificação das Favelas do Rio de Janeiro e as Organizações da Sociedade Civil, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/boletim_analise_politico/1301017_boletim_analisepolitico_04_cap4.

[4] “Quatro policiais são baleados em favelas pacificadas nesta quinta-feira”, O Dia, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-04-07/quatro-policiais-sao-baleados-em-favelas-pacificadas-nesta-quinta-feira.html.

[5] “Tiroteios assustam moradores de comunidades pacificadas“, O DIa, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-09-22/tiroteios-assustam-moradores-de-comunidades-pacificadas.html.

[6] “Rio tem tiroteios em favelas pacificadas e moradora é baleada nesta segunda”, R7, acessado dia 20 Novembro de 2016 http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/rio-tem-tiroteios-em-favelas-pacificadas-e-moradora-e-baleada-nesta-segunda-21032016.

[7]”A Pacificação do Complexo do Alemão Deu Certo?”, VICE, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.vice.com/pt_br/read/a-pacificacao-do-complexo-do-alemao-deu-certo.

[8] Empresa de turismo Favela Experience, acessado dia 20 de Novembro, https://favelaexperience.com/.

[9] Apartamentos para alugar por estadia no site AirBnB, acessado dia 20 de Novembro de 2016, https://www.airbnb.com.br/s/Rocinha–Rio-de-Janeiro–Brasil?page=1&s_tag=KIaSUR7f&allow_override%5B%5D=.

[10] ”Carol Celico usa camiseta de 8 mil com a palavra ‘Favelas’ e é criticada por seguidores“, Veja SP, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://vejasp.abril.com.br/blogs/pop/2016/01/08/carol-celico-usa-camiseta-de-8-mil-com-a-palavra-favelas-e-e-criticada-por-seguidores/.

[11] Aparador Favela, Oficina Irmãos Marques, acessado dia 20 de Novembro de 2016, http://www.gezomarques.com/favela-aparador4/.

[12] “Stray Bullet”, Design da Gema, acessado dia 26 de Novembro de 2016, http://www.davidelia.com/projeto/stray-bullet/.

Yago Murakami

One thought on “Como a favela virou um tema recorrente dentro do design Brasileiro e Internacional”

  1. Apesar do objectivo do post — tentar perceber como a favela virou um tema recorrente dentro do design — não chegas a desenvolvê-lo. No entanto há uma contextualização interessante e necessária para se perceber uma realidade específica. Agora há que explorar a ‘inclusão’ do design, se existe essa possibilidade e se não é mais uma tática comercial.
    Em suma, como pode o designer intervir com o seu trabalho num território de intensa exploração política e social?

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