O cartaz como instrumento político-ideológico

1- Children, what do you know of the leader?, Alemanha, 1933 / 2- A Conquistar Nuestro Derecho a La Educacion Ahora!, Chile, 1971 / 3- Rick Black, EUA, 2011

 

Com um papel de destaque em guerras e revoluções sociais e políticas, o cartaz foi e continua a ser usado para mobilizar populações e influenciar a opinião pública. Com um lugar particular na propaganda e no discurso de poder, o cartaz contribuiu para sustentar ditaduras ou surge mesmo como símbolo de protesto, activismo ou impulsionador do debate. Dependendo do seu objectivo, os seus conteúdos e forma podem provocar diferentes efeitos. Se por um lado podem promover a inércia social e um conformismo com o status quo, por outro podem suscitar uma atitude crítica, expondo problemas e levantando questões que promovam a mudança.

 

Propaganda ou informação?

Ao longo da história, particularmente ao longo do século XX, os cartazes desempenharam um papel estratégico na comunicação para a tomada de poder político, militar e económico. Ao permitirem uma pluralidade de discursos, com flexibilidade na sua afixação e omnipresença no espaço urbano, os cartazes revelam um poder de grande alcance que foi facilmente reconhecido por diversos regimes políticos. O objectivo era comum: influenciar a opinião pública. Através da criação de linguagens icónicas, evocações históricas e valores morais e uso de signos (re)conhecidos pelas populações, os cartazes políticos nestes contextos foram capazes de apelar ao orgulho pela pátria e ao conformismo e adesão a uma causa comum. Neste sentido, há uma exploração dos cartazes como canais de grande alcance, de forma a chegar a segmentos do público amplos, sendo vistos meramente como um instrumento para a persuasão ao serviço do poder. [1, 2]

Contudo, o cartaz político nem sempre se confinou na intenção persuasiva da propaganda. No caso do movimento estudantil chileno que surge em 2011 isso é evidente. Há uma recuperação do uso de cartazes mas que vai para além de ideologias partidárias, tornando-se numa arma para a crítica e resistência e veiculando um discurso plural. Parte de uma posição não de conformidade, mas de contestação e consciência social, identificando o interesse público e promovendo ideias e acções na sociedade, procurando informar e mobilizar os estudantes e suas famílias para lutar pela melhoria do sistema de educação do país. Tirando partido da dissolução da autoria no cartaz que dá lugar à criação colectiva e anonimato, permite comunicar informação que questiona o status quo de uma maneira que os canais de televisão, por exemplo controlados por grupos privados, não permitem. [3]

Este tipo de cartaz, ao contrário da propaganda agressiva, revela um comprometimento com a cidadania e deixa de partir das instituições partidárias para passar a ter origem no próprio público. Com esta democratização do cartaz e emergência de um modelo “do it yourself”, cada um pode fazer um cartaz e este deixa de ser um instrumento de persuasão exclusivo de poucos para passar a ser uma arma de luta para todos. Uma arma que não tem apenas de estar ao serviço dos líderes políticos, mas que pode ser utilizada pelos próprios cidadãos como meio para impulsionar uma atitude mais interventiva e menos passiva. [3]

 

 

O cartaz político, os novos media e o Design

Talvez fosse previsível que com a difusão dos novos media, os “tradicionais” cartazes se tornassem obsoletos, mas parece haver indícios que não é isso que acontece. Shepard Fairey, com Hope, demonstra isso mesmo ao criar um cartaz que se tornou icónico num período onde as redes sociais e televisão dominam como meios de comunicação nas campanhas eleitorais.

gallery-1432843145-obama-hope-poster14- Shepard Fairey, Hope, EUA, 2008.

Já no caso dos movimentos dos estudantes no Chile, a internet, redes sociais e o cartaz complementam-se e não se anulam. Quer digital ou físico, ou mesmo adoptando diferentes linguagens e processos de distribuição, o cartaz que agora se estende para além de uma parede numa cidade, continua a contribuir para influenciar a opinião pública. Neste sentido, o poder e alcance social do cartaz parece não se ter deixado absorver pelos novos media. [4, 5]

 

Pensemos então nos cartazes políticos de duas formas: não só como objectos e testemunhos da história, mas também como algo ao alcance de todos e que contribui para a mudança social. A instrumentalização dos cartazes para fins políticos também demonstra que não há neutralidade em design: todas as escolhas que fazemos desde os códigos verbais e visuais, às mensagens que comunicamos, podem construir uma realidade pública. Assim, não só os objectos do design mas também o próprio processo projectual são actividades políticas, pelo que as questões ideológicas e o próprio papel do design devem ser colocados em cima da mesa para nós, como designers, termos práticas mais sustentáveis e responsáveis.

 

Sofia Machado

 


Palavras-chave

cartaz político, propaganda, activismo, design

 

Notas

[1] FRAGOSO, Margarida. Design Gráfico em Portugal. Formas e expressões da cultura visual do século XX. Livros Horizonte. (2012) p. 22-23

[2] VICO, Mauricio. El cartel político del gobierno de Salvador Allende (1970-1973). Disponível em <http://www.monografica.org/02/02/Art%C3%ADculo/3956>

[3] VICO, Mauricio. La Lucha es de todos. Movimientos juveniles y cartel en Chile. Disponível em <http://www.monografica.org/02/02/Art%C3%ADculo/3624>

[4] HENDRIX, Michael. Can Political Posters Still Make a Difference? Disponível em <http://eyeondesign.aiga.org/do-political-campaign-posters-really-matter-anymore/>

[5] POYNOR, Rick. Why the Activist Poster is Here to Stay. Disponível em <http://designobserver.com/feature/why-the-activist-poster-is-here-to-stay/36068>

One thought on “O cartaz como instrumento político-ideológico”

  1. Optei por comentar o post da Sofia pois o discurso pareceu complementar ao texto que escrevi.
    Se há algo que podemos retirar da conferência de Mauricio Vico é a constatação que o cartaz foi e é um instrumento de construção e/ou manipulação da opinião pública, quer seja, em formato propaganda para regimes ditatoriais, quer sejam palavra de ordem escritas pelas manifestações. Contudo pareceu-me relevante a questão que a Sofia coloca no final do texto, qual o papel do Design, uma vez que tal instrumento visual tem tanta presença (online ou na rua)?

    A resposta não será simples nem rápida, pois desprendimento e desinformação de conhecimento político é algo transversal a outras disciplinas além do Design. A resposta é: Educação. Será através da reformulação dos planos educacionais, integrando os mais jovens, potenciais designers e artistas, a interessarem-se pelas questões políticas, sociais, cívica e comunitária.

    Porém a politização do designer não será suficiente para um paradigma actual, pois um designer facilmente consegue expressar visualmente a sua opinião e divulgada online. Será imperativo que haja uma mudança de mentalidade e maior receptividade por parte das outras disciplinas, em considerar o Design como mais um aliado na construção de uma sociedade mais justa, sustentável e cívica.

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