A “brasilidade” do design – converter a adversidade em oportunidade

O conceito de identidade no design está ainda muito agarrado a uma ideia de formalismo. Como se a identidade estivesse apenas relacionada com opções estéticas, e como se estas fossem independentes do contexto. Esta visão está tão enraizada que muitas vezes o design é tido como valor acrescentado, ao invés de ser reconhecido como actividade projectual essencial para a existência do próprio objecto. “O design não é, em termos filosóficos, um accidens. Não se pode agregá-lo a nada, pois é intrínseco a cada artefato. É essentia.” (Bonsiepe, 2011)

A identidade encontra-se intrinsecamente ligada com o contexto, uma vez que por definição ela é o que caracteriza e distingue o indivíduo (ou objecto) perante os demais. “O conceito de identidade é um tema que aparece constantemente nos debates sobre o design na América Latina. Pergunta-se: Qual é a ‘mexicanidade’ ou a ‘brasilidade’ do design? De forma geral, a identidade é interpretada em termos de uma determinada configuração formal e cromática de um produto ou de um projeto de design gráfico. Mas não devemos limitar a identidade aos aspectos estético-formais, pois a identidade se manifesta também e, principalmente, nos tipos de problemas que surgem em determinado contexto.” (Bonsiepe, 2011)

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Fernando e Humberto Campana. Cadeiras

O Brasil vive neste momento um período de ebulição política, económica e cultural. Com uma das sociedades mais desiguais do mundo e um dos mercados internos mais movimentados há, no Brasil, uma grande vontade de fazer, e ao mesmo tempo, uma grande falta de meios. “Projectar para o Brasil de hoje é um dos maiores desafios para qualquer designer. Mas ser designer no Brasil, agora, significa também trabalhar com as possibilidades e limitações de um país cuja sociedade está evoluindo mais rápido do que a sua indústria.” (Duarte, 2016)

Esta escassez de meios e a vontade de fazer mais com menos levou ao surgimento de soluções muito criativas e individuais para problemas de design, moldando assim a identidade do design brasileiro. Soluções estas que muitas vezes rompem com a metodologia projectual, recorrendo à tática na ausência de uma estratégia. Essas táticas estão profundamente enraizadas na capacidade de compreender objetos e agir sobre eles. Os designers vêem o mundo como abundante em soluções potenciais em vez de escasso em recursos.

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Kaio Chahad. Candeeiro

O design por definição tende a impor ordem, num mundo crescentemente mais complexo e desordenado. “Designers try to control the world, with grids, kerning, leading, spacing… meanwhile everything around us is out of control”. (Willer, 2014) Mas há na forma de pensar o design no Brasil, uma predisposição do designer para ceder o controle, deixando o contexto e o inesperado informar as decisões formais e estéticas.

“Outrora evitadas ou relutantemente toleradas, as restrições (financeiras, estéticas, sociais e outras) são frequentemente vistas, não como limites à expressão pessoal ou à liberdade profissional, mas antes como oportunidades para orientar o desenvolvimento de designs – como variáveis arbitrárias na equação que podem alterar o rumo de um design. Ao serem entendidas de um modo positivo, estas restrições injetam uma influência exterior num processo idealizado de outro modo; em alguns casos a introdução de um elemento de imprevisibilidade, e até de aleatoriedade, altera o rumo dos acontecimentos.” (Blauvelt, 2008)

Neste momento opera-se uma mudança de paradigma que é transversal a todas as disciplinas, que é a passagem de sistemas verticais hierarquizados para sistemas mais horizontais e cooperativos. O designer deixa de estar no topo do processo de comunicação, controlando a forma e o conteúdo da mensagem e passa a colocar-se ao nível da audiência. Há uma partilha do objecto de design e essa partilha é o que lhe dá forma e conteúdo, que será depois reabsorvido para gerar novas formas e novo conteúdo.

Talvez fruto da crise económica à escala mundial, por todo o mundo o design está a tornar-se mais “brasileiro”. A “brasilidade” é sinónimo de uma abordagem humanista e contextual do design, que se caracteriza por converter a adversidade em oportunidade criativa.

 


Referências:

One thought on “A “brasilidade” do design – converter a adversidade em oportunidade”

  1. Quando afirma por oposição ao “conceito de identidade no design está ainda muito agarrado a uma ideia de formalismo” e, mais à frente, diz que “a identidade encontra-se intrinsecamente ligada com o contexto, uma vez que por definição ela é o que caracteriza e distingue o indivíduo (ou objecto) perante os demais” está a estabelecer que os aspectos estético-formais poderão estar dissociados do contexto, o que não é verdade. Afinal o que é a identidade? Leia por exemplo o livro “Modernity and Self-identity : Self and Society in the Late Modern Age”, de Anthony Giddens.
    A palestra de Frederico Duarte coloca outras questões que têm a ver com a utilização de fenómenos culturais associados a preconceitos herdados da modernização de alguns países que viam em algumas manifestações populares uma possibilidade de as internacionalizarem (e.g. o samba, a bossa nova, o Rio de Janeiro, a iconografia azteca, a revolução cubana) transformados, depois, em clichés.
    “Neste momento opera-se uma mudança de paradigma que é transversal a todas as disciplinas, que é a passagem de sistemas verticais hierarquizados para sistemas mais horizontais e cooperativos. O designer deixa de estar no topo do processo de comunicação, controlando a forma e o conteúdo da mensagem e passa a colocar-se ao nível da audiência. Há uma partilha do objecto de design e essa partilha é o que lhe dá forma e conteúdo, que será depois reabsorvido para gerar novas formas e novo conteúdo”. Talvez resida aqui o aspecto mais interessante e não será só no Brasil mas em todo o lado.
    No entanto, há que explicar melhor a ‘brasilidade’ do design e a sua dessiminação porque me parece mais uma proposta de marketing (como o design italiano ou finlandês) do que outra coisa mais válida. Estou convencido que o design não se nacionaliza, operando no contexto e adaptando-se às circunstâncias materiais, políticas e culturais, sem perder o seu ADN.

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