Aprender “critical design” para olhar o mundo através dele

Pedro Costa

Critical design ganha cada vez mais destaque enquanto uma prática cuja abordagem consiste em utilizar o design com o objectivo de levantar questões e problematizar determinadas situações, por oposição a resolver obstáculos numa lógica comercial de eficiência máxima. Assim, esta abordagem funciona como um meio para pôr em causa os padrões dominantes do design a diversos níveis: a nível pessoal, focando-se na relação individual do designer com a sua prática; a nível disciplinar, trabalhando-se no sentido de alargar as fronteiras do design; e a nível exterior ao próprio design, procurando-se abordar questões de teor social que sejam pertinentes. Nesta acepção, o design constitui-se como uma ferramenta de crítica social, política e cultural, e passa a ser praticado numa lógica que pretende romper com os paradigmas instituídos até então, exaltando o espírito crítico de quem faz e de quem consome design, tendo este sido um dos principais temas abordados no III Encontros de Design de Lisboa.

Como tornar “critical” a “critical practice”

Partindo da exposição feita por Teal Triggs, é possível encarar diversas actividades enquanto formas de prática, sendo importante valorizar o que se constitui como critical practice. Para Triggs, o papel do crítico ganha uma nova dimensão, uma vez que encarado sob este prisma, é possível delinear a maneira como deve ser desempenhado. O crítico que aplica este paradigma à sua prática constitui-se como um pensador e um criador, dado que passa a pensar na componente ideológica por trás do seu trabalho, tendo a capacidade de questionar as acepções generalizadas daquilo que possui valor cultural, e que, posteriormente, aplica esse lado à sua prática. Assim, e parafraseando Teal Triggs, “[…] the act of creating something by thinking is critical design.”. Para que a prática e consequências resultantes se constituam como critical, é necessário que esta abordagem integre o próprio processo que antecede a sua execução, uma vez que o designer tem de pensar criticamente a sua prática e conteúdos para que estes ganhem um novo significado e possam ter um impacto que vá de encontro a este paradigma. Ainda assim, para que esta ideologia possa verter para o nível disciplinar e social, é indispensável que parta da prática pessoal de cada um; e a verdade é que nem todos possuem a capacidade de, espontaneamente, assumir uma atitude crítica relativamente à sua prática, sendo importante entender de que modo é que se torna possível integrar esta abordagem a nível de prática individual. Afinal, como podemos ser critical?

1. e 2. “Pussy Galore”, 1994 — Projecto crítico e experimental “typeface”, acerca do trabalho de design feito por mulheres, feito por Teal Triggs, Liz McQuiston e Siân Cook.

“Criticism”: da aprendizagem à participação

Respondendo a esta questão, Triggs afima que o criticism já não se torna público através dos formatos tradicionais, perdendo esta dependência. Criticism é algo que surge cada vez mais em contextos académicos e profissionais, sendo necessário cultivá-lo neste tipo de ambientes para que todos possuam as bases necessárias à sua prática. É essencial que se desenvolvam espaços nos quais seja possível desenvolver discussões relativas a esta abordagem através de critical discussions, ou seja, para que seja possível discutir as temáticas que tornam necessário problematizar determinadas situações e questões, é necessário que a própria discussão seja feita numa lógica de criticism. Existe, nomeadamente, um interesse por parte dos estudantes para organizar o criticism e torná-lo uma prática participativa, e, contido no processo educativo, o criticism promove novas possibilidades de aprendizagem. Assim, Triggs propõe o conceito de transformative critique que denomina este processo através do qual as práticas de critical e participtive design possibilitam transformar a nossa visão do mundo. É essencial que o criticism esteja presente desde o processo de aprendizagem dos designers e que estes sejam capazes de o aplicar em termo práticos, sendo a sua principal função tratar construtivamente a vertente do design que lhe confere a capacidade de ter um impacto que provoque uma mudança, sendo importante usar a critical practice para fins socialmente pertinentes e construtivos.

(Da esquerda para a direita) 3. Henry Dreyfuss, 1993. “The Measure of Man” — Estereótipos dominantes no design, que sugerem uma falsa verdade, exemplares de alvos do critical design e que reforçam a ideia de descolonização do design; 4. Dunne & Raby, 2009. “A/B Manifesto”.

Descolonizar o design

No seguimento do supracitado, é essencial que se integre a componente critical na prática do design, para que este ganhe novas dimensões que de facto abordem questões que, por exemplo, se revistam de enorme importância socialmente. Independentemente da sua utilização, o design é uma prática directamente ligada à inclusão/exclusão de temáticas e assuntos sociais, podendo causa certas desigualdades nestes patamares. A partir da abordagem feita por Luiza Prado e Pedro Oliveira, torna-se essencial integrar o criticism na nossa prática, visto ser pertinente questionar o papel do design em sistemas que reforçam o racismo, sexismo, xenofobia e outras formas de opressão, sendo necessário repensar as questões que formulam os projectos do design neste âmbito. Reforçando o que é dito por Teal Triggs, Luiza e Pedro afirmam que o design deve ter um impacto na nossa visão do mundo e deve transtornar determinados sistemas nos quais predominem práticas normativas e pouco críticas. Descolonizar o design é então a proposta feita, sendo essencial mudar o enunciado das nossas questões e ter em conta a perspectiva dos outros para alcançar um nível de criticism socialmente justo; a critical practice permite ao design tornar-se uma disciplina metamorfa, e criar tempo para que todos tenhamos o direito de ter um futuro através de questões mais inclusivas, permitindo cultivar esta abordagem numa óptica que estimula criticamente tanto os designers como o público.


Palavras-chave

critical design, criticism, teal triggs, a parede


Notas

[1] DUNNE, Anthony; RABY, Fiona. (2013). Speculative Everything. Design, Fiction and Social Dreaming. Cambridge: The MIT Press;

[2] MAZÉ, R; REDSTRöM. (2007). Difficult froms: Critical practices of design and research. Proceedings of the IASDR’07: International Association of Societies of Design Research. Hong Kong Polythechnic University Shcool of Design;

[3] Decolonising Design. Editorial Statement. Disponível em: <http://www.decolonisingdesign.com/general/2016/editorial/>;

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One thought on “Aprender “critical design” para olhar o mundo através dele”

  1. Nota-se ao longo do texto uma profusão e mistura de conceitos que necessitam de ser organizados.
    Por exemplo, mistura-se criticismo com critical, prática com processo, transformative critique com critical practice, etc. Há necessidade de clarificar o ponto de vista.

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