Do designer ao consumidor: os fins justificam os meios?

No passado dia 14 de Novembro foi convidado para falar na nossa aula o crítico de design Frederico Duarte. Veio-nos maioritariamente apresentar a sua tese “O desafio contemporâneo do design brasileiro”, mas no meio de toda a informação que nos foi transmitida, não pude parar de pensar numa questão que me parece pouco falada e explorada nos dias de hoje no contexto do design.

Durante a conversa, foi-nos apresentada uma imagem enquanto o Frederico falava acerca do Victoria & Albert Museum, um par de calças da Primark [1], que se encontra no arquivo do museu. Ao lado das calças, encontrava-se uma imagem da fábrica onde estas tinham sido feitas, na Índia. Como todos nos apercebemos na altura, aquela peça pretendia chamar a nossa atenção em relação às condições dos trabalhadores. Penso que é um daqueles problemas em que toda a gente tem a noção dele, mas que acha que pouco ou nada pode fazer para ajudar na resolução do mesmo.

De forma a entendermos esta questão, precisamos de conhecê-la um pouco mais. No seguimento do exemplo do par de calças, parece relevante explorarmos as condições dos trabalhadores deste tipo de fábricas. De acordo com o jornal The Guardian, os trabalhadores são expostos a abusos físicos e verbais quando não cumprem os objectivos, que são (segundo os mesmos) impossíveis: “Physical and verbal abuse is rife, while female workers who fail to meet impossible targets say they are berated, called “dogs and donkeys”, and told to “go and die”. Many workers who toil long hours in an attempt to support their families on poverty wages claim they are cheated out of their dues by their employers.”[2] O artigo aponta também uma testemunha, Sakamma, uma mãe de 42 anos que nos fala da sua experiencia: “It hurts us to be paid so little. I have to do this and they sell one piece of clothing for more than I get paid in a month,” she said. “We cannot eat nutritious food. We don’t have a good life, we live in pain for the rest of our life and die in pain. Low wages is the main reason. How much burden can a woman take? Husband, children, house and factory work – can we manage all these with such a meagre salary? So we are caught up in the debt trap. Is there no solution for our problem?“[2] Marcas como a GAP, a NEXT ou a M&S foram acusadas por recorrer a fornecedores que pagavam abaixo do salário mínimo e que exigiam que os trabalhadores trabalhassem mais do que era legalmente permitido.

Apesar de a relação deste tipo de problemas com o Design não ser à partida a mais próxima, penso que é importante que reconheçamos que este tipo de problemas existe e que houve sempre algum designer que desenhou a peça e que a teve de a mandar reproduzir. Parece-me importante destacar aqui que na noticia acima não são necessariamente os designers que têm toda esta responsabilidade de garantir as mínimas condições dos trabalhadores, mas sim as marcas. No entanto, têm alguma responsabilidade.

De modo a entendermos então o papel que o design tem nesta realidade, olhemos para um texto de apresentação, escrito pelo Frederico Duarte, apelidado de “A felicidade está à venda?”. Neste texto o autor fala acerca do papel do design na sociedade “Falo de um designer como alguém que observa e interpreta as várias dimensões do seu contexto, sejam elas de natureza tecnológica, social, cultural, económica ou política e que através do seu trabalho a elas reage, tendo em conta as suas múltiplas dimensões, possibilidades e capacidades, bem como as responsabilidades e consequências dos seus actos.”[3] Mas também nos trás uma boa reflexão da tal responsabilidade que os designers têm de tomar para com o seu trabalho e a sua extensão: “o acto do design, ou do projecto, não termina no designer: é extensível ao produtor ou promotor do seu trabalho, bem como a quem o usa ou consome. Logo, se existe uma relação entre design e felicidade, esta deverá ser procurada em todas as etapas e manifestações desse processo.”[3] O Frederico, para além de nos chamar a atenção para um determinado percurso que o design toma, convida-nos também a olhar para uma possível relação entre design e felicidade. Esta relação é o mote do texto “A felicidade está à venda?” e é também relevante e concordante com a tal exploração dos trabalhadores em algumas fábricas de roupa.

É preciso salientar também um exemplo presente no texto do Frederico Duarte. Ele fala-nos da parceria que a Lacoste faz com os irmãos Campana: “os mais célebres designers de mobiliário do Brasil”.[3] Trata-se da reinterpretação do pólo de manga curta mais conhecido da marca. Os designers criaram então uma pequena colecção em que o preço subia consoante a quantidade de crocodilos. Curiosamente, a divulgação da peça mais significativa da colecção: “…um extraordinário exemplo de labor manual feito de 3000 crocodilos cosidos uns aos outros.”[3] não se centra nos designers, nos materiais ou na natureza exclusiva da colecção, mas sim nas produtoras deste produto. Estamos a falar de mulheres que vivem em favelas, neste caso, na favela Rocinha. Neste momento, Frederico Duarte coloca-nos uma questão: “Gostaria assim de propor uma provocação. A promoção do trabalho digno e do empoderamento das mulheres da favela são causas nobres, mas deverão a empatia, ou mesmo a caridade, ser invocadas para vender excentricidades de design de uma marca de luxo? Pergunto-me quanto – ou talvez quão pouco – dos milhares de dólares desta “operação de design” chega às mulheres da Rocinha. Ou qual é mesmo o valor real do seu trabalho. Se fossem produzidas numa fábrica normal, por mulheres (ou homens) que ganhassem um salário decente e vivessem num bairro indistinto de uma qualquer cidade brasileira, teriam estas peças de roupa o mesmo valor?”.[3]

Esta pergunta faz todo o sentido depois de analisarmos uma situação como esta. Esta forma de aproveitar a pobreza e miséria como forma de publicidade parece-me no mínimo terrível e egoísta.

Temos então duas situações distintas: uma em que os trabalhadores são explorados pelas marcas, mas em que não se faz questão de espalhar o assunto. Muita gente sabe que acontece, mas prefere não saber nem fazer nada para o mudar. Por outro lado, temos uma marca que faz questão de mostrar que está a empregar pessoas com poucos recursos, fazendo assim passar a mensagem de que está a ser solidária e de que tem um produto diferente feito por pessoas diferentes. Para as duas situações, a pergunta é a mesma: É justo? É justo pagar menos a uma pessoa porque sabemos que ela vai trabalhar por pouco? É justo dar menos condições a uma pessoa porque ela já está habituada a isso? É justo publicitarmos o nosso produto aproveitando-nos da situação do outro?

Termino então com o pensamento que o Frederico nos dá no seu texto. Que diz que o acto do design não termina no designer, há uma serie de etapas até chegar ao consumidor. Acho que é importante que o designer acompanhe esse processo o mais perto que conseguir, que tente de todas as formas encaminhar o seu produto da forma mais correcta, mais humana e mais justa possível.

Joana Pedreira


PALAVRAS-CHAVE

Design; Industria; Marcas; Sociedade; Fabrico.


NOTAS

[1] Calças da Primark, Victoria & Albert Museum. Disponível em: http://collections.vam.ac.uk/item/O1278284/trousers-primark-stores-limited/

[2]Artigo do jornal The Guardian: “India’s clothing workers: ‘They slap us and call us dogs and donkeys'”. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2012/nov/25/india-clothing-workers-slave-wages

[3] Frederico Duarte. Texto de apresentação “A felicidade está à venda?”. Disponível em: http://www.proximofuturo.gulbenkian.pt/sites/default/files/ficheiros/FREDERICO_DUARTE_A-Felicidade-esta-a-venda.pdf

One thought on “Do designer ao consumidor: os fins justificam os meios?”

  1. “Apesar de a relação deste tipo de problemas com o Design não ser à partida a mais próxima,…”, não percebo o que queres afirmar. Além disso, que tipo de problemas a que te referes?
    Seria interessantes responderes às questões que colocas: “Para as duas situações, a pergunta é a mesma: É justo? É justo pagar menos a uma pessoa porque sabemos que ela vai trabalhar por pouco? É justo dar menos condições a uma pessoa porque ela já está habituada a isso? É justo publicitarmos o nosso produto aproveitando-nos da situação do outro?”.
    Talvez fosse pertinente encontrar um exemplo de design sustentável.
    Professor Victor M Almeida

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