Movimentos estudantis no Chile 2011: Uma geração sem medo de comunicar

Joana Pedreira

A conferência “El cartel político en Chile entre 1970 y 2012. El Gobierno de Salvador Allende y los movimientos estudiantiles” dada por Maurico Vico, investigador na universidade do Chile, dá-nos a conhecer todo um mundo de protestos sob forma de cartazes políticos. Dentro deste mundo de manifestações, interessa-me então realçar uma das temáticas abordadas que me parece ser uma das mais curiosas e importantes na nossa década.

Os movimentos estudantis do Chile de 2011 foram marcantes devido à sua originalidade na forma de protestar e de comunicar. Esta nova geração aliou-se à sua melhor amiga para conseguir fazer chegar a sua palavra mais longe: a internet.

Foi nas redes sociais que os estudantes chilenos fizeram passar a sua mensagem: queriam uma educação gratuita e melhores condições nas escolas. Os alunos pretendiam então que as escolas públicas ganhassem qualidade e ainda que se proibisse o lucro nas escolas privadas. Como explica o jornal Argentino La Nacion, os alunos chilenos só têm direito à educação gratuita até ao ensino básico: “En la actualidad, el 25% del sistema educativo es financiado por el Estado. El 75% restante depende de los aportes de los estudiantes. Asimismo, cabe destacar que la educación gratuita sólo está garantizada en el nivel básico. A partir del secundario, las escuelas pueden cobrar cuotas. En tanto, todas las universidades -tanto las públicas como las privadas- cobran aranceles.(1)

É importante fazer uma referência a um movimento que também ocorreu no Chile no ano de 2006, igualmente relacionado com a educação. Este movimento conhecido como “Revolución de los pingüinos” contestava a falta de condições nas escolas secundárias e foi claramente este evento que deu origem a este novo movimento estudantil de 2011, apenas uns anos depois.

Uma comunicação nunca antes vista

Em que é que consistiam as mensagens de protesto deste movimento? Em cartazes políticos! Apesar de também terem sido usadas outras formas de expressão artística, como nos é descrito no artigo de Mauricio Vico: “Uno de los aspectos más interesantes de las manifestaciones iniciadas por los estudiantes en mayo de 2011 estuvo en la perspectiva comunicacional, que se diferenció de lo visto antes, en otros movimientos, por un gran despliegue de expresión visual, a partir de llamativos disfraces, danzas simbólicas y coreografías intrépidas, pancartas ácidas, esculturas de gran formato y todo tipo de objetos, pinturas, entre otros. Para alzar la voz las manifestaciones tuvieron un carácter cercano a la performance y a diferencia de otros eventos de protesta ciudadana, las marchas se aproximaron a un carnaval, modos que fueron contagiando al resto del país transformando las protesta callejeras en verdaderas fiestas sociales.(2)

É bastante interessante esta ideia de juntar todas estas formas de comunicação. Por um lado, temos as redes sociais. Estas servem quase como uma base rápida que leva a informação que é necessária às pessoas que queremos encontrar. Que quando é junta aos cartazes, talvez por associarmos os cartazes a uma forma de comunicação mais antiga, ganha toda uma dinâmica diferente e intensa. E se a tudo isto ainda juntarmos todos os outros elementos visuais, percebemos o porquê de esta manifestação ter sido tão relevante.

Os cartazes que marcaram diferença

Nesta manifestação ressurgiram os cartazes políticos. Não num sentido partidário, em que assumiam uma posição política, mas sim num sentido mais social, abrangendo assim um maior número de pessoas. Os temas destes cartazes eram vários, como descreve Mauricio Vico para a revista Monograma: “la solidaridad; la fraternidad, la causa común están presentes en la mayoría de los carteles que aparecieron para las movilizaciones sociales del 2011.(3)” São na minha opinião temas bastante pertinentes. Temas que apelaram a todos os jovens estudantes a juntarem-se por uma causa, a quererem fazer a diferença e a lutarem por um direito que já deviam ter adquirido há muitos anos.

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(Da esquerda para a direita) 1-Autor desconhecido, Colectivo “Mano Alzada”, serigrafía, 2011 e 2-Mejor Educación Mejor Chile” — Nicolás Ramírez do Colectivo “Mano Alzada

A forma de produção dos cartazes é também especial. Foram realizados maioritariamente em serigrafia. Apesar de grande parte da comunicação ter sido feita através das redes sociais, tiveram o cuidado de produzir artesanalmente alguns dos cartazes. Esta forma de produção estava já presente na história dos cartazes do Chile: “Los antecedentes de esta forma de expresión visual se sitúan en los conflictos estudiantiles de los años 1960 que desembocaron en la Reforma Universitaria de 1968, y su desarrollo se vio fuertemente potenciado durante el periodo de presidencia de Salvador Allende.(4)” É também pertinente observarmos que a grande parte dos cartazes que nasceram em 2011 se basearam nos seus antecedentes. A expressão espontânea, a linguagem banal e acessível, a tipografia livre e uma pequena rebeldia, são tudo características que se podem ver em ambos os cartazes.

Uma Geração sem medo

Podemos então dizer que esta geração veio reformular a prática política, eles já não têm medo, têm o poder, a força e a criatividade para fazer a diferença. Eles querem um novo Chile, um Chile que atenda às necessidades de todos, uma nova sociedade!

 

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Palavras-Chave:

Movimento; Chile; Estudantes; Cartaz Político; Sociedade; Comunicação

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Notas:

(1) – Artigo: “Cómo es el polémico sistema educativo que desató las protestas”, no jornal La nacion, http://www.lanacion.com.ar/1396526-como-es-el-polemico-sistema-educativo-que-desato-las-protestas

(2,3,4) – Mauricio Vico, na Revista “Monográfica“,http://www.monografica.org/02/02/Art%C3%ADculo/3624

 

 

 

 

One thought on “Movimentos estudantis no Chile 2011: Uma geração sem medo de comunicar”

  1. Este post é bastante pertinente na medida em que são analisadas duas formas de comunicar muito distintas utilizadas no mesmo contexto e para um fim em comum: – O cartaz político do Chile, a sua interação com as redes sociais e a voz do corpo estudantil Chileno. A Joana refere que o cartaz é um suporte gráfico antigo, na verdade nascido no séc. X através de xilogravuras e, por muitos considerado a mais sublime forma de comunicação pelo poder de síntese visual e de mensagem que contém em si. Por outro lado, a rede social é quase um oposto, bastante mais recente e, sendo conhecida a internet como o local que tem um espaço para tudo. Apesar de bastante diferentes a todos os níveis, o post da Joana demonstra como os jovens Chilenos conseguiram fazer com que estes resultassem em conjunto para dar força à mensagem que se queria passar: A luta por uma educação gratuita e melhores condições nas escolas. Segundo a autora os estudantes Chilenos foram inteligentes ao ponto de aproveitar a histórica força gráfica que a maioria dos cartazes políticos do seu país contém e, aliarem-nos à rapidez com que flui tudo aquilo que se comunica pela internet na atualidade.

    A Joana mostra cartazes como imagem-exemplo e faz referência (para contextualização) a forma como o cartaz chileno ganha expressão, maioritariamente pela serigrafia, pela carga tipográfica e mensagem social. São ainda feitas referências históricas bastante importantes para a compreensão deste movimento, como o exemplo de um anterior a este, a “Revolución de los pinguinos”. E cotam-se excertos do professor Maurício Vicco que revelam as circunstâncias de como ao longo da história se juntam várias formas de comunicação distintas e o conjunto ganha força. A conclusão é bastante assertiva e remete para a enfatização da tentativa de mudança a nível social – “uma geração sem medo”, uma geração que comunica, continua a gritar pelos seus direitos e aprende com o passado do seu país. Como nota Joana deixa ainda dois artigos de Mauricio Vico sobre o sistema educativo no Chile e a luta deste país, que faz portanto todo o sentido ler neste contexto.

    Concluindo, este post passa a mensagem de forma clara e concisa, dando informação visual e teórica devidamente legendada. Formatação correta e limpa, linguagem bastante acessível e conteúdo contextualizado de maneira a que qualquer pessoa, mesmo sem conhecimentos à priori sobre o tema, consiga entender os fundamentos do texto.

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