Design e inclusividade

Ana Caçador
Muitos pensam que inclusividade é apenas a adaptação do conteúdo (e da forma) de maneira a ser compreensível por pessoas com algum tipo de incapacidade, seja motora ou cognitiva. Mas na verdade é muito mais do que isso. Aplica-se a todas as pessoas. “Design Inclusivo “ é uma máxima para criar objetos com mais significado e que consigam chegar a todos. Citado pelo artigo “The Inclusion Principle”, o Institute for Inclusion refere que:
“Inclusive behaviors are those practices and behaviors that leverage and honor the uniqueness of people’s different talents, beliefs, and ways of living.” / “Os comportamentos inclusivos são os comportamentos e práticas que influenciam e honram a singularidade de pessoas com diferentes talentos, crenças e modos de vida.” [1]

Partindo da oportunidade de receber Frederico Duarte: ex-Designer (como o próprio referiu), ‘Design critic’ e Escritor; a FBAUL organizou um momento de discussão, marcado pela apresentação dos temas que tem abordado no seu Doutoramento. A análise crítica de Frederico Duarte ao Design Brasileiro  foi o ponto de partida para uma abordagem à criação/adoção de estereótipos, à promoção do “Design inclusivo”, do “Design Universal” e também ao papel do designer como potencial modificador de comportamentos sociais.

Frederico Duarte abordou o caso do Design brasileiro como um exemplo da prática de Design focada apenas num segmento de mercado e de que forma é que esta atitude é, não só discriminatória, mas também fomentadora de desigualdade social no Brasil. Porém a desigualdade não é só entre classes ou entre diferentes escalões económicos, é na sua base uma despreocupação social. Esta pode assumir várias formas, nomeadamente as que estão acima referidas, ou o desenvolvimento de produtos normalizados que têm em vista apenas um público-alvo ou uma percentagem significativa da população, ignorando (deliberadamente) segmentos específicos.

Todos nós podemos dizer com certeza que já nos sentimos ‘excluídos’ de alguma situação por não termos os requisitos necessários (ou excedermos os mesmos), quer seja um Website para o qual não tenhamos o Plug-in necessário, um programa que foi (mal) traduzido para a nossa língua ou por termos de aumentar as letras de um Menu de restaurante que não conseguimos ler (se ainda não é um problema agora, será daqui a uns anos). Estes são exemplos quotidianos de algumas situações caricatas (e irritantes) que poderiam ser facilmente evitáveis se todos – Designers e Humanos – não partissem do princípio que aceitar o ‘standard’ e trabalhar para 90% da população é aceitável. Sim, porque segundo alguns estudos (das Nações Unidas e do Banco Mundial) pelo menos 650 milhões de pessoas têm algum tipo de incapacidade, o que se traduz para cerca de 10% das pessoas no mundo.

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Color ADD é um sistema de código de cores desenvolvido para pessoas Daltónicas, já em aplicação no Metro do Porto

Design universal vs Design para uma tipologia específica de utilizador

User Centered Design é trendy, User experience e User research fazem parte de uma ‘nova’ abordagem à criação de objetos. Mas será que essa abordagem é correta? Será que quando fazemos objetos específicos para certos tipos de utilizadores  estamos na verdade a aumentar a separação da sociedade?

Um ‘Design universal’ pressupõe que não seja necessária a existência de uma separação entre as pessoas com diferentes requisitos. Até que ponto é que aceitamos que exista uma solução separada ou específica para um problema ao invés de ter esse (e todos os outros) resolvidos sem a necessidade de uma solução ‘especial’?

“O Design Inclusivo é por vezes confundido com o desenvolvimento de soluções específicas para pessoas com deficiência, mas este não é, de todo, o seu objetivo. O envolvimento de pessoas com deficiência é encarado como uma forma de garantir a adequação para aqueles que, eventualmente, terão mais dificuldades de utilização, assegurando, desta forma, a usabilidade a uma faixa de população mais alargada.” – Jorge Falcato e Renato Bispo [2]

Infelizmente, não existe nenhuma ‘App’ com uma solução milagrosa, apenas algumas empresas e pessoas com preocupações semelhantes e que estão a trabalhar para uma transformação social na área da inclusividade, quer seja através da promoção de projetos académicos , ‘features’ e novas regulações em termos de usabilidade, o investimento em tecnologia e a sensibilização de profissionais para o problema da acessibilidade.

“Accessibility isn’t just about providing a great experience for the disabled—it’s what will enable you to connect with all your users, regardless of which device they use to go online.” / “Acessibilidade não é só providenciar uma experiência fantástica para as pessoas com deficiências – é o que vai permitir ligares-te a todos os teus utilizadores, independentemente do dispositivo que utilizarem para se ligarem online.”

Karen McGrane, autora do Livro Content Strategy for Mobile

Mudanças para as quais todos podemos contribuir

Os princípios do Design inclusivo são fulcrais para o futuro da Disciplina de Design e para a melhoria das condições de vida para todos. A maior parte das pessoas pensa que os únicos beneficiários deste tipo de raciocínio são ‘os outros’. Os ‘outros’ que têm problemas que ‘eu/nós’ não temos. Mas é a persistência deste tipo de atitudes que exclui as pessoas, que faz a diferença na criação de objetos para o dia-a-dia, e provavelmente vamos todos sentir o seu impacto. A solução passa por pensar mais sobre como podemos tornar a ‘experiência’ dos objetos igual para todos e promover a mudança através do nosso contributo.

 

Algumas referências e sugestões de leitura:
[1] http://alistapart.com/article/the-inclusion-principle#section5
[2] http://designincludesyou.org/wp-content/uploads/2012/04/DesigInclusivoVol1.pdf

One thought on “Design e inclusividade”

  1. Este parágrafo parece descontextualizado: “Todos nós podemos dizer com certeza que já nos sentimos ‘excluídos’ de alguma situação por não termos os requisitos necessários (ou excedermos os mesmos), quer seja um Website para o qual não tenhamos o Plug-in necessário, um programa que foi (mal) traduzido para a nossa língua ou por termos de aumentar as letras de um Menu de restaurante que não conseguimos ler (se ainda não é um problema agora, será daqui a uns anos). Estes são exemplos quotidianos de algumas situações caricatas (e irritantes) que poderiam ser facilmente evitáveis se todos – Designers e Humanos – não partissem do princípio que aceitar o ‘standard’ e trabalhar para 90% da população é aceitável. Sim, porque segundo alguns estudos (das Nações Unidas e do Banco Mundial) pelo menos 650 milhões de pessoas têm algum tipo de incapacidade, o que se traduz para cerca de 10% das pessoas no mundo.” Foque-se no design inclusivo.
    Mais à frente pergunta “Será que quando fazemos objetos específicos para certos tipos de utilizadores estamos na verdade a aumentar a separação da sociedade?”. Não será antes segregação ou exclusão? E aí não necessita de dizer ‘aumentar’. Efetivamente o design de per si não exclui porque está no seu ADN a ideia de inclusão e de preocupação social (a ética assim o determina). Agora, a voracidade das marcas e o consumo associado criam fenómenos de exclusão aos quais o designer pouco ou nada pode fazer.
    O que é o ´design universal’? Será o design afirmativo no contexto da globalização?
    O post aponta para várias direcções sem se ficar numa que depois poderia explorar.
    Talvez fosse de ler Gui Bonsiepe e o ensaio ‘Design e Democracia’ porque a inclusividade em design é um modo a aferir a cidadania e a participação e não só uma resposta a problemas de exclusão social.
    Melhore o post sendo mais assertiva e colocando links que ampliam e justificam o conteúdo.

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