O Brasil, o consumo e o Design

Para todos os países existe uma ideia formada na cabeça das pessoas relativamente aquilo que o país é e o que faz lembrar, por isso o Brasil não é excepção. Este grande país tanto é visto de uma maneira inspiradora, que relembra a praia, o calor e clima tropical, festas,

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um autêntico paraíso, bem como pessoas simpáticas e descontraídas como de uma maneira totalmente contrária, que apenas reflecte os problemas que acontecem no país como é o caso de algumas favelas e do grande descalabro social, parecendo quase uma comparação entre dois países diferentes.

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Esse lado negativo teve tanto impacto que foram realizados dois grandes filmes que o ilustram de uma forma forte, o filme Tropa de Elite, lançado em 2008 em Portugal, relata a envolvência dos policiais da BOPE nas favelas e o mau sistema policial, pintando uma realidade lamentável da cidade “maravilhosa”, e o filme a Cidade de Deus, lançado em Portugal em 2003, “retrata o crescimento do crime organizado na Cidade de Deus, uma favela que começou a ser construída em 1960, e se tornou um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro no começo de 1980.”1 Outro exemplo que refere indirectamente as favelas e o perigo em algumas delas é o trabalho de David Elia, Bullet Chair. Poderia até ser um trabalho interessante e que ajudasse a minimizar de alguma forma os perigos que existem, no entanto, na opinião de Frederico Pais, investigador em Design, a cadeira não traz nenhum benefício a ninguém, pode ser considerada como uma mensagem cínica e aborda questões sociais de uma forma incorrecta, para além de que lhe é atribuído um valor que não tem.

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David Elia, Bullet Chair, imagem retirada de pamono.com/stray-bullet-chair-black-with-gold

O facto é que hoje em dia as favelas já não vivem tanto essas realidades que são até por vezes ampliadas nos filmes ou em objectos como a “Bullet Cahir”, mas têm vindo a acompanhar os avanços ao nível do consumo e os moradores conseguem fazer parte de uma sociedade que adquire todos os artigos de última geração, no fundo todo o tipo de produtos para tornar a casa mais bem equipada e confortável, ainda que essas aquisições sejam pagas em prestações para facilitar e manter a qualidade de vida. “35% dos moradores de favelas têm dívidas. Há dois anos eram 27%, no entanto isso não aumentou a inadimplência, que permanece estável. A única coisa que cresce são os sonhos de consumo para o futuro. “Há dois anos, 46% das casas nas favelas tinham televisões plasma, LCD ou LED. Hoje, são 67%.” Da forma como o consumo tem vindo a progredir, já é possível imaginar os moradores a investir em educação, cirurgias plásticas, viagens de avião, esses são os maiores desejos de consumo das favelas brasileiras. A realidade é que, ao que parece a vida na favela é agradável para os moradores sendo que eles não têm intenção de se mudar e não deixariam a favela mesmo que a renda aumentasse.[1]

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Favela de Paraisópolis à noite, Fotografia de Jonnw Roriz, http://www.jonneroriz.com
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Favela Santa Maria, Rio de Janeiro
Como é visível nas imagens acima, as favelas começam a mostrar a sua beleza e já existe uma preocupação em torná-las pacíficas através de arte visual, música, dança e outras formas de cultura que as suas ruas exalam.

Por ser trabalhadora no aeroporto de Lisboa, convivendo assim com um número incontável de cidadãos brasileiros, posso dizer que os meus melhores e piores clientes são eles mesmos, sendo notável uma grande diferença social entre as pessoas pelo seu poder de compra. Existem aqueles que simplesmente adquirem muito pouco ou nada, e por outro lado aqueles que concordam levar tudo o que lhes recomendar. Tal como afirma Frederico Pais, “é que se o apetite para comprar dos brasileiros é enorme, o seu potencial para fazer ainda deixa muito a desejar”.2 Todos os que entram na loja (de brinquedos) afirmam que no Brasil a opção de escolha não é tanta e os acabamentos não são iguais, desejando que no Brasil existissem lojas semelhantes. A análise que Frederico Pais faz ao facto de as empresas brasileiras se dirigirem mais à classe A e B sendo a C que mais consome e que existe em maior número, explica a razão pela qual o seu potencial está à quem, parece que o importante não é tanto aquilo que ainda não existe ou que poderia ser melhorado mas sim fazer algo para atingir as classes que supostamente irão comprar mais. Esta “dominante classe C”, por experiência própria, é uma grande utilizadora de cartões de crédito, são poucos os clientes brasileiros que utilizam o seu cartão como débito direto, o que mostra um pouco daquilo que é esta sociedade consumista. “Os mais de 90 milhões de ávidos consumidores e cidadãos activos da grande classe C estão a transformar radicalmente o consumo, a cultura, os media e mesmo o exercício da cidadania no seu país. Essas mudanças fazem com que o Brasil esteja a viver o seu momento histórico mais fascinante. E o mundo está atento a ele.”Assim como o desenvolvimento socioeconómico que está a acontecer no Brasil, o mesmo acontece com o Design, que tem vindo a sofrer alterações positivas ganhando auto-estima, havendo assim melhorias no ensino e uma diferente credibilidade em relação à disciplina enquanto uma profissão importante no que toca à produção direccionada ao utilizador, melhorando a qualidade de vida. “Por esse motivo há quem diga, críticos e curadores nacionais, que o design brasileiro nunca esteve de tão boa saúde.”4[2]

Havaianas/Campana

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Marketing Havaianas

O Brasil tem alguns produtos em que o seu Design, ou talvez o design do seu marketing, é conhecido mundialmente como o caso das havaianas, algo que na verdade o resto do mundo conhece e utiliza cada vez mais, seja pela sua qualidade, durabilidade e variedade de cores e feitios, ou pelo seu valor bastante acessível sendo rara a pessoa que não tem pelo menos um par destes chinelos. Devido à assertividade, a havaianas tenta evoluir para outros produtos, ampliando assim a sua variedade no mercado, o que é uma estratégia inteligente. As havaianas são um bom exemplo daquilo que o Brasil pode trazer de bom a um designer, ou seja, não é aquilo que é produzido no Brasil que importa mas sim a inspiração que o Brasil oferece para produzir algo, assim como a preocupação não no produto final mas para quem o produto é feito.

Campana

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Biografia retirada do site dos irmãos Campana

São dos designers mais importantes no Brasil e até mesmo no mundo, “com espírito inovador e muita vontade de transformar o óbvio no incomum, os irmãos criaram o Estúdio Campana no final da década de 80.” “São considerados actualmente os maiores expoentes do design brasileiro no mercado internacional e são uns dos poucos brasileiros com peças no acervo do MoMA, em Nova Iorque.”5

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Campana, Colecção Estrela
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Projecto dos irmãos Campana para a marca Lacoste

 

Palavras-Chave: Sociedade, Favela, Design, Consumo,

Notas

1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_de_Deus_(filme)

2. Frederico Pais, Fator favela, http://www.05031979.net/2011/06/o-fator-favela/

3. Frederico Pais, Fator favela, http://www.05031979.net/2011/06/o-fator-favela/

4. http://www.quartosala.com/pt-br/2329/a-identidade-do-design-brasileiro/

5. Maria Cláudia Santos Amaral, DZnho, disponivel em http://blogdznho.blogspot.pt/2015/04/os-irmaos-campana-humberto-e-fernando.html

Bilbiografia

[1] http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/03/pesquisa-traca-perfil-sobre-consumo-dos-moradores-de-favela.html

[2] Frederico Pais, Fator Favela, disponivel em http://www.05031979.net/2011/06/o-fator-favela/

http://campanas.com.br/pt#interior design

One thought on “O Brasil, o consumo e o Design”

  1. Começa por afirmar que “para todos os países existe uma ideia formada na cabeça das pessoas relativamente aquilo que o país é e o que faz lembrar, por isso o Brasil não é excepção. Este grande país tanto é visto de uma maneira inspiradora, que relembra a praia, o calor e clima tropical, festas, um
    autêntico paraíso, bem como pessoas simpáticas e descontraídas como de uma maneira totalmente contrária, que apenas reflecte os problemas que acontecem no país como é o caso de algumas favelas e do grande descalabro social, parecendo quase uma comparação entre dois países diferentes.” Estou convencido que a realidade dos países é a mesma, ou seja, a estratificação social e a concentração de riqueza numa minoria. No caso do Brasil, existe uma sedução criada para a comunidade exterior que, desde meados do século XX, funciona como uma mito de modernidade: a beleza e a fealdade coabitam no mesmo território. Este é o engodo que atrai os estrangeiros como moscas para o mel.
    Toda a América latina tem estes problemas e, em alguns países, a transição para a democracia faz-se de modo lento e desesperado, ao contrário do Brasil que tem conseguido ultrapassar a tendência destes países para, ciclicamente, serem ditaduras.
    Não deves criar links para a wikipédia porque é informação não classificada e este é um post académico.
    Parece-me questionável a legenda que diz “como é visível nas imagens acima, as favelas começam a mostrar a sua beleza e já existe uma preocupação em torná-las pacíficas através de arte visual, música, dança e outras formas de cultura que as suas ruas exalam.” É agradável viver numa favela? Ou o município porque não tem meios para resolver a situação opta por uma campanha de marketing onde a ‘limpeza geral’ é a palavra de ordem?
    A partir daqui o post cai numa retórica sobre o consumo e perde ligação ao assunto central. A utilização de casos de estudo já banalizados não ajuda à reflexão. Qual a importância dos irmãos Campana no contexto atual do design brasileiro? Penso que pouca. Havia que utilizar casos recentes e estabelecer um nexo com o consumo porque já todos vimos que os projectos dos Campana e do Elia não se situam no território da massificação e é aí que reside a importância do design orientado para a tal classe C.
    O texto terá de ser revisto porque detectei erros.

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