As preocupações sociais no design: uma convicção ou uma estratégia?

Imagem 1: Eliodomestico, da designer Gabriele Diamanti, é um projecto open-sourced projetado para pessoas com dificuldades no acesso a água potável que transforma água salgada em água doce. / Imagem 2: Pólo desenvolvido pelos irmãos Campana para a Lacoste.

Ao tentar dar resposta às transformações sociais, culturais e políticas, o design no Brasil está a criar novos paradigmas, pelo que é útil reflectir, de forma crítica, sobre as suas novas abordagens. Se por um lado temos designers que questionam os modelos existentes, tentando dar resposta a preocupações sociais, políticas e culturais, por outro também surge um oportunismo no design que procura oportunidades do mercado ao explorar questões sociais para benefício próprio.

Os impactos das mudanças sociais no design do Brasil

Entre 2004 e 2014, o Brasil atravessou um período de crescimento económico significativo e de mobilidade social sem precedentes que contribuiu para a criação de uma nova classe de consumidores: a classe C, algo a que os designers brasileiros tiveram de dar resposta. Se o design era pensado como algo de uma elite para outra elite, com estas alterações na constituição do tecido social houve uma desconstrução desta ideia que promoveu novos estudos sobre as culturas de consumo, traduzindo-se em alterações nos próprios modos de fazer design. Como resultado, o design alarga-se a um segmento mais amplo da população brasileira, mas será isto suficiente para que de um design de elites se passa verdadeiramente a um design de todos e para todos, socialmente consciente e responsável? [1] [2]

De facto, questões como a origem e a identidade dos objectos parecem criar nas práticas de design uma oportunidade social, que permite conferir visibilidade a certos problemas, dando a voz às minorias. Mas, apesar do âmbito da disciplina se ter alargado e de se caminhar para uma democratização ao seu acesso, a criação de objectos de design continua a ser algo que parte, de uma forma geral, de uma elite. Ainda há uma indústria saturada pelas mesmas ideias, e a tendência é que estas se perpetuem, não se construindo uma verdadeira diversidade que permita, de facto, aproveitar todo o potencial do design enquanto medium que promova o debate e um confronto de ideias diversas: continua a subsistir um modelo económico que se sobrepõe ao que é considerado moral ou ético, desvalorizando-se uma verdadeira abordagem social. [1] [4] [5]

Preocupação social ou oportunismo?

Ser designer e pensar em design é trabalhar com as oportunidades e os limites de uma sociedade que está a mudar rapidamente, o que inclui lidar com questões muito particulares, como a desigualdade e pobreza, no caso do Brasil. As dimensões políticas, sociais e culturais são algo que são inerentes às práticas de design: por exemplo,  no Victoria & Albert Museum, encontra-se exposto um modelo de calças da Primark, contraposto por uma fotografia do desabamento de uma fábrica em Rana Plaza, no Bangladesh e, neste contexto, o design é usado para discutir a sociedade contemporânea, expondo um lado questionável da indústria do vestuário. [3]

Imagem 2: O colapso de uma fábrica no Bangladesh. / Imagem 3: Calças da New Wave Bottoms para a Primark, expostas no Victoria & Albert Museum.

Neste caso, é claro o potencial de uma análise crítica sobre o design, como uma maneira de expor questões políticas, ideológicas e sociais, que nos levam a reflectir sobre as nossas próprias escolhas e práticas e, possivelmente, a criar uma consciência dos problemas que afectam a sociedade.  Contudo, partindo de uma reflexão sobre certos projectos de design brasileiro, verifica-se que existe também uma atitude predatória na exploração de certas preocupações sociais, não como uma convicção, mas como uma estratégia de venda. Os problemas sociais, as identidades e valores simbólicos são explorados e transformados num produto, geralmente vezes sem benefícios reais ou significativos para as populações, algo que Frederico Duarte apelida de “factor favela”. O pólo desenvolvido para a Lacoste, pelos irmãos Campana, ilustra esta faceta do design: a marca e a exclusividade não são suficientes, pelo que a campanha dá um protagonismo exagerado à parceria com a Coopa-Roca, uma associação de desenvolvimento sustentável sediada numa favela no Rio de Janeiro. [3] A promoção de um trabalho digno é importante, mas será que nestes casos a exploração de problemas reais não está a ser feita de forma superficial,  de forma a mascarar o objectivo central – a venda?

Torna-se evidente que quando a preocupação social é um mero adorno, esgota-se rapidamente o potencial de debate e de discussão para o qual o design poderia contribuir, não se estando a trabalhar verdadeiramente para a construção de novos futuros, nem para melhoria das condições de vida de quem realmente precisa. Na verdade, está-se a vender uma ilusão de uma solução para problemas sociais, quando na verdade os benefícios continuam a acumular-se nas elites.  Para que, de facto, o design promova uma discussão sobre questões sociais, de forma crítica e não apenas celebratória, não só o acesso a ele deve ser verdadeiramente alargado de maneira a abordar novas questões e problemáticas, mas também a própria prática do design deve ser inclusiva, diversa e crítica, de forma a abolir uma participação limitada a elementos da população mais privilegiados, que exclui os restantes, assim como a possibilidade de discutir os problemas partindo da perspectiva de quem é afectado por eles. Desta forma, só a partir de uma posição crítica que questiona e analisa o papel do design, expondo o oportunismo social no qual se baseiam certas práticas do design, podemos ser mais responsáveis na nossa própria actividade projectual, contribuindo para construir uma disciplina inclusiva que explora o seu potencial enquanto medium promotor de uma verdadeira consciência social.

Sofia Machado


Palavras-chave

design, Brasil, design social, frederico duarte

Referências

[1] KAIZER, Felipe. Entrevista: Frederico Duarte. 2013. Disponível em <http://aplataforma.org/post/51197049170/entrevista-frederico-duarte&gt;

[2] DUARTE, Frederico. 2016. Brazilian Design: Travel Notes #1. Disponível em: <http://www.vam.ac.uk/blog/research-department/brazilian-design-travel-notes-1&gt;

[3] DUARTE, Frederico. A felicidade está à Venda?. Disponível em: <http://www.proximofuturo.gulbenkian.pt/sites/default/files/ficheiros/FREDERICO_DUARTE_A-Felicidade-esta-a-venda.pdf&gt;

[4] BECCARI, Marcos. 2011. Design social e outros ressentimentos. Disponível em: <http://filosofiadodesign.com/design-social-e-outros-ressentimentos/&gt;

[5] SANTOS, Morgane. The Unbearable Homogeneity of Design. 2016. Disponível em: <https://medium.com/@morgane/the-unbearable-homogeneity-of-design-fe1a44d48f3d#.q563pmuon&gt;

[6] Design for the Other 90%. 2011. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_g37QUl6RPI&gt;

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