O cartaz político como arma

O evento que se realizou na Faculdade de Belas-Artes, dia 4 de Outubro e incidiu sobre a problemática do alcance social do cartaz político, contou com a participação dos investigadores Mauricio Vico e José Bártolo e ramificou-se em duas partes distintas.


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A conferência de entrada livre, dada por Mauricio, teve lugar marcado no grande auditório da faculdade e exprimiu-se pelo o tema “El cartel político en Chile entre 1970 y 2012. El Gobierno de Salvador Allende y los movimentos estudiantiles”.
As masterclasses, decorreram posteriormente na sala 4.11 e abordaram a construção de investigação na disciplina do design de comunicação e, concretamente, na história do cartaz político. Aqui, o Professor José Bártolo, complementando a discussão seguinte, foca o estudo do cartaz político português. Por conseguinte, o Professor Mauricio Vico, debate o processo de investigação relacionado com a sua tese de doutoramento e sintetiza o cartaz chileno nas suas fases revolucionarias, à luz do tema proposto “El cartel político, social y cultural de la izquierda chilena en el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973”.

Fundindo, assim, os contributos dos Professores e pesquisando um pouco mais acerca desta problemática do alcance social do cartaz político no mundo contemporâneo, descortino o seguinte:
Um cartaz, pode ser um determinado papel, com determinadas medidas, que promove determinado produto, evento ou ideal, através da conciliação de elementos gráficos e para tal é afixado em espaços públicos ou privados. Deste modo, visa atrair a atenção dos leitores (ou potenciais clientes) para promover os seus serviços. “Um grande cartaz torna-se frequentemente o verdadeiro símbolo de um produto, causa ou evento. Síntese de mensagem e método, o cartaz pode chorar, divertir ou emocionar e perpetuar-se na nossa memória. O cartaz como meio de comunicação, é ainda hoje insubstituível.” (1) Usados também como arma propagandista, os cartazes políticos são usados para fixar a imagem do líder ou da organização política, assumindo-se como veículo de propagação de ideias e persuasor da esfera pública, capaz de contemplar uma pluralidade de discursos, quer através da imagem, quer da palavra, carregando mensagens explícitas e implícitas (2).
É inevitável trabalhar o cartaz sem pensar no meio onde será inserido, e consequentemente, sem pensar nos milhares de leitores que o visionarão. Feito e concebido para se apresentar num local público, a relação do cartaz com o passante, a estrutura social e a linguagem é estreita e directa: o cartaz é um meio de comunicação, concebido para comunicar com quem passe, através de palavras de fácil memorização. Regendo-se da memória visual do espectador, os cartazes são armas letais para a consumação do desejo e da curiosidade, recorrendo ao seu carácter simples, perceptível e apelativo. Deste modo, a percepção e a interiorização inconsciente do cartaz rege-se pelo fenómeno da repetição, por isso nos deparamos com dezenas de cartazes iguais, espalhados um pouco por todo o lado. Com legislação própria, os cartazes devem ser afixados com moderação, já que os exageros, que são habituais, acabam por ter efeitos contrários (3).
Em cada cartaz podemos falar da patente relação entre códigos e estruturas que se vão diferindo consoante o seu contexto e forma, à qual se juntam o seus inerentes valores: documental, narrativo e estético. De modo a compreender esta questão, será pertinente anunciar Roland Barthes, que defende que ao olharmos para estes cartazes nos deparamos com uma verdadeira gramática.
Assim, e porque estes meios de comunicação se implementam como instrumentos para a divulgação da figura do poder político foram usados desde sempre na exposição da imagem que os candidatos às eleições pretendem incentivar e exaltar. Ou seja, o objectivo que estes cartazes geram é o de persuadir através de mensagens curtas, fortes e que transmitam alguma comoção: É um processo comunicativo cuja finalidade ou objectivo é a influência. Uma mensagem persuasiva comporta-se segundo a conduta expressa pelo emissor para que seja adoptada voluntariamente pelo receptor (4).

Actualmente, a comunicação assume, mais do que em qualquer outra altura, um papel crucial, de forma tal que podemos admitir o termo Idade Media fazendo um contraponto dos meios de comunicação que proliferam no mundo contemporâneo. “O desenvolvimento de novos suportes, principalmente os portadores de informação visual, como o cartaz e a imprensa periódica, multiplicaram e massificaram a comunicação pela imagem, tornando-se um recurso imprescindível na construção da cultura visual, em especial na acção da propaganda política. A propaganda política como “arma”, é em si mesma um discurso de poder, capaz de sustentar ditaduras e simbolizar a condição intrínseca das democracias. Este fenómeno é a linguagem dedicada à sociedade de massas, influenciando atitudes e formando opiniões.” (5) Assumindo-se assim como um importante meio de comunicação gráfico, o cartaz político prolifera nos centros urbanos de todo o mundo e invade o (in)consciente do passante, transmitindo e reformulando ideias, através da imposição da sua força. Consequentemente, regendo-se e sustentando-se por estes princípios, estes artefactos alimentam-se destes factores e elevam ao expoente máximo a comunicação com a sociedade, utilizando técnicas e símbolos de persuasão para a obtenção de relações com o público, modificando comportamentos e opiniões na propaganda a longo prazo, ou causando agitação no fenómeno propagandístico a curto prazo (6). Incomparáveis fontes de estímulos, os cartazes alcançam o público através da cumplicidade que com ele estabelecem, enaltecendo a força da imagem, aliando a dinâmica da composição – através da soma das cores, patentes na imagem, com o texto – equilibrando-a com a repetição (só possibilitada pelo baixo custo da reprodução em larga escala). É, por fim, de notar que a eficácia do cartaz é conseguida pela captação da atenção do receptor através da relação que com ele consegue estabelecer, numa curta fracção de tempo, fixando-se no seu inconsciente. É através da gramática de signos transferida ao passante que posteriormente se darão as requeridas mudanças de comportamentos. Deste modo, o cartaz político, é e continuará a ser uma arma letal no alcance social do mundo contemporâneo, aliando e manipulando elementos e princípios estratégicos para consolidar a sua composição e atingir a sociedade.

Joana Santos

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Palavras-Chave: Cartaz Político, Propaganda, Comunicação, Política, Design, Meios de Comunicação, Alcance Social

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NOTAS:
(1)   John Garrigan, in “Images of an Era: The American posters 1945-75”
(2)   Anna Coutinho (2015), in “O Cartaz é uma Arma!”, p. 25
(3)   Rgomes (2016), In “A Mensagem: Comunicar Política”, Blogs.Sapo

(4)   Rgomes (2016), In “Introdução: Comunicar Política”, Blogs.Sapo
(5)   Anna Coutinho (2015), in “O Cartaz é uma Arma!”, p. 25
(6)   Anna Coutinho (2015), in “O Cartaz é uma Arma!”, p.39

One thought on “O cartaz político como arma”

  1. Iniciando o meu comentário com base nas normas corretas para a publicação de um post, penso que o teu post está bem elaborado e tem um título chamativo. Começa com uma breve descrição acerca do que é abordado o que guia um pouco o leitor. Colocas-te todas as referências necessárias como notas e colocas-te as palavras-chave, que penso também serem as ideais, e por fim assinaste enquanto autora. Talvez pudesse haver mais uma ou duas imagens, no entanto a leitura é clara e os assuntos estão bem relacionados e organizados na sua ordem de abordagem. O post não é excessivamente grande e para quem não é entendido no assunto tem uma linguagem clara, quase universal se se poder assim dizer.

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