A actividade crítica no design, a crítica enquanto prática

Catarina Sampaio

O papel da actividade crítica no design tem evoluido historicamente no sentido de se tornar cada vez mais participativa e auto-reflexiva e menos assente no domínio puramente teórico. O papel anteriormente reservado aos críticos é agora partilhado por todos, tanto pelo público, como pelo próprio designer que, enquanto agente, passa a incorporar o pensamento crítico no processo de conceptualização dos artefactos de design. “Thinking is embodied in the artifact.” (Triggs, 2016)

A crítica enquanto prática devolve ao designer o poder de construir o discurso e corpo teórico da disciplina, a partir de dentro para fora. O designer precisa de adoptar uma postura reflexiva, exploratória e crítica, para continuar a manter a sua actividade relevante.

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O teórico enquanto crítico

A visão clássica do crítico é a de alguém que não participa na actividade à qual dirige a sua crítica, sendo um observador externo. Neste prisma, o crítico é um teórico especializado em determinado assunto que actua como uma espécie de “construtor gosto”. “They bring to mind the names of writers who specialise in the subject, achieve a continuous critical presence through their publications and are identified with a particular sensibility, style of writing, set of ideas and point of view.” (Rock, Poynor, 1995) Neste sentido, papel da crítica é essencialmente tornar o discurso académico acessível a audiências mais vastas, influenciando a opinião pública, e ao mesmo tempo ditando cânones a seguir pelos novos designers, salientando qual o trabalho relevante e qual aquele a descartar das publicações de design. Este tipo de actividade crítica acontece essencialmente no seio das revistas especializadas, e apesar de um certo distanciamento entre o crítico e a actividade criticada, ela é simbiótica, pois influencia a forma como o design é produzido.

Com isto, o discurso crítico ganhou terreno e passou a ser mais provocativo, com o objectivo de abrir discussão e incitar a produção de artefactos de design disruptivos que questionem paradigmas vigentes no design. “Essays are included which are intentionally thought-provoking and which encourage designers to question their own positions within the context of certain debates.” (Triggs, 1995)

O público enquanto crítico

Com o advento da internet e das redes sociais, a crítica passou a ser uma actividade participatória acessível a todos. Hoje todos podemos dar a nossa opinião e temos meios através dos quais o podemos facilmente fazer. Qualquer um pode observar e interpretar o design, sem necessidade de ter um discurso estruturado sobre o tema.

A actividade crítica deixou de estar apenas nas publicações especializadas, ou na área cultural dos grandes jornais e passou para os fóruns, redes sociais e disseminou-se por enumeras publicações fora do circuito comercial, como fanzines e revistas online auto-publicadas.

Segundo Michael Beirut, a crítica do design passou a ser encarada com a leveza de um desporto praticado pelo espectador: “The basic starting point of Graphic Design Criticism as a Spectator Sport is “I could have done better.” And of course you could! But simply having the idea is not enough. Crafting a beautiful solution is not enough. Doing a dramatic presentation is not enough. Convincing all your peers is not enough. Even if you’ve done all that, you still have to go through the hard work of selling it to the client. And like any business situation of any complexity whatsoever, that process may be smothered in politics, handicapped with exigencies, and beset with factors that have nothing to do with design excellence. You know, real life. Creating a beautiful design turns out to be just the first step in a long and perilous process with no guarantee of success. Or, as Christopher Simmons put it more succinctly, “Design is a process, not a product.”” (Beirut, 2013)

O designer enquanto crítico

Mais recentemente, deu-se um deslocamento da actividade crítica do exterior, para o interior da disciplina. A crítica foi devolvida aos próprios designers, localizando-se agora no universo das universidades e ateliers de design.

“Today, an ‘important graphic design’ is one generated by the designer himself, a commentary in the margins of visual culture. Sometimes the design represents a generous client. More often, it is a completely isolated, individual act, for which the designer mobilized the facilities at his disposal, as Wim Crouwel once did with his studio. It always concerns designs that have removed themselves from the usual commission structure and its fixed role definitions. The designer does not solve the other person’s problems, but becomes his own author.” (Velden, 2006)

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O critical design, põe o design em perspectiva, questionando práticas instituídas e desafiando os seus limites, posições e métodos. “Designers base their work in critical investigation.”(Metahaven, 2007) Ele assume-se como uma atitude crítica do designer perante os processos do design, com o objectivo de revitalizar a disciplina e aumentar a consciência das suas implicações, fomentando o debate e atitudes reflexivas. “Critical Design uses speculative design proposals to challenge narrow assumptions, preconceptions and givens about the role products play in everyday life.” (Dunne, Raby, 2013) “The term also highlights an important transition in graphic design practice and education: from the designer as author to the designer as researcher.” (Laranjo, 2014)

O critical design surge em resposta à ubiquidade das ferramentas tecnológicas de produção de design, que se tornaram acessíveis para todos, e que supostamente tornariam qualquer pessoa num potencial designer. Obviamente esta visão é pouco realista, pois o Design não acontece numa caixa negra onde para determinado input há um resultado esperado. O Design é uma prática reflexiva e processual, dependente do contexto e por isso sujeita a infinitas nuances.

Esta atitude crítica perante o design opõe-se à visão utilitária do design afirmativo, que visa a solução de problemas e está quase sempre ao serviço da indústria, ou de qualquer outro capital ou ideologia.

Criticar é pensar e questionar. O design deve ser encarado como uma atividade holística que está envolvida com várias áreas do saber, como a psicologia, a sociologia, a política, a semiótica, a estética; e é uma actividade que gera conhecimento, que será depois absorvido e incorporado nas várias práticas e estruturas sociais. “A cultura é, por natureza, assimétrica, marcada por dualidades: produtor/consumidor, individual/colectivo, dominante/minoritário, alta/baixa, a evolução e o enriquecimento cultural depende da comunicação entre pólos, do pluralismo social. A ausência de criticismo gera falsas consensualidades que empobrecem o regime cultural.” (Bártolo, 2006) A actividade crítica é extremamente importante, pois é a força motriz que permite desencadear mudanças positivas na sociedade. Todos nós temos o dever de nos posicionar e assumir uma atitude crítica em relação ao que nos rodeia e ao trabalho que produzimos enquanto designers.

 


Referências:

 


Imagens:

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