Uma imagem vale mais que mil propostas?

Esta análise parte da apresentação da investigação de Frederico Duarte no domínio do critical design brasileiro. Aborda a ‘Campanha Não-Eleitoral’ do coletivo Piseagrama e apresenta exemplos presentes na história política norte-americana, com o objetivo de questionar a campanha política baseada na figura do líder, menosprezando as propostas dos candidatos e a falta de questionamento dos votantes iludidos por uma mudança radical.

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[fig 1 e 2] Coletivo Piseagrama, ‘Campanha Não-Eleitoral’, 2012
Rutherford B. Hayes, presidente dos EUA entre 1877 e 1881, queria tanto distanciar-se do ‘interesse próprio’ que via na política, que nas eleições de 1876 não votou em si mesmo [1]. Repudiava a campanha política em que os objetivos e ideais davam lugar à imagem, ao candidato enquanto marca, e não enquanto representante e defensor das vontades e interesses dos votantes.

Em 2012, o coletivo Piseagrama juntou-se à campanha política das eleições municipais de Belo Horizonte ao desenvolver o seu projeto ‘Campanha Não-Eleitoral’ [2] [fig 1 e 2].
A ideia base deste projeto de caráter provocativo e irónico retomava os valores que R. B. Hayes havia contestado mais de um século antes, numa campanha atual em que continuavam a não existir sugestões para o mandato mas apenas retratos. Esta campanha do coletivo brasileiro consistia numa série de suportes propagandísticos (cartazes, t-shirts, cavaletes) com propostas para a cidade sob a forma de hashtags. Estes suportes eram colocados ao lado dos pertencentes aos candidatos reais e sugeriam o debate político de questões relacionadas com transportes (autocarros sem torniquetes, parques de estacionamento abertos 24 horas e carros fora do centro da cidade), com o rio local (no Arrudas é proibido nadar ou pescar devido às descargas de esgotos que poluem a água) e a criação de mais praças ao longo dos vários bairros.

Pretende-se uma visão crítica sobre a importância das ações concretas, questões sociais pertinentes e não uma cultura da figura de líder salvador e omnipotente que surge num clima de crise e descrença nos métodos em prática. A escolha eleitoral deve ser construída com base nos valores e propostas defendidos pelo candidato.

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[fig 3] ‘Hope’, cartaz da autoria de Shepard Fairey para a campanha de Barack Obama, 2008
Barack Obama, cara de uma das campanhas mais icónicas de sempre, em 2008 (ano em que foi eleito) foi questionado sobre a sua falta de experiência política. Obama referiu apenas o sucesso da sua campanha. No mesmo ano, num comício de Obama, Bill Clinton também clarificou que se existia alguma dúvida em relação às capacidades de Obama para o cargo, essa dúvida ficava esclarecida com uma breve memória da campanha, brilhante na sua opinião [1].

Podemos estabelecer uma relação direta entre o sucesso de uma campanha política e as capacidades de alguém para representação social?

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[fig 4] Na série ‘Black Mirror’ (2ª temporada, 3º episódio), Waldo, um cartoon sem qualquer background ou proposta política torna-se num candidato válido para as eleições de Stentonford, representando a descrença dos votantes nos candidatos habituais.
Na sociedade atual é comum observarmos uma vontade de mudança radical sem olhar a meios, com os partidos dos extremos do espectro político a ganharem poder. Essas figuras representam mudança, e essa mudança, que surge sublinhada, é um conceito superior a qualquer ideologia ou valor.

Estabelecendo um paralelismo entre a formação de uma opinião do votante na campanha política e a exploração do critical designer, encontramos o ‘como e porquê?’, a explicação, o processo, a transparência, enquanto elementos centrais necessários em ambos. Estes são postos em causa quando surge o conceito de figura de liderança, uma vez que um líder consegue dogmaticamente cumprir os seus objetivos.

 

Rui Pedro Martins

 

Palavras-chave: campanha política, piseagrama, critical design

 

Referências:

[1] DICKERSON, John (2012). ‘How To Measure for a President’. Disponível em: http://www.slate.com/articles/news_and_politics/politics/features/2012/how_to_measure_a_president_/what_qualities_should_we_look_for_in_our_presidents_.html
[2] PISEAGRAMA (2012). ‘Campanha Não Eleitoral’. Disponível em: http://sites.itaucultural.org.br/cidadegrafica/campanha-nao-eleitoral.html

One thought on “Uma imagem vale mais que mil propostas?”

  1. Logo de entrada não vejo links de ampliação de informação. Porque é que os Piseagrama não têm uma ligação? O cavalete é um suporte propagandístico?
    Mais à frente afirma que “Barack Obama, cara de uma das campanhas mais icónicas de sempre, em 2008 (ano em que foi eleito) foi questionado sobre a sua falta de experiência política. Obama referiu apenas o sucesso da sua campanha. No mesmo ano, num comício de Obama, Bill Clinton também clarificou que se existia alguma dúvida em relação às capacidades de Obama para o cargo, essa dúvida ficava esclarecida com uma breve memória da campanha, brilhante na sua opinião [1].” Para já não é ‘cara’ mas sim ‘rosto’ e o exemplo que coloca foi uma acção de Fairey que se tornou viral mas que não fez parte dos objectos de comunicação da campanha oficial de Obama.
    Depois salta de assunto em assunto sem esclarecer alguns destes aspectos:
    — como analisar a acção dos Piseagrama no contexto político brasileiro?
    — como analisar a acção de Shepard Fairey no contexto político americano?
    — em suma, como analisar a comunicação visual no contexto político nacional?
    “Na sociedade atual é comum observarmos uma vontade de mudança radical sem olhar a meios, com os partidos dos extremos do espectro político a ganharem poder. Essas figuras representam mudança, e essa mudança, que surge sublinhada, é um conceito superior a qualquer ideologia ou valor.” Mas em que se traduz essa mudança relativamente às opções visuais?
    Termina a afirmar que “estabelecendo um paralelismo entre a formação de uma opinião do votante na campanha política e a exploração do critical designer, encontramos o ‘como e porquê?’, a explicação, o processo, a transparência, enquanto elementos centrais necessários em ambos”. Não acha que os exemplos indicados operam na convicção de que existem aspectos questionáveis em todos os ‘rostos’ políticos’? O critical design trabalha nesse sentido o que não acontece nas campanhas partidárias nem é expectável que aconteça.
    Utiliza a referência ao ‘black mirror’ sem a contextualizar.
    O post deverá ser melhorado e construído dentro de uma linha de raciocínio estruturada e consequente.

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