O estudo do cartaz politico – Portugal e Chile: dois contextos, o mesmo assunto

Este post pretende um comentário ao que foram as Masterclasses com José Bártolo e Mauricio Vico, tendo em consideração geral o estudo do cartaz político em dois contextos distintos – Portugal e Chile -, mas que, no entanto, acabam por abordar o mesmo tempo e como isso é um fator de influência nos dias de hoje.

e_2016_cartelpoliticoenchileCartaz da conferência e das Masterclasses de Mauricio Vico e José Bártolo na FBAUL. Disponível em: <http://www.belasartes.ulisboa.pt/cartel-politico-en-chile-conferencia-de-mauricio-vico/http:/www.belasartes.ulisboa.pt/cartel-politico-en-chile-conferencia-de-mauricio-vico/>

 

José Bártolo – Como estudar o cartaz político português

José Bártolo, professor, investigador e curador, aborda o cartaz politico português. É importante refletir como os meios requeridos no século passado para o estudo do cartaz são (ou não) atuais ainda hoje.

Na disciplina de design, a investigação é abordada segundo a tematização e de forma metodológica: decorre no tempo e é sequencial. Só recentemente em Portugal o cartaz politico passou a ser alvo da atenção que até então não lhe tinha sido atribuída. Ricky Poyor aborda, num dos seus mais recentes artigos publicados no Design Cyber, a privilegiada dimensão politica assumida pelo cartaz, nomeadamente através de cartazes ativistas, de intervenção, de ação, entre outros. Um artigo que explica como o cartaz se tornou o meio mais eficaz de transmissão de ideias, em especial por consistir num meio democrático. Seria possível abordar aqui a questão relativa ao poder da imagem: “uma imagem vale mais que mil palavras”. De facto, é notória a diferença da força de um cartaz politico atual em relação à força atribuída num cartaz politico da década de 70, em especial da época do fim da ditadura militar em Portugal, quando voltou a haver propaganda politica e o design, em especial o cartaz, tiveram um novo impacto e importância não só politica como social. Apesar do contexto ter-se vindo a modificar, o povo português parece ter perdido voz ativa no que respeita a valores políticos. Parecem não acreditar mais numa ordem politica e ter desistido dela, acabando o mesmo por vindo a refletir-se no cartaz politico.

img_1Cartaz: Unidade O MPD/CDE, para muitos satélite do PCP, explorava a aliança entre o povo e o MFA (Movimento das Forças Armadas). Disponível em: <http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/recorde-os-cartazes-das-eleicoes-de-1975=f817215>

A semiótica, em relação ao meio, procura saber de que forma uma mensagem pode circular, ou seja, como se dá a intermediação, uma questão muito frequente no cartaz, inclusive politico. José Bártolo referiu alguns exemplos.

img_2Cartaz: Q. And Babies? A. And babies, Art Workers Coalition, 1970. Disponível em: <http://www.studydroid.com/index.php?page=viewPack&packId=559269>

Mesmo não sendo português, o cartaz acima é um cartaz de denuncia e protesto em relação a um massacre ocorrido dois anos antes. Transmite uma mensagem forte, perturbadora, chocante. Por representar desta forma o massacre, alcançou grande visibilidade. Este deve ser um dos propósitos do cartaz, não só o político como todos os cartazes de uma forma geral: informar, consciencializar e mudar mentalidades em busca de alternativas favoráveis, se bem que ao adotarmos esta atitude, em si mesma ela já é política. Foi esta a mentalidade que invadiu o cartaz politico português em 70. Rui Rocha fala em três dimensões do cartaz: a sua relação com o espetador (cartaz público, vive na rua); com a estrutura social e a linguagem do cartaz. O cartaz é pensado para estar num local público e comunicar com quem passa e essa deve ser a linha de pensamento base a qualquer intenção de construção de cartaz.

 

Mauricio Vico – El cartel político, social y cultural de la izquierda chilena en el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973

Mauricio Vico, Diretor do Departamento de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Chile, abordou na sua tese de doutoramento o estudo do cartaz político no governo de esquerda de Salvador Allend (1970 – 1973) e os movimentos estudantis. Foi graças à liberdade e ao apoio do governante que o design ganhou outra relevância, numa época em que muito pouco se sabia acerca do design e do próprio cartaz, passando a ser parte integrante do contexto politico

De que forma o contexto político pode influenciar as práticas artísticas? A meu ver o tempo de Allend foi crucial na história do design no Chile. Arrisco mesmo dizer que terá sido um forte impulsionador e motivador dos tempos que se seguiram à ditadura de Augusto Pinochet onde os apoiantes nacionalistas de esquerda sofreram fortes repreensões e parte da documentação relativa ao Design foi destruída. Certamente que os cartazes políticos que se seguiram tiveram em vista a crítica à ditadura por parte de alguns corajosos. Durante o seu estudo, Vico conseguiu ter acesso a um arquivo de cartazes políticos, no entanto e por obviamente não ser suficiente, viu-se obrigado a recorrer a entrevistas como meio para chegar às fontes primárias. Entrevistas que ainda hoje se revelam duras pelas recordações, até para o próprio ensaísta que tem o cuidado que criar ambientes favoráveis para as mesmas. No seu estudo, a questão da politica encontra-se duplamente presente: por um lado temos o estudo do cartaz politico num determinado contexto (Chile) e por outro temos a influência da situação politica de um país que condiciona esse mesmo estudo – o governo de esquerda e a ditadura militar. Vico não tem como fugir às circunstâncias de um passado ainda tão presente.

latifundioCartaz: Muerte al Latifundio, realizado por estudantes, 1970. Disponível em:<http://www.oberlin.edu/faculty/svolk/293f06syllabusMain.htm>

 

Considerações finais

Após uma reflexão sobre as duas masterclasses, é fácil entender como o contexto modela o design. Foram apresentadas duas formas de análise do cartaz politico no mesmo tempo (década de 70), no entanto e devido aos diferentes contextos, essas análises e o meio de chegar até elas é forçosamente diferente, sendo que a influência refletida atualmente é igualmente diferente.

Mas o que será isto de politica? Não é de todo a escolha de lado partidário, não pode ser um jogo de interesses pessoais, tem de ser sim uma forma de estar, a atitude certa a dotar face a determinados assuntos de forma encontrar soluções. De que forma pode o design contribuir? E os cartazes? Serão apenas para “puxar a brasa à sardinha” de um qualquer interesse? Vivemos na busca de seres pensantes e conscientes de como tornar o mundo melhor. O cartaz é sem dúvida um bom meio de expressão.

Mariana Torradnhas

One thought on “O estudo do cartaz politico – Portugal e Chile: dois contextos, o mesmo assunto”

  1. Tendo em conta o campo conceptual dos assuntos tratados nas masterclasses, penso que o caminho que a autora Mariana Torradinhas escolheu, para contextualizar o tema aqui abordado, isto é o estudo do cartaz político em dois contextos distintos, foi pertinente. É bastante interessante a referência feita ao estudo do cartaz português passando pelo nome de Rick Poyor, que me ajudou sem dúvida a perceber algumas questões. Nomeadamente, a questão dos cartazes políticos portugueses na época de 70 e o exemplo de cartaz do MFA aqui colocado. A força tremenda que naquela altura os cartazes políticos portugueses tinham, não é nada comparado com os de hoje, o que é de lamentar. Algo que me deixou de facto a pensar é quando no texto é referido: “o povo português parece ter perdido voz ativa no que respeita a valores políticos”, eu não tenho dúvidas nenhumas disso, e cada vez mais não acho que parece ter perdido, acho que nos dias de hoje perdeu mesmo essa voz. Já na abordagem feita ao estudo do cartaz no Chile, o cartaz usado como exemplo de cartaz político tem uma mensagem forte, que coloca o leitor preso ao texto que o sustenta, precisamente pela presença e importância que a autora dá ao nome Salvador Allende. É bem visto o governo de esquerda naquela época, e face às palavras de Maurício Vico, ser uma forte influência no que toca ao estudo do Design e às práticas do cartaz político, no passado, época de 70, e ainda nos dias de hoje no Chile.

    Quanto à formatação e própria citação dos autores referidos no post, penso que foi feita de forma pensada e a adequada. Apercebemo-nos das estratégias que a autora usou, apelando a nomes e referências importantíssimas na história e nos paradigmas do cartaz. As suas bases têm um quadro teórico por trás e fazem-nos perceber e acompanhar o seu pensamento. A forma clara e concisa como o estudo do cartaz político foi tratado, tendo em conta os dois contextos divergentes, foi de facto essencial à criação de um raciocínio crítico bem fundamentado pela autora.

    Neste Post é notório o poder referencial do estudo do cartaz, e sobretudo da palavra política tendo em conta o seu passado, presente e futuro face aos seus diferentes contextos. Dentro do meu pensamento, as questões aqui colocadas no final respondem mais do que qualquer resposta, mas no entanto colocam-nos a pensar durante um bom tempo sobre elas, porquê? Porque são pertinentes na mudança do mundo e do próprio cartaz. Voltar ao passado e deixar questões no presente, são respostas para o futuro. Este texto é um exemplo disso.

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