A importância do cartaz como ferramenta política e as suas influências contemporâneas no movimento de esquerda Chileno durante o governo de Salvador Allende (1970-1973)

Texto crítico/analítico baseado na conferência “El cartel político en Chile entre 1970 y 2012. El Gobierno de Salvador Allende y los movimentos estudiantiles” por Mauricio Vico, e na Masterclass com Mauricio Vico e José Bártolo

Ccontextualização

O cartaz político de esquerda surge nas ruas do Chile alguns meses antes da eleição de Salvador Allende, em 4 de Setembro de 1970, e continuaram durante os próximos três anos durante a permanência de Allende no poder até o golpe de estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, Augusto Pinochet, e a consequente ditadura que durou de 1973 até 1990.[1] Chile encontrava-se, pela primeira vez, em uma liberdade nunca antes experimentada – depois de toda a violência vinda da época da colonização e a exterminação do povo indígena, o povo ganha voz e começa a ter um diálogo entre o governo e a população. Mas o país se encontrava em uma situação de instabilidade política e económica, vinda previamente pelos antigos governos, pela pouca produção de matéria-prima e pela privatização desses recursos. Também existia a forte oposição de direita pelo Partido Democrata Cristão e também a pesada influência norte-americana, acabando por gerar um clima tenso e de violência no país.

Cabe destacar brevemente alguns factores internos que influenciaram o estilo do cartaz Chileno durante estes 3 anos;

» A morte de líderes revolucionários como Ernesto “Che” Guevara, em 1967.

» A economia e o anti-imperialismo promovido pelo pensamento de esquerda, sugerindo a nacionalização do cobre que estava tomado por empresas privadas americanas.

» A grande população jovem Chilena; em 1960 predominava uma população jovem no Chile, 38,5% teria menos de 15 anos, além de ter começado uma grande migração do campo para a cidade.[2]

» Os movimentos feministas com a oposição ao machismo, defendendo o novo papel da mulher na sociedade, identidade género, o divórcio, o aborto e a relação sexual pré matrimonial.

» O sentido de pertencer a uma nação.

» A Reforma agrária realizada pelo governo de Eduardo Frei entre os anos de 1964 e 1970 com um forte apoio norte-americano durante o governo de John Kennedy, devido a revolução Cubana em 1959, fornecendo um apoio financeiro aos países latino-americanos, estrategicamente para conter o avanço dos grupos revolucionários de esquerda, levando a surgir grupos de guerrilha como o Movimento de Izquierda Revolucionario (MIR).[3]

» A Reforma universitária que começou simbolicamente em 1967 na Universidade Católica que foi ocupada por estudantes pedindo uma reestruturação na universidade, o que consequentemente foi replicado em várias outras instituições no país por estudantes e professores.

» O Congresso do Partido Socialista em 1967 para o início da construção do socialismo no Chile, e para sua independência econômica e cultural.

» A aparição de grupos de rock locais com fortes influências como Rolling Stones e The Beatles, que consequentemente serão usados como instrumento de luta social.

» Artistas plásticos com diversas influências dos líderes revolucionários e heróis locais e internacionais.

» O apoio de Partidos políticos, instituições públicas e universidades a UP promovendo uma sociedade justa.

Alguns factores externos também tiverem uma importante influência;

» O movimento hippie dentro dos jovens da sociedade burguesa devido a ampla difusão através de mídias impressas, da televisão e pelo mundo universitário. Os partidos de esquerda assumiram essa tendência como modo de atrair as juventudes para uma linguagem moderna e de acordo com seus gostos.

» A guerra do vietnã (1964-1974) teve uma grande influência pelas repercussões entre os jovens da esquerda chilena devido a solidarização com o movimento independente e contra a invasão americana.

» O design como nova profissão e disciplina entre os jovens estudantes e como forma de produção ideológica fortemente influenciada pela Bauhaus e pelo estilo tipográfico Internacional.

» Revistas de design internacionais, como a Gebrauchsgraphik (Alemanha), Graphis (Suíça), e outras também provenientes da UE.

» Forte influência da Pop Art e o movimento psicadélico presente nas músicas e artes de discos de bandas internacionais.

Comentário

O design foi uma importante ferramenta para os Chilenos poderem expressar de forma gráfica as suas ideologias. Dado a situação política, económica e social do país, havia uma forte necessidade e vontade das pessoas se expressarem, e essa necessidade foi alimentada pela recepção de novas influências internacionais, misturando diferentes estilos de forma livre e totalmente sem imposições ou regras pré-determinadas, dando um aspecto ecléctico e possibilitando a criação de conteúdo inovador e moderno. Também foi fortalecida pelas influências internas, não só pelas dificuldades, mas pela crítica e resposta a essas dificuldades, fortalecendo ideologias e formas de pensar e dialogar. Toda essa liberdade criativa deu uma responsabilidade ao jovens em relação ao governo e a política, cooperando com a criação de uma nova sociedade – um novo ser humano – criando um discurso culto entre o governo e o povo. Todos esses factores cooperaram para que Allende fosse eleito por voto popular, mostrando a importância de existir um governo transparente e comunicativo com o seu povo. Um perfeito exemplo dessa liberdade de expressão, criativa, e geral do povo, são os cartazes produzidos nessa época. Conseguimos perceber as motivações internas que levam a formação das ideologias, e a influência internacional das músicas, do design, da tipografia e da arte. Apesar desse período de liberdade de expressão e comunicação ter sido pequeno, e de logo depois vir uma agressiva e violenta ditadura até 1990, esse período serviu como uma forte inspiração e influência para os movimentos sociais e estudantis do século XXI. Com a ajuda da internet, das redes sociais, o movimento de esquerda fortalece novamente em Chile – como já vinha crescendo nos anos 2000, mas que depois de uma crise nacional devido ao terremoto, o apoio ao governo de direita voltou, [4] mas novamente a juventude Chilena pedia por reformas no país, queriam acabar com a herança do ditador Pinochet, e queriam reivindicar o que é de direito da população como a melhora da educação, ensino superior gratuito, direitos LGBT e a recuperação do cobre chileno antes privatizado. Os cartazes já começam a ser mais fortes, mais confrontacionais, tendo mais autores anónimos ou cartazes que a autoria era representada por grupos, e não por um único artista, criando uma forte resistência de esquerda.

O cartaz e a imagem que ele passa, seja em formato digital ou físico, serve como uma forte imagem representativa de reivindicações e das ideologias sem amarras e censuras, e como principal e poderosa ferramenta do activismo e da militância, pois se torna extremamente difícil censurar o subentendido, o simbólico sem uma intervenção explicitamente directa – tornado as redes sociais e a internet o maior aliado dessa militância, pois até um governo tomar conhecimento de uma imagem em circulação e tomar providência contra ela, já se passou tempo suficiente para a imagem ser veiculada, redistribuída internamente, re-publicada nas redes sociais, e servir de inspiração para novas imagens e interessar novas pessoas para aqueles ideias, sem contar que quando se torna público que alguém está tentando esconder ou apagar alguma imagem ou informação na internet, esse conteúdo acaba por viralizar, transformando a própria censura em um impulsionador.[5]

Mas o cartaz físico, colado pelas ruas, é igualmente importante porque grande parte das pessoas que possuem este senso de militância via redes sociais e pela internet, tendem a ser jovens, e o cartaz nas ruas leva esse conteúdo importantíssimo para aqueles que não tem vivência com o mundo online, se mostrando extremamente importante o conhecimento geral de pessoas de todas as classes, idades, géneros, igualitariamente espalhando esse conteúdo que pede por igualdade social.

Yago Murakami

Referências

[1] “President Pinochet Presides Over a Ruthless Regime” Infoplease, acessado 8 de Outubro de 2016, http://www. infoplease.com/country/chile.html?pageno=2.

[2] “El cartel político del gobierno de Salvador Allende (1970-1973)” Monografica, acessado 8 de Outubro de 2016, http://www.monografica.org/02/02/Articulo/3956.

[3] Francesca Miller, “Latin American Woman and the Search for Social Justice”, 1991, página 179, acessado 8 de Outubro de 2016, https://books.google.pt/books/about/Latin_American_Women_and_the_Search_for.html?id=sXiTQpR3crwC&redir_esc=y.

[4] “Earthquake Devastates Beginning of Right-Wing Rule” Infoplease, acessado 8 de Outubro de 2016, http://www. infoplease.com/country/chile.html?pageno=4.

[5] “The Internet never forgets, so be careful what you put on it” Independent, acessado 9 de Outubro de 2016, http://www.independent.co.uk/student/istudents/the-internet-never-forgets-so-be-careful-what-you-put-on-it-8787706.html.

One thought on “A importância do cartaz como ferramenta política e as suas influências contemporâneas no movimento de esquerda Chileno durante o governo de Salvador Allende (1970-1973)”

  1. O texto apresentado começa com uma contextualização do cartaz político no Chile, os seus antecedentes, a importância e sua necessidade e de que forma ele contribui para uma maior liberdade, aquando do governo de Salvador Allende. Fez referência a movimentos e influências gráficas e estéticas externas, que contribuíram para uma maior criatividade e expressão que os cartazes começaram a ter relativamente ao que se fazia no design gráfico até a esta altura.
    Esta breve explicação é bastante relevante para a compreensão de aspectos que foram falados na conferência, assim como nas masterclasses, que em seguida Yago Murakami referiu e comentou na segunda parte do seu texto. Considero que este texto pretende não ser apenas analítico, mas fazer-nos pensar acerca do design como ferramenta importante para legitimar ideologias do povo Chileno em relação à política da época e como a contribuição de características gráficas, artísticas e acima de tudo modernas inseridas nestes cartazes, foram o mote para a liberdade de expressão de um povo oprimido.
    Foi também referido a grande importância dos movimentos estudantis para que a mudança fosse levada a cabo para uma nova sociedade, o cultivo de valores e de uma moral ilibada. É de notar que a importância dos jovens se mostra relevante para que mudanças políticas, sociais, culturais e económicas sejam implementadas no governo vigente, como pudemos ler no texto.
    Em género de conclusão, o texto faz um paralelo ao período contemporâneo que valoriza o cartaz como forte meio de uma mensagem clara e objetiva, para a sociedade e deve ser pensada como importante, capaz de conscientizar classes, faixas etárias e géneros para que haja ativismo por parte da sociedade em relação à mudança, mas acima de tudo o quê e o porquê desta mudança.

    Mónica Medeiros

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