Da ontologia ao critical design

Ana Caçador
A ontologia [1] é uma teoria filosófica que implica olhar para o mundo de uma maneira diferente, um olhar questionador de práticas e de posições sociais, um olhar que permite ao designer ‘ocupar-se’ da essência dos objetos e do seu enquadramento na vida das pessoas que os vão utilizar. O critical design tem o mesmo princípio, mas de uma maneira mais modesta. A questão é, como é que o estudo aplicado deste campo da filosofia conseguiu influenciar esta abordagem ao Design?

Contextualização temática

Um dos temas recorrentes nas várias conferências do III Encontro de Design de Lisboa, na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, foi a contextualização do design e o seu papel na sociedade moderna. O painel “Design e complexidade” e a Palestra da Professora Teal Triggs foram bastante focados no papel do designer como agente de mudança social e de paradigmas.

Enquanto a Professora Fátima Pombo iniciou o discurso com uma reflexão sobre “A fenomenologia para as disciplinas de Projeto” e a importância dos designers/criadores perceberem o meio onde estão envolvidos, e a suas implicações através de uma abordagem filosófica, o convidado Francisco Laranjo, teorizando sobre o futuro (negro) da disciplina do design, criou uma narrativa de “Design fiction” para ilustrar o que aconteceria se perdêssemos a nossa capacidade crítica como criativos, em paralelo com o desenvolvimento tecnológico que iria culminar na massificação das estruturas de templates através de ’Designer Bots’. A professora Teal Triggs abordou a importância da atitude crítica em relação à sociedade, o que significa ser crítico nos dias de hoje e a aplicação desta atitude em relação ao ensino e prática nas disciplinas de design. As temáticas abordadas (resumidamente) passaram pela contextualização do design em conjunto com a metodologia de projeto, o papel social do designer e o papel da crítica e do critical design na abordagem à disciplina.

O surgimento do termo Ontologia aplicado ao Design – como os designers são criadores de experiências.

O termo ‘ontologia’ aplicado ao design surgiu no livro Understanding Computers and Cognition de Winograd e Flores em 1986 [2]. Nele os autores iniciam um discurso que tenta transmitir aos designers o seu poder de mudança no comportamento humano.

“Understood as “the interaction between understanding and creation”, design is ontological in that it is a conversation about possibilities;” [3]

A Ontologia, na sua origem, é um estudo filosófico que trata o ‘ser’ e a sua natureza. A existência ou realidade e as categorias básicas do ser e das suas relações. Esta teoria enquadra-se no campo filosófico da metafísica e lida com questões que se focam na existência de entidades e nos grupos/relações formadas pelas mesmas. Winograd e Flores abordam o ‘Ontological Design’ como a maneira de revolucionar a prática através de um método que não fosse apenas teórico ou com base num movimento temporalmente limitado. Através da abordagem do papel do designer, não apenas como criador ou construtor, mas pensar sobre o seu papel contemporâneo e o papel que pode vir a cumprir.

“(…) we are designed by our designing and by that which we have designed (i.e., through our interactions with the structural and material specificities of our environments); Therefore Ontological Design is based on the theory that we design our world, while our world acts back on us and designs us and the cycle continues. “

 Anne-Marie Willis [4]

 My method? Think. Consider. Sketch. Think again. And look around you. It’s all been done before, albeit with different code. [5]

Podemos reconhecer alguns objetivos da Ontologia aplicada ao design naqueles que o critical design aborda e estuda atualmente. Partindo da teoria ontológica e tornando-a numa Praxis, tratando novos paradigmas e libertando-se de uma abordagem demasiado filosófica com a prevalência do contexto contemporâneo. Será que podemos dizer que o critical design é de facto um descendente do ontological design? A apreciação do estudo do processo, a análise do impacto dos objetos, da experiência dos objetos, a índole social através da crítica dos objetos e da própria sociedade podem ser características que partilham e que se têm vindo a intensificar. Torna-se cada vez mais crucial entender estes modelos de pensamento e agir de acordo com os mesmos, passando pela valorização do método como modo de originar objetos mais conscientes (socialmente) e da investigação, pesquisa e pensamento crítico para criar hábitos mais impactantes para o nosso futuro como sociedade.

 “We encounter the deep question of design when we recognize that in designing tools we are designing ways of being” [2]

 

Referências e Bibliografia

[1] Tony Lawson , 2004, A Conception of Ontology – Explica de uma forma sucinta o que é a Ontologia em geral e algumas das suas aplicações noutros campos.

[2] Winograd, T., & Flores, F. (1986). Understanding Computers and Cognition. Califronia: Addison-Wesley.

[3] Arturo Escobar, Notes on the Ontology of Design, University of North Carolina, Chapel Hill (p.34)

[4]Anne-Marie Willis Ontological Designing

[5] Ui/Ux et al, Artigo por Erik Spiekermann

Conteúdos complementares:

https://mehulsangham.wordpress.com/2011/11/26/ontological-design-part-1-cognitive-plasticity/

http://aut.researchgateway.ac.nz/bitstream/handle/10292/1205/JosephF.pdf?sequence=5

http://hauntedgeographies.typepad.com/hauntedgeographies/2010/12/ontological-design.html

http://modesofcriticism.org/

One thought on “Da ontologia ao critical design”

  1. O assunto é relevante e a sua análise é apoiada em referências pertinentes.
    No entanto, a questão “será que podemos dizer que o critical design é de facto um descendente do ontological design?” não chega a ser respondida.

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