O designer (des)valorizado

Inês Martins

“O ser humano está a perder a capacidade de se perder”, afirmava o professor Philip Cabau, na conferência da manhã à cerca dos esquissos, e do seu uso cada vez menos frequente que dá lugar a outras ferramentas sobretudo tecnológicas.

Após uma semana dedicada aos amantes da tecnologia que vieram a Lisboa assistir ao Web Summit, foi muito interessante assistir ao desenrolar das conferências do III Encontro de Design de Lisboa, especificamente, ao discurso da tarde de Francisco Laranjo – “Design gráfico Automatizado”. Um manifesto especulativo acompanhado por uma narrativa visual, que nos teleportou para um futuro em que a tecnologia deixou de ser uma extensão auxiliar ao humano para passar, em alguns cenários, a ser imperativa e a governar sectores. Os designers gráficos haviam sido substituídos por bots que, para a construção de um logo, apenas recorriam a tudo o que está disponível online sobre a temática e faziam uma espécie de “mash-up”, criando assim algo “novo”. As ações da narrativa eram hipóteses, especulações inerentes ao desenvolvimento tecnológico e ao moldar duma sociedade submissa a esta tecnologia. Terminou-se com a ideia de que no futuro, não só enquanto designers mas enquanto cidadãos, iríamos penar e admitir que era tarde demais para mudar o rumo da história, ficou implícito o apelo à reflexão e à critica. Para mim este foi um dos melhores momento do encontro, não pela novidade do tema mas pela maneira como foi transmitido e comunicado. No entanto, no momento de debate e em conversas de coffee breack sobre estas questões, apercebi-me que a maioria dos jovens da minha idade encarou esta visão quase como uma afronta devido ao seu severo negativismo no que toca à tecnologia. Parece que houve uma falha de entendimento entre a narrativa de Francisco Laranjo, percebido quase como uma teoria da conspiração, e o seu verdadeiro objectivo. No meu entender a questão não era repugnar a tecnologia e pintar um cenário negro a esta profissão. Foi apenas uma maneira inteligente de mostrar que o valor de um designer hoje está naquele que possui uma compreensão crítica dos valores que fundamentam a disciplína; naquele que possui a coragem e se dispõe a defender ideais sociais e culturais mais elevados do que o consumo a curto prazo do mercado, que poderá levar à destruição da disciplína, e não só, à destruição  de algo superior a nós como o meio ambiente por exemplo. O verdadeiro valor do design hoje está na consciência do seu próprio valor, no facto de se colocar a disciplina como uma potencial contribuição para uma melhor qualidade de vida e mais sustentável. É essencial a consciencialização desta nova geração de designer do verdadeiro poder que o design pode ter e assumir. Foi com pena que me apercebi que o mote de Philip Cabau acabou por se enquadrar bem neste panorama da tarde. De facto as pessoas mais novas estão mesmo a perder a capacidade de se perder, de especular, de pensar. De imaginar futuros fictícios e hipotéticos que por definição poderão ou não um dia vir a ser factos, não sendo a veracidade absoluta o que move esta prática.

Esta reflexão levou-me a pensar num artigo que li há já algum tempo – “Design Valorizado” de Nigel Whitley, que acredita que muitas das soluções para alterar o papel do design no mundo se encontram no ensino, que deverá formar designers que sejam conscientes sobre o valor da sua prática bem como o impacto da prosperidade, do consumismo e do estilo de vida como forças sociais e culturais. Agora, mais que nunca, concordo que o papel das escolas de design deve ser fomentar essa consciência nos alunos e não apenas atender a normas de um sistema consumista que só se preocupa com lucro. Os conteúdos lecionados deverão incluir a reflexão sobre problemáticas e o seu significado para o design e para a sociedade, é importante portanto referir o design critico, design de ficção, design especulativo como matéria exploratória. Deverá evitar-se professores que não tem nenhum respeito pelo estudo académico, que defendem que o design é exclusivamente uma atividade empírica. Entre outras adaptações variadas que suscitem esta nova forma de dar valor à disciplina e assim, por consequência, valorizar o designer.

Em suma existe a necessidade de se desenvolver um modelo para um novo tipo designer, munido de uma compreensão mais aprofundada e bem mais complexa da questão de valores, da sua responsabilidade com o mercado, com a sociedade e o meio ambiente. Um designer que não tenha medo de se perder, que ainda seja capaz de encontrar soluções no erro.

Palavras-Chave: Critical Design; Tecnologia; Valor; Designer.

One thought on “O designer (des)valorizado”

  1. O texto merece ser descompactado através de ‘capítulos’ e de parágrafos.
    No entanto, sugere uma reflexão pertinente e estabelece uma leitura crítica sobre duas palestras dos Encontros de Design de Lisboa.
    Há gralhas como “dísciplina” ou “disciplína”. Proponho que passes o texto pelo corrector do word e que corrijas alguns aspectos de construção frásica.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s