O olhar não é neutro

Ana Caçador

O Design não é neutro porque o olho também não o é. Apesar de o olho ser ‘só’ um órgão de um sistema falível, são óbvias as implicações do olhar sobre um objeto, especialmente se o mesmo for de cariz político e ainda mais se for uma ‘peça de Design’.

No passado dia 4 de outubro foi organizada uma palestra e Masterclass de Mauricio Vico, que foi completada e enriquecida por outra lecionada por José Bártolo.
José Bártolo fala sobre a capacidade de o cartaz impactar positiva ou negativamente a sociedade onde se insere, mas Mauricio Vico ofereceu-nos uma nova perspetiva sobre as repercussões do cartaz através do exemplo específico do Chile. Neste país, alguns cartazes não só tiveram impacto no momento em que foram lançados mas causaram uma mudança tal que se tornaram símbolos representativos de uma época ditatorial, que levou à destruição dos objetos num momento posterior, e por isso ainda hoje os designers que participaram nessa criação para o regime ditatorial têm receio de falar sobre o assunto e assumir a sua autoria.

O cartaz com meio não é só um instrumento de ”propaganda” quer seja comercial como político, pode ser um instrumento de repressão e de violência, pode ser um instrumento de sensibilização social e pode ser utilizado para denegrir ou mesmo para provocar ódio.
Um dos exemplos é uma crónica de Arturo Barea, que escreve sobre a sua experiência em Valência, de onde tinha vindo desde Madrid, que era a frente de combate na altura da Guerra civil espanhola: ”Eu caminhei devagar por um mundo estranho onde a Guerra apenas existia nos enormes cartazes antifascistas e nos uniformes errantes dos homens da milícia (…) sobre o pano de fundo de ‘posters’ gigantes que pediam pelo sacrifício em nome da cidade de Madrid.”. Este é um exemplo onde se pode ver a relação entre a realidade e a ‘ficção’ apresentada através do Design do cartaz.

Adotando uma citação da obra de Martine Jolly [1]: “ (quando vemos a publicidade) (…) temos a sensação de ser influenciados, de modo mais inconsciente do que consciente, pela perícia de alguns iniciados que nos podem manipular submergindo-se da nossa ingenuidade. (…) ”. São aplicados ao Design os mesmos adjetivos descritos acima, o que leva a uma abordagem do Design e do Cartaz com uma leveza ‘ingénua’ inicial e depois com uma crescente desconfiança.
O Design é concebido para enganar os sentidos e a lógica, partindo do princípio que um objeto nunca é apenas o que aparenta ser. Segundo Roland Bathes, é sobre o espectador que se estuda a produção de significado, as teorias semióticas mais recentes abordam a perspetiva de que a criação de significado não parte só do produtor/artista que concebe o objeto, mas de uma relação tripartida e relacional entre Autor-Obra-Espetador, sendo que o espectador é um interpretante e influência diretamente o significado da obra.

“Olhar, olhar até já não sermos nós mesmos”
Álvaro Mutis, Le dernier Visage

Estes dois investigadores (e designers) apresentaram o futuro do Design como uma disciplina, não só prática mas também de investigação, que é um dos tópicos mais atuais e debatidos neste campo.
Será que o Design deve ser uma disciplina de estudo de investigação?
Seria hipócrita dizer que este é apenas um problema de mentalidades ‘populares’. Porque mesmo os países que ‘prezam a teoria’ continuam (e perpetuam) este estigma de que o Design não é uma disciplina sobre a qual se desenvolvam grandes trabalhos teóricos e análises retrospetivas sobre si mesmo. Não atribuem ao Design autonomia suficiente para se analisar e “auto-avaliar” como atribuem a outros campos artísticos, nem a legitimidade como disciplina produtora de ‘história’, apenas reservando a sua análise a peritos da disciplina de ‘História de Arte’. Mas através do olhar de um investigador do Design, podemos ter uma análise, mais do que de um crítico, de um sociólogo, um antropólogo e de um historiador, permitindo pensar no designer como produtor e analista de significados e não só um como um simples artesão.

Palavras-chave: Design, Ética, Crítica, Cartaz político, Investigação, Semiótica, Olhar

[1] Joly, Martine (1994) — Introdução à Análise da Imagem, Lisboa, Ed. 70, 2007

Todos os sites foram consultados no dia 10 de outubro de 2016

One thought on “O olhar não é neutro”

  1. Tendo lido e analisado o Post da Ana Caçador, penso que os assuntos nele referidos são de grande pertinência. A Ana teve o cuidado de contextualizar o leitor referindo depois os temas abordados pelos ensaístas durante a Masterclass.
    A frase de Martine Jolly, “ (quando vemos a publicidade) (…) temos a sensação de ser influenciados, de modo mais inconsciente do que consciente, pela perícia de alguns iniciados que nos podem manipular submergindo-se da nossa ingenuidade. (…) ”; vai de encontro ao que é tratado no resto do Post. Os cartazes são de facto meios de persuasão que impactam e sensibilizam o espectador, podendo dessa forma ser utilizados de maneira a gerar os efeitos pretendidos pelo autor. Tal como foi referido pela Ana é tudo uma relação entre Autor / Obra / Espectador. Relativamente à questão colocada “Será que o Design deve ser uma disciplina de estudo de investigação?”, eu penso que a resposta certa seja “Sim”. O Design não é ainda respeitado como disciplina mesmo sendo um campo para o qual é necessário dedicação e conhecimentos sobre variados aspectos, dando resultado produções notáveis, o que na minha opinião faz com que o Design seja de facto merecedor de estima e consideração enquanto disciplina.
    Penso que a Ana teve uma preocupação em construir uma opinião bem estruturada e com uma linguagem cuidada. Foram utilizados também uma formatação do texto e raciocínio adequados dando ênfase ou não a excertos do texto consoante necessário, proporcionando ao leitor uma leitura clara. Todas as referências relevantes utilizadas estão presentes no Post.

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