Fazer design, criar identidade

Reflexões sobre o encontro com Frederico Duarte -O Desafio Contemporâneo do Design Brasileiro-. Uma abordagem ao design das periferias. Estudos Contemporâneos de Design – Mestrado em Design de Comunicação e Novos Media – Universidade de Lisboa

Falar de design também é falar de sociedade, cultura e identidade. Cada objeto de design denota, reflete e materializa – em diferentes graus de manifestação – dinâmicas sociais, integração industrial e desenvolvimento tecnológico, como também uma ideologia que estabelece uma relação entre objeto, uso e contexto social.

No ensaio Fator Favela, Frederico Duarte apresenta-nos uma leitura, por momentos muito pouco desejável, sobre construção de identidade, cultura e o impacto social e econômico, do design brasileiro “internacional”. Desde outra perspectiva, a intenção deste post é contribuir com a reflexão sobre alguns dos aspectos analisados por Frederico. A partir do projeto carioca Zerezes, e dentro do contexto do design brasileiro contemporâneo, o meu propósito é analisar, desde uma perspectiva cultural e simbólica; como os gestos   manifestos da marca/produto, definem uma identidade e pertencimento ao lugar.

zerezes

“Falo de um designer como alguém que observa e interpreta as várias dimensões do seu contexto, sejam elas de natureza tecnológica, social, cultural, econômica ou política e que, a elas reage através do seu trabalho, a elas reage, tendo em conta as suas múltiplas dimensões, possibilidades e capacidades, bem como as responsabilidades e consequências dos seus actos.” [1]

Design, valor e cultura de marca

Na minha chegada ao Rio de Janeiro em 2010, percebi que o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, estava borbulhando em energia e felicidade, motivado pelos muitos eventos internacionais por vir. Percebia-se um forte espírito de renovação. Nesse momento de grande ativação econômica, muitos projetos e empresas não tardaram em surgir.

O projeto Zerezes, surgiu no Rio de Janeiro, em 2012. É uma empresa fundada por quatro amigos, naquele momento, estudantes de design na PUC Rio, que resolveram fazer seus próprios óculos de madeira no laboratório de prototipagem da universidade. O projeto cresceu e converte-se em um “case”de sucesso, entre as jovens empresas cariocas.

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Um dos principais valores do produto é o processo; o handmade é um movimento, que na última década, converteu-se em um grande impulsor de produtos de “autor” ou “exclusivos”, um movimento voltado para processos de design mais “demorados”, de baixo impacto ambiental e alto valor sensorial. Os óculos são produzidos manualmente, a partir da prensagem e de lâminas de diferentes tipos de madeira, como material de descarte de obra recolhida na rua. Todo o processo é feito pelo próprio grupo- as lentes são fornecidas – e cada peça leva cerca de dois meses para ser concluída.

“… A ideia veio acompanhada de uma observação sobre o momento especial que o Rio atravessava. Graças à Copa, às Olimpíadas e à revitalização da região portuária, a indústria civil vivia um boom e era fácil encontrar madeiras nobres descartadas em caçambas pela cidade.” [2]

Em um contexto onde o sistema de mercado, torna cada vez mais difícil, quando não inviável, qualquer desenvolvimento local o regional, resulta valioso o aporte do design enquanto processo projetual; como uma ferramenta de análise, estudo e criação num  contexto determinado. Porém, é inegável, o valor que este tipo de projetos condensa em cada objeto de design, talvez por isso o alto preço do produto, mas não deixa de ser um belo e feliz exemplo, de como muitos empreendimentos começaram a preocupar-se pelo fator humano. Pensando design, desde uma dimensão social e relacional, como uma ferramenta de desenvolvimento para uma comunidade.

Todos os países latino-americanos se confrontam com “esta constelação internacional de interesses que querem manter a Latino América no papel de exportador de comanditeis, o que significa: países de não design. E qualquer coisa, por mínima que ela seja, está dirigido contra esses interesses. E por isso é política. [3]

Construção de identidade

O design é manifestação cultural e de identidade. Através dos objetos podemos chegar a perceber certas dinâmicas sociais e culturais, contextos de produção e até estilos de vida muito peculiares. No caso da Zerezes, a preocupação pelas formas – linhas curvas e puras – e materiais -metal, madeira e resina – talvez tenha sua origem nas dinâmicas de uma cidade que se divide entre a natureza e meio urbano, nas suaves linhas do mar, as formas do neoconcretismo ou no delicado som da bossa nova.

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“…falar do designer não como o proponente da forma de um produto, serviço ou uma situação, mas sim enquanto sujeito crítico e elemento activo da sociedade em que vive e para a qual trabalha. Falo de um designer como alguém que observa e interpreta as várias dimensões do seu contexto, sejam elas de natureza tecnológica, social, cultural, económica ou política e que através do seu trabalho a elas reage, tendo em conta as suas múltiplas dimensões, possibilidades e capacidades, bem como as responsabilidades e consequências dos seus actos.” [4]

Se determinamos, o contexto natural ou habitual, como um fator de criação, podemos pensar no Rio de Janeiro, como o marco perfeito para este tipo de produtos. Ao igual que as havaianas, os óculos de sol, são ítens que já formam parte da paisagem e da cultura – lifestyle  – carioca.

“O branding está ligado ao fenômeno denominado “os caprichos tecnológicos da tecnología”. Hoje, os dois conceitos da economia clássica, “valor de uso” e “valor de troca”, são complementados pelo terceiro conceito, o do “valor simbólico”. [5]

O interessante da Zerezes é construção da sua identidade – marca – em torno ao processo de trabalho, com materiais de baixo impacto ambiental e alto impacto social e sensorial. Ao igual que a marca paulista YesIam, Zerezes cria valor em design, a partir de uma consciência total dos elementos que intervém no processo, capitalizando-se no objeto de design e criando projetos paralelos que ajudam construir valor em torno a marca: projeto Feito Por Pessoas – série de 5 ensaios fotográficos, que mostra quem faz a Zerezes acontecer; projeto de crowdfunding na plataforma Catarse: Série Restus, uma nova linha de óculos de serragem desenvolvida a partir do reaproveitamento dos resíduos gerados na produção dos óculos, entre outros.

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“Em qualquer trabalho projetual tem um componente político, o trabalho está relacionado com o contexto social e motivado por certos interesses. não podemos esquivar esta condição. O design no-politico não existe.”[6]

Como parte de um movimento ainda maior, intui-se que Zerezes adere ao lowsumerism, uma crescente maneira de repensar a forma como consumimos e nos relacionamos com marcas e produtos. Em acreditar no produto que produzem,“para durar uma vida toda”, manifesta-se uma ideologia, um sistema de valores em relação ao design, os objetos e a sociedade que os recebe.

Lucas Gómez


Referências

[1] Duarte, Frederico. A Felicidade está à Venda? – PróximoFuturo/NextFuture.

[2] Projeto Draft.  http://projetodraft.com/prestigiada-por-seus-oculos-feitos-de-madeira-reciclada-zerezes-agora-mira-mais-alto/#sthash.0hDi36iO.dpuf

[3] Bonsiepe, Gui. Video, entrevista 6 outubro de 2011, na ocasião do lançamento de seu livro Design, Cultura e Sociedade, pela editora Blucher. Revista Ciano.

[4] A Felicidade está à Venda? de Frederico Duarte para PróximoFuturo/NextFuture

[5] Bonsiepe, Gui (2011) Design, Cultura e Sociedade. São Paulo: Blucher. p.58.

[6]Bonsiepe, Gui. Entrevista 06 outubro de 2011, na ocasião do lançamento de seu livro Design, Cultura e Sociedade, pela editora Blucher. Revista Ciano.


Websites consultados

http://projetodraft.com/prestigiada-por-seus-oculos-feitos-de-madeira-reciclada-zerezes-agora-mira-mais-alto/

http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2013/maio/oculos-zerezes-um-novo-olhar-na-reutilizacao-de

2 thoughts on “Fazer design, criar identidade”

  1. Assinar o Post.
    O post aponta para muitas direcções. Seria mais pertinente escolher uma e aprofundar a reflexão.
    Melhorar a escrita.
    Há que rever o post sob o ponto de vista da redação e corrigir alguns erros como
    “percebi que o Brasil” em vez de “percebe que o Brasil”; “Através” em vez de “A traves”,…
    O título necessita de ser continuado na Conclusão para que haja uma consequência do post.
    A bibliografia deverá seguir uma norma bibliográfica.
    Victor M Almeida
    /

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