A simbologia nos cartazes políticos de esquerda na década de 70: Portugal e Chile

O design gráfico tem no cartaz o suporte mais democrático de comunicação, que permite construir e selecionar símbolos e colocá-los numa superfície com o objetivo de transmitir uma ideia.

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Na década de 70 do século XX dá-se a Revolução do 25 de Abril de 1974, uma das revoluções políticas mais marcantes em Portugal. Nesse período dão-se mudanças profundas na sociedade, principalmente a nível cultural, político e social. Depois do 25 de Abril e devido a essas mudanças e ao aparecimento de inúmeros novos partidos houve uma procura de individualização e afirmação partidária, e um aumento na produção de cartazes políticos.

Por causa desse “boom” partidário há uma necessidade de criar uma certa identidade e distinção gráfica entre partidos. A existência de símbolos partidários nos cartazes é frequente e constitui um dos seus elementos mais comuns e predominantes.

No início dessa década no Chile tomava posse como presidente o líder de esquerda Salvador Allende, fundador do Partido Socialista. Nessa altura o governo utilizou o cartaz como meio pocobrederoso de transmissão de imagens e mensagens à população e como forma de incentivar reações do público. No entanto não era frequente a utilização de símbolos partidários nesses cartazes, tendo havido nessa altura muita nacionalização de empresas privadas o que levou a que se tenha estabelecido uma ligação forte entre a publicidade e a propaganda política nos cartazes da época.

O ícone mais comum na representação da revolução portuguesa de 1974 é o cravo, associado à ideia de revolução pacífica sem apropriações partidárias. A Revolução de Abril é mesmo conhecida como a Revolução dos Cravos até aos dias de hoje. Só há um partido que o incorpora na sua identidade, a UEDS – União da Esquerda para a Democracia Socialista, fundada em 1978 e que mais tarde, nas eleições legislativas de 1980 aparece em coligação com o PS e a ASDI. O cravo aparece dentro de uma estrela vermelha e uma roda dentada, ícones associados aos partidos de esquerda.

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O martelo e a foice, símbolos associados ao trabalho operário e ao trabalho no campo, respetivamente, são utilizados frequentemente nos cartazes políticos de partidos de esquerda, representativos de atividades que sustentam grande parte da população portuguesa. Esses símbolos são adotados pelos partidos de esquerda que se querem mostrar a favor dos interesses do povo trabalhador, inspirados também pelos mesmos símbolos utilizados na revolução comunista russa.captura-de-ecra-2016-10-13-as-00-15-05

Tanto no Chile como em Portugal as mãos e os punhos erguidos são uns dos elementos mais frequentes nos cartazes políticos, símbolos expressivos e representativos de luta pelos ideias e reivindicações sociais.

A representação do povo como elemento central nos cartazes era também comum aos dois países, incentivando um sentido de comunidade e igualdade social.

A cor tem também um papel simbólico crucial nos efeitos e reações que provocam no ser humano e na forma como acrescenta significado à comunicação visual, e mais especificamente, ao cartaz político.O vermelho como cor predominante na maioria dos cartazes políticos de esquerda era já um símbolo essencial associado ao comunismo.

“A cor vermelha apela para a ideia de excitação, impulsividade, grande vontade de vencer, competitividade, desejo de sucesso, riqueza, experiência, ação e iniciativa(…).”– André Jute, Graphic Design in the Computer Age: COLOUR for Professional Communicators, Batsford, 1993, pp. 8-11

Os vários elementos gráficos que fazem parte da constituição de um cartaz e de uma ideologia política têm um papel essencial na transmissão das mensagens certas ao público. Analisando a forma como todos os diferentes componentes se relacionam entre si é possível construir uma narrativa visual teórica que orienta a forma como a prática se desenvolve desde o momento da conceptualização até à produção e distribuição de elementos de comunicação.

Isabel Franco

One thought on “A simbologia nos cartazes políticos de esquerda na década de 70: Portugal e Chile”

  1. Relativamente à aula de Masterclass assistida no dia 04 de Outubro de 2016 pelos Professores José Bartolo e Mauricio Vico foi discutido em pormenor neste Post um dos temas mencionados: a simbologia e os vários elementos gráficos presentes no cartaz.

    Ambas as investigações centram-se na história do cartaz político, assim como a sua iconografia e estética durante dois governos distintos mas ambos de esquerda.
    Através destes dois contextos é possível concluir que, ainda que sejam bastante divergentes, tiveram uma abordagem de pesquisa diferente mas ainda assim elementos em comum: a simbologia presente.

    Na década de 70, Portugal e Chile estavam a passar por tempos revolucionários a nível cultural, político e social onde o cartaz teve um papel importante na comunicação com a sociedade envolvente. Foi nesta altura que os ícones começaram a surgir com maior impacto em ambos os países.

    Como foi referido por Isabel, “Tanto no Chile como em Portugal as mãos e os punhos erguidos são uns dos elementos mais frequentes nos cartazes políticos, símbolos expressivos e representativos de luta pelos ideias e reivindicações sociais.” podemos encontrar este simbolismo em ambos os contextos. É possível então referir tanto a cor vermelha. como as mãos e os punhos erguidos juntamente com o elemento do povo, como características presentes no cartaz em ambos os países. A citação de André Jude transcrita por Isabel, diz-nos a importância do simbolismo da cor vermelha e as reacções que provocam no ser humano, citação esta bastante pertinente na qual é possível sustentar a informação mencionada.

    Partindo desta crítica de Isabel Franco posso concluir que independentemente das divergências culturais e geográficas, o cartaz foi e continua a ser uma das maiores armas políticas e é através dos seus elementos gráficos que “é possível construir uma narrativa visual teórica” de acordo com o contexto em que está inserido. Houve uma preocupação em descrever as respectivas épocas para um melhor entendimento da parte do leitor. A análise feita tem um carácter informativo (a informação poderia estar mais bem hierarquizada) e pouco analítico, o uso das imagens foram bastante pertinentes e coerentes com o texto.
    Apesar de terem sido discutidos diversos assuntos sobre a importância do cartaz político em Portugal e no Chile, houve uma preocupação da parte de Isabel elaborar uma análise mais profunda relativamente aos elementos gráficos e o impacto que estes têm sobre o cartaz político.

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