A influência do design na sustentabilidade

No passado dia 14 de Novembro tivemos a oportunidade de ter como convidado na aula de Estudos Contemporâneos em Design o crítico e curador de design Frederico Duarte, que nos apresentou o tema “O Desafio Contemporâneo do Design Brasileiro”. Através dessa apresentação surgiram vários temas para exploração interessantes, um desses temas focou-se nas possibilidades do design enquanto disciplina que pode e deve ter em conta a sociedade em que se insere e como tudo o que criamos tem um impacto social, ambiental ou político.

Durante a conversa, Frederico Duarte apresentou-nos uma coleção do Victoria & Albert Museum, onde o próprio se encontra a desenvolver um doutoramento sobre design brasileiro contemporâneo através do programa Collaborative Doctoral Partnership entre o museu londrino e a Birkbeck College, University of London.

A “Rapid Response Collecting” do V&A Museum é uma vertente de coleção em que os objetos são coleccionados em resposta aos principais momentos da história que tocam o mundo do design e da produção [1]. Cada nova aquisição levanta uma questão diferente sobre globalização, cultura popular, mudança política e social, demografia, tecnologia, regulação ou legislação.

Um dos exemplos dos objetos que pertencem a essa coleção são umas calças vendidas pela loja Primark [2] entre 2013 e 2014, que foram adquiridas pelo museu pouco tempo depois de ter acontecido o colapso do Rana Plaza no Bangladesh [3], edifício onde era produzido vestuário para várias marcas, entre elas a Primark. Este objeto do quotidiano passa assim a representar uma das consequências da chamada fast fashion. Corinna Gardner, curadora da coleção afirma:

“By bringing these designed objects into the Museum we can explore contemporary issues and events that can seem remote or abstract.” [4]

Outros objetos presentes na coleção são, por exemplo, umas pestanas falsas da marca Eylure numa colecção com Katy Perry que levantam questões acerca do salário das mulheres na Ásia que fabricavam estas pestanas e como a fabricação globalizada pode conetar uma das mulheres mais famosas do mundo com as mulheres que vivem no limiar da pobreza no sudoeste asiático. Outro exemplo são os 5 pares de sapatos de vários tons de pele da coleção “The Nudes” desenhada por Christian Louboutin em 2013. Esta foi a primeira vez que uma casa de alta costura ajustou a sua definição do tom “mude”, normalmente associado a um só tipo de “cor de pele”, um tom pêssego/bege claro que representava o tom de pele caucasiana. Com esta coleção, Louboutin questiona esta perceção do tom de pele branca ser considerado o tom de pele “standard” e abrange assim um público maior e mais diversificado.

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Exposição em montra da coleção “The Nudes” de uma das lojas Christian Louboutin

Estes exemplos fazem-nos questionar a sustentabilidade da produção mundial e o seu impacto tanto em determinados segmentos da população como no próprio ambiente.

Em 2013 a marca brasileira Natura lançou um desafio a duas agências de design brasileiras, a Tátil design de ideias e a Questto|Nó, de criarem uma nova linha de produtos com 4 objetivos bem definidos: que fossem necessários menos recursos para a sua produção, que chegasse a um novo público de consumidores, que fosse mais barato do que a linha média da Natura e que tivesse uma mensagem de consumo consciente. Assim foi criada a linha Natura Sou.

“A embalagem de Natura Sou utiliza 70% menos plástico que uma embalagem convencional o que garante uma redução de  impacto em todo o seu ciclo de vida. Etapas de produção e logística foram consideravelmente reduzidas uma vez que a operação de fabricação e envasamento foi levada para dentro da Natura numa mesma linha de montagem. Há menos desperdício porque Sou  pode ser usado até a última  gota e ser descartado com grande compactação e pouco resíduo.” [5]

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Linha de produtos Natura Sou, criada em 2013 pela marca de venda direta Natura

Recentemente a Tesla Motors, Inc., uma empresa do sector automóvel e de armazenamento de energia dos Estados Unidos apresentou ao mundo uma linha de telhados solares com funcionalidades semelhantes às dos painéis solares, idênticas esteticamente a um telhado normal e com enorme durabilidade, produzidas em quartzo [6]. No entanto o maior problema nestes telhados está ainda no seu custo elevado, até porque necessitam de uma estrutura de suporte própria. Apesar de tudo é um investimento que poderá compensar a longo prazo e uma inovação no desenvolvimento de fontes de energia sustentáveis aplicadas num contexto individual.

Podemos concluir então que estamos perante duas situações distintas. Por um lado, temos o impacto negativo da produção e o consumo exacerbados, o fast fashion e a exploração de trabalhadores de fábricas em países em desenvolvimento. Não deveria ser necessário uma parte da população sofrer sem condições para que outros tenham roupas mais acessíveis e em enormes quantidades, assim como a moda não deveria ter um carácter discriminatório em relação aos diferentes tipo de cor de pele e etnias presentes mundialmente.

Por outro lado, temos exemplos de como o design e a produção podem ter um papel positivo na criação de soluções e na democratização de opções de consumo sustentáveis. Embora estejamos ainda muito longe de tornar a nossa existência sustentável, cada vez mais questionamos o impacto que temos e cada vez mais vão surgindo alternativas positivas que marcam a diferença e caminham nesse sentido que eventualmente diminuirá os fossos que existem entre a população mundial e o impacte da nossa produção no ambiente.

Isabel Franco


Referências

[1] Coleção Rapid Response Collecting do Victoria & Albert Museum. Disponível em: http://collections.vam.ac.uk/category/rapid-response-collecting/1879/

[2] Calças da Primark da coleção Rapid Response Collecting do Victoria & Albert Museum: http://collections.vam.ac.uk/item/O1278284/trousers-primark-stores-limited/

[3] Artigo sobre o colapso do Rana Plaza no Bangladesh: https://cleanclothes.org/safety/ranaplaza

[4] Citação disponível em: http://www.domusweb.it/en/news/2014/07/16/rapid_response_collecting.html

[5] Citação retirada de: http://www.questtono.com/project/natura-sou-2/?lang=pt

[6] Telhados Solares apresentados pela Tesla: https://www.bloomberg.com/news/articles/2016-10-31/no-one-saw-tesla-s-solar-roof-coming

One thought on “A influência do design na sustentabilidade”

  1. Gostaria bem mais que houvesse uma posição crítica da parte da autora do post. Lauren Cochrane no The Guardian afirma que “People with skin of any other colour – and, therefore, women from ethnic minorities – are implicitly unable to participate in this trend. If a pair of “nude” pumps blends with the colour of a white woman’s skin, the same pair will contrast against black skin. As with plasters, children’s dolls and – still – foundation, white skin remains the default option.”
    “Podemos concluir então que estamos perante duas situações distintas. Por um lado, temos o impacto negativo da produção e o consumo exacerbados, o fast fashion e a exploração de trabalhadores de fábricas em países em desenvolvimento. Não deveria ser necessário uma parte da população sofrer sem condições para que outros tenham roupas mais acessíveis e em enormes quantidades, assim como a moda não deveria ter um carácter discriminatório em relação aos diferentes tipo de cor de pele e etnias presentes mundialmente”: isto terá de ser dito sem um cunho moralista e demasiado generalista.
    Quando afirma que “por outro lado, temos exemplos de como o design e a produção podem ter um papel positivo na criação de soluções e na democratização de opções de consumo sustentáveis” terá de indicar os exemplos e esses deverão ser o foco do post.
    Melhorar o post tornando-o mais crítico e, por isso, mais interessante para a comunidade.

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