O cartaz político: dois contextos

No dia 4 de Outubro de 2016 fomos recebidos pelo Professor José Bártolo e pelo Professor Mauricio Vico, no qual nos falaram do poder do cartaz sobre a sociedade.

A Masterclass foi dividida em dois ensaios na qual teve início com o Professor José Bártolo: o cartaz político português; e em seguida com o Professor Mauricio Vico: El cartel político, social y cultural de la izquierda chilena en el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973.

Como estudar o cartaz político português – José Bártolo

Presidente do Conselho Científico e Professor Coordenador da ESAD – Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos

José Bártolo desenvolve actividade como professor, investigador e curador de design desde 1998. Doutorado em Ciências da Comunicação (2006), é Presidente do Conselho Científico e Professor Coordenador da ESAD – Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos e Professor Coordenador Convidado da ESAD.CR – Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha.


Este ensaio de José Bártolo visa introduzir ideias, conceitos, com o objectivo de localizar o tema de reflexão e análise sobre o cartaz político dentro do campo contemporâneo de pensamento ligado ao Design Gráfico.

“Why the activist poster is here to stay”, por Rick Poynor

Demonstrou alguns textos como referência, um artigo de Rick Poynor – escritor, crítico e jornalista especializado em design gráfico, tipografia e cultura visual – num contexto em que o cartaz voltava a assumir uma presença pública ligada a acções activistas, protestos e de reivindicação. Rick Poynor, de algum modo pretende identificar o porquê desta posição, politicamente privilegiada, que o cartaz tem relativamente a outros suportes.

Neste artigo há a capacidade de fazer uma rápida síntese sobre o modo como, sobretudo a partir das últimas quatro décadas da segunda metade do século XX, nós abordamos o cartaz sempre presente ligado a movimentos de cidadania, sejam eles: político ou partidário de reivindicação de determinados princípios.

Definição de termo politico como definição de um cartaz: Utopian image: Politics and Posters, por Paul Ricoeur

“O que estamos a pensar quando utilizamos o termo “política” para distinguir um género de cartaz?”

Política, em termo português, tem a dimensão de ser público, torna quase todo o fenómeno que não seja individual político.
Paul Ricoeur faz uma distinção entre a ideologia e utopia, assumindo que quer a produção e a acção ideológica são únicas. Ou seja, Ricoeur afirma que quer a ideologia, quer a utopia, operam as duas juntas.
José Bártolo assume que a definição de crítica e de utopia são semelhantes. Ou seja, a crítica tem sempre uma dimensão utópica.
Quando falamos de utopia aquilo que menos interessa é o caminho, mas sim a chegada, ou seja a utopia que o cartaz sugere, está sempre para lá da própria realidade política. É através do trabalho do designer no cartaz, que a utopia adquire uma certa forma de existência. É como se o estivesse a relacionar com a utopia, interpretando e conseguindo então captar a atenção do leitor.

“Utopia is constructed from the memory of things which one has not yet achieved.” – Paul Ricoeur

Resultado de imagem para I want you for U.S Army
 CARTAZ IDEOLÓGICO
I want you for U.S. Army : nearest recruiting station
Cartaz mostrando o Uncle Sam, na Primeira Guerra Mundial, ilustrado por James Flagg em 1917

 

Resultado de imagem para I want you for U.S Army bones
CARTAZ UTÓPICO
I want you for U.S. Army : nearest recruiting station

 

Uma manifestação contra poder, ou contra cultural, não é necessariamente de carácter utópica.

Segundo o Professor José, o cartaz tem um triplo valor, um valor documental (pode ser trabalhado como documento histórico), um valor narrativo e um valor estético.
Foi referido um excerto do discurso de Rui Rocha, no qual fala em três direcções do estudo do cartaz: a relação do cartaz com o espectador/passante, a relação do cartaz com a estrutura social e a relação com a linguagem do cartaz.
Partindo deste excerto, será que podemos privilegiar a forma como o cartaz opera num determinado formato? Esta adaptação de composição a determinados suportes, dão uma outra dimensão ao cartaz. Dependendo do público-alvo o formato do cartaz altera-se, actualmente o cartaz político apresenta grandes formatos geralmente juntos às estradas, enquanto que no principio do séc. XX muitos cartazes apresentavam formatos mais pequenos e em maior número, tornando-os de alguma forma mais pessoais pois o passante tinha um maior contacto sobre o manifesto. Actualmente podemos observar que o cartaz político é apresentado em formato outdoor, formato este onde a sua fixação é planificada e regulada, ou seja a sua disposição não é arbitrária mas sim colocada estrategicamente.
Ao contrário de um livro, revista ou de um jornal, o cartaz destina-se a ser lido e interpretado por muitos observadores em simultâneo, daí ser afixado. Por ser um meio de promoção/anunciação de curta leitura dirigida a um público-alvo vasto este terá então, de ter dimensões maiores que um panfleto e fixado em locais visíveis. Por ser um meio de curta duração sobre um suporte plano geralmente o cartaz é de papel, daí dizer que um cartaz tem um carácter efémero. Mas um cartaz nem sempre tem de se apresentar no seu formato convencional, nos dias de hoje este formato tem vindo a ganhar uma nova dimensão quando decide manifestar-se perante o formato convencional.

El cartel político, social y cultural de la izquierda chilena en el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973 – Mauricio Vico

Mauricio Vico é Doutorado em Design de Investigação pela Universidade de Barcelona.

 Para concluir a Masterclass, Mauricio Vico debateu o processo de investigação relacionado com a sua tese de doutoramento.

O seu trabalho centra-se na investigação sobre a história do cartaz político, assim como a sua iconografia e estética durante ao governo de Salvador Allende, no Chile.
Através desta investigação foi possível complementar a trajectória que as campanhas políticas de esquerda têm tido sobre a imagem e sobre os símbolos.
No entanto, muitos dos cartazes e trabalhos gráficos foram destruídos durante a ditadura, o que causou alguns obstáculos na pesquisa de Vico. Foi então recorrido o método de entrevistas.

Em 1973 terminou o mandato do Presidente Salvador Allende (de esquerda). Após o fim do mandato, militantes de grupos de esquerda começaram a sofrer a repressão exercida pelo novo governo. Ainda hoje Mauricio encontrou dificuldades em entrevistar pessoas daquela época, pois no mandato de Augusto Pinochet, responsável pelo assassinato de Allende, houve uma repressão aos opositores e aos esquerdistas nacionalistas, assim como todos os cartazes pertencentes a estes. Houve então uma preocupação da parte de Mauricio, em tornar as entrevistas em conversas informais, de maneira a contornar o sentimento de falta de liberdade de expressão, ainda existentes da parte dos entrevistados.
Ao contrário de José Bártolo, Mauricio Vico não teve acesso aos mesmos meios de investigação. A sua cultura e princípios históricos condicionaram o desenvolvimento e avanço deste meio de comunicação em questão, assim como a sua investigação. Independentemente dos contextos onde estão inseridos, ambos discutem e investigam um tema em comum utilizando diferentes abordagens: o cartaz.

Partindo destas duas análises é possível concluir que os meios de investigação e os seus contextos , ainda que sejam da mesma década, tiveram uma abordagem diferente mas ambas questionam a importância e a posição politicamente privilegiada, que o cartaz tem relativamente a outros suportes. O cartaz político é o primeiro meio de comunicação público e talvez seja dos mais poderosos. Conforme o contexto que este está inserido podemos obter diversas abordagens: nestes dois casos onde o cartaz é contextualizado em dois continentes diferentes sustentados pelas suas respectivas culturas e princípios.

_________________________
Mª Luísa Castro

One thought on “O cartaz político: dois contextos”

  1. O Post “O cartaz político: dois contextos”, escrito pela Maria Luísa Castro, apresenta claramente dois contextos demostrados pela apresentação dos professores José Bartolo e Mauricio Vico na Masterclass do dia 4 de Outubro de 2016. Um dos aspectos mais interessantes apontados pela Maria Luísa foi o do papel do cartaz como meio de comunicação privilegiada na política em relação a outros suportes e meios. Outro ponto interessante foi a questão do contexto, e como a produção de cartazes políticos em Portugal e no Chile têm abordagens diferentes conforme o contexto em que estão inserido.

    A contextualização política apresentada em relação ao exemplo do cartaz político chileno apresenta também algumas dificuldades expostas por Mauricio Vico na Masterclass em relação à perseguição política e à destruição de cartazes durante a pesquisa para a sua investigação e como isso afectou a forma como abordou as entrevistas.

    Em relação a aspectos técnicos do texto, o post está bem estruturado e traduz bem as ideias apresentadas na Masterclass sobre os cartazes políticos em Portugal e no Chile. As citações apresentadas de Rick Poynor e Paul Ricouer mencionadas por José Bartolo ajudam a complementar as ideias apresentadas pela Maria Luísa Castro, enriquecendo o texto.

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