Dimensões do design: conhecimento, crítica e prática

Lucas Gómez

Os Encontros de Design de Lisboa, organizados e promovidos pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa têm como mote, explorar os diferentes caminhos e territórios desenvolvidos pelas teorias e práticas do design contemporâneo. A edição 2016, propôs a reflexão em torno a identidade e complexidade. Neste contexto, as variantes de critical e speculative design, apresentam-se como uma dimensão essencial na manifestação do cruzamento entre teoria, sociedade e prática projetual.

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[Fig. 1]

O design, como disciplina projetual, intervém em muitas, quando não em todas, as relações que o ser humano estabelece com o mundo. Desde o final do século XIX, as práticas, métodos e objetos são projetados e mediados pelo design. Pode afirmar-se que o design ajudou o homem, tanto na conquista, melhoramento e conformação da realidade, quanto na destruição e empobrecimento do construído. Neste sentido, evidencia-se como os interesses de uma classe dominante, focada no capital, mercado económico e o poder político global, vêm intervindo no processo de construção de uma sociedade cada vez mais desigual e onde a crise, se manifesta nos diferentes acontecimentos sociais, económicos e ambientais. Uma distopia foi construída e o design, como também outras disciplinas, não ficou fora deste processo.“Designers, as creators and shapers of our social reality, are deeply involved in the operations and processes of habitualization in contemporary life. It follows that designers must also therefore take some responsibility for the consequences of these effects, whether the impact of a design’s contribution to the social sphere is to enrich and enhance human experience of life, or merely to make it more efficient” [1]

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[Fig. 2]

“Seremos todos críticos?” Teal Triggs

Desde uma perspectiva de criação projetual, o design é essencialmente crítico; ”the act of creating something by thinking is critical design.” Teal Triggs. Como prática reflexiva, a crítica em design é uma dimensão essencial para desenvolver e acentuar a sensibilidade nos processos de criação. O processo é uma imersão na complexidade de um problema, onde causas, contexto e especulações intervêm de forma dinâmica e determinante. “…uses design as a perspective, designed objects as evidence of larger systems, and designers as researchers.”

Como disciplina prática e de pesquisa, o critical design questiona e expõe problemas e práticas instituídas, procura abrir o debate à discussão, sem se deixar guiar pelos funcionalismos ou formalismos do affirmative design. O Critical Design atua no campo da especulação, questionando as dinâmicas e possibilidades futuras nos contextos sociais, culturais e económicos, promove a atitude positiva, embora provocativa e muitas venzes irónica. Anthony Dunne e Fiona Raby colocam uma interessante questão sobre a indefinição do critical design: “No. It’s not really a field that can be neatly defined. It’s more about values and an attitude, a way of looking at design and imagining its possibilities beyond the narrow definitions of what is presented through media and in the shops.”

Já, a pesquisadora e educadora Ramia Mazé propõe três maneiras diferentes de se aproximar do critical design: na primeira, coloca os designers refletindo criticamente e questionando a sua própria prática de design; a segunda abordagem é baseada numa  macro-perspectiva, repensando a disciplina de projeto como tal; e na terceira abordagem o discurso do design é direcionado para fenómenos sociais e políticos mais amplos. 

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[Fig.3]

Para a professora Teal Triggs, o valor do critical design, reside na possibilidade de criar pontes, aproximar realidades e perspectivas até ao momento impensadas. Uma prática crítica e politicamente engajada, permite abordar a complexidade para propor ideias, criar soluções e transformar realidades. Porém, um posicionamento crítico e auto-reflexivo sobre a disciplina, reconstrói e fortalece a prática, perante as novas formas e contextos criados pelo mundo contemporâneo e tecnológico. Sensibilidade, reflexão e práticas participativas, são elementos constitutivos para um design com a necessidade de pensar a sociedade e refletir sobre as dinâmicas e tensões criadas.

One way that we could think about criticality in design would be in relation to the individual practitioner and their practice—that it is part of their own effort to become more self-aware or reflexive about what they do and why they do it. This might be understood as a sort of internal questioning or positioning yourself within your prac-tice.” [2]

Speculative e critical design perante a multiplicidade

Os designers e pesquisadores brasileiros, Luiza Prado e Pedro Oliveira atuam desde uma perspectiva ontológica e epistemológica do design. Cada projeto do coletivo a-pare.de apresenta uma dimensão do design crítico e especulativo, muito mais cotidiana, próxima e pragmática em ralação aos acontecimentos do mundo lá fora. Definida por eles como, uma linguagem para a prática política do cotidiano, o foco é desenvolver pedagogias e métodos que entendam o design, em constante diálogo com as problemáticas de género, periferia, política, colonialismo, tecnologia e sociedade.”Speculative Design can only earn its “Critical” name once it leaves its own comfort zone and start looking beyond privilege, for real.” – Luiza Prado, 2014.

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[Fig. 4]

Para a-pare.de, o critical e speculative design é desenvolvido como uma ferramenta política e ideológica. Nas práticas pedagógicas, profissionais e académicas, que o coletivo propõe,  percebe-se a abertura para a discussão, o intercâmbio e a experimentação em design. Porém, com forte compromisso político em cada uma das abordagens. Tanto para a-pare.de, como para outros projetos, como o liderado pela designer María del Carmen Lamadrid ou Decolonising Designo agir político é ideológico e uma forma de explorar a realidade em crise, refletindo quase como um espelho, o mundo; e oferecendo de volta, uma outra realidade melhorada. Na análise da realidade –distopias–, às vezes oculta e desapercebida, a reflexão cria tensões que a evidenciam. O processo de design especulativo e crítico, possibilita o espaço necessário para desenvolver, coletivamente, ideias, explorar limites, possibilitar o diálogo e propor mudanças verdadeiras.

Conclusão

Da mesma forma, que a arte e outras disciplinas, vêm fazendo há muito tempo, o design passou a questionar-se sobre o fazer, a explorar o seus limites e a imaginar realidades futuras e melhores para a sociedade, A reflexão muda os enunciados. A crítica em design, é uma ferramenta política e ideológica fundamental, para criar consciência sobre os fenómenos que acontecem e que nos atravessam.

Porquê permanecer em um âmbito de design onde as especulações são simples “especulações”, porquê continuar a pensar futuros próximos e melhorados, quando o design pode atuar e solucionar problemas reais? Algumas perguntas não serão respondidas no imediato, mas às vezes, constroem caminhos, procuras e horizontes possíveis. “… it’s time to publicly discuss the means, effects and especially the quality of the critical design projects, not just to celebrate and retweet them. If that doesn’t happen, critical graphic design runs the risk of not being as substantial and meaningful as it could be. Or worse, it will become irrelevant to society.” – Francisco Laranjo, 2014.

 

Palavras-Chave

“critical design”; speculative design; “sociedade”.


Referências

[1] Buwert, Peter (2016). Operationalising the Means: Communication Design as Critical Practice. Modes of Criticismo 2, Critique of Method. p.26

[2] Introduction to Speculative Design Practice – Eutropia, a Case Study. 2ⁿd edição – Listopad . October, 2015. p. 389


Websites consultados

http://allpossiblefutures.net/

http://www.burtonnitta.co.uk/index.html

http://designobserver.com/feature/critical-graphic-design-critical-of-what/38416http://www.eyemagazine.com/review/article/after-dark-im-a-design-critic

http://www.dunneandraby.co.uk/

http://dvk.com.hr/interakcije/2015/05/12/introduction-to-speculative-design-practice-eutropia-a-case-study/

http://formsofinquiry.com/

http://www.iconeye.com/404/item/2628-arts-little-brother-%7C-icon-023-%7C-may-2005

View at Medium.com

http://modesofcriticism.org/

http://www.thesis.mlamadrid.com/?page_id=4


Imagens

[Fig. 1] Visualising 2014 – www.dummymag.com

[Fig. 2] Republic of Salivation – Michael Burton and Michiko Nitta. (2011)

[Fig. 3] A Crash Course for Designing in Times of Crisis. (2014)

[Fig. 4] Traditional design vs Speculative design. Discursive and Critical Design Practic. Mitrović, Ivica.  Introduction to Speculative Design Practice. p.9 (2015)

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