A importância do cartaz na crítica política

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Conferência “El cartel Politico en Chile entre 1970 y 2012” Mauricio Vico

Mauricio Vicio, esteve presente no Grande Auditório da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a fim de nos trazer uma reflexão sobre o cartaz politico no Chile, assim como “El Gobierno de Salvador Allende y los movimentos estudiantiles”. Seguiram-se duas masterclasses, dirigidas pelo conferencista Mauricio Vico e pelo Professor José Bártolo que decorreram na sala 4.11 e abordaram a história do cartaz político, a sua construção como objeto significativo no Design de Comunicação.
Mauricio Vico, é designer e tem vindo a desenvolver trabalho de investigação no departamento de Design da Universidade do Chile, onde se formou. Já lecionou em diversas universidades nacionais e internacionais e a sua reflexão sobre o cartaz político no Chile nas suas fases revolucionárias tem sido um assunto de relevância no seu estudo e percurso. (1)
Na conferência, Mauricio mostrou-nos como o cartaz tem sido tomado como objeto de confronto e de libertação de uma mensagem clara e objetiva, que ao longo do tempo se traduziu numa nova sociedade baseada em aspectos socialistas. Referiu também que os movimentos estudantis, inseridos no “Programa básico do Governo da UP”, foram de grande importância para que esta mudança acontecesse, levando a que os cartazes realizados promovessem os conteúdos daquele programa.
O cartaz ganhou uma autonomia de qualquer órgão social, político, que se traduzia como um tipo de censura, ganharam outra linguagem formal, modernidade tipográfica, outro uso de cores, saturadas e planas, uma composição de textos que se alinhavam à esquerda ou direita, criando a sua própria dinâmica, livre de imposições, que divergia do que havia sido feito até então na história do Cartaz do Chile.
A autoria dos cartazes deixaram de ter a mesma importância, dando-se preferência aos coletivos, onde havia a partilha de métodos de protesto, com “slogans” fortes e intencionais, representando o descontentamento e a crítica social. Estes cartazes foram responsáveis por grandes mudanças na história do Chile e parte integrante da sua evolução a partir da segunda metade do século XX.
Todos estes conteúdos foram falados e ilustrados com artistas, coletivos da época e seus respetivos cartazes, enquanto Vico os analisava e se dirigia ao público, incentivando que outras questões pudessem ser despoletaas e trazidas a debate.
José Bártolo, o cartaz político no contexto português
As Masterclasses, num primeiro momento foram conduzidas por José Bártolo (2), que nos contextualizou o cartaz político no panorama português, o cartaz que esteve presente em muitos movimentos e princípios ideológicos ao longo da história, que se define como um meio que o designer utiliza para a sua prática crítica, através dos seus elementos gráficos, e que o liga a uma causa.
Atualmente está a trabalhar na coleção de cartazes de Ernesto Sousa que têm uma grande aproximação à política, que Bartolo refere uma como uma investigação onde o tema e método se encontro bastante presentes. Na verdade o cartaz é uma poderosa forma de comunicar, ainda mais quando se trata de política e o designer encontra aqui a liberdade de levantar questões que vão além da mera ação informativa que o cartaz pode ter.
É realmente o suporte mais indicado pelo peso visual e poder de comunicação que tem alertando-nos para questões práticas que devem ser abordadas e pensadas. A força de um cartaz vai desde a forma ao conteúdo e de como a sua metodologia capta a atenção do espetador e lhe transmite alguma mensagem.
Estes cartazes nos dias de hoje são também usados em género de propaganda politica, para exaltar o candidato e persuadir o voto do eleito, com slogans e mensagens fortes, que traduzem ideologias ou utopias criadas por uma sociedade que anseia por algo mais. Estas mensagens curtas e com grande poder, são capazes de recolher o voto sem haver a necessidade de debater o seu conteúdo.

Mauricio Vico“El cartel político, social y cultural de la izquierda chilena en el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973”
No segundo momento, o Professor Mauricio Vico segue com a lógica de ideias do seu processo de investigação, mas com uma abordagem menos analítica sobre o cartaz político no Chile, referenciando os seus estudos que fazem parte da sua tese de doutoramento, que olham o cartaz político nas suas fases revolucionárias, explorando o tema “El cartel político, social y cultural de la izquierda chilena en el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973”.
O professor recolheu muita informação do arquivo de um dos seus mentores e a partir daí desenvolveu uma ficha que permitia analisar toda esta informação contida em catálogos, com a mesma metodologia. Analisou cerca de 130, onde estudava a sua psicologia, tipografia, temas relacionados com o Chile, temas políticos, sociais e culturais. Paralelamente a esta ficha, Mauricio Vico fez também uma série de entrevistas aos autores que se mostrarm fundamentais para completar este estudo.

Há uma semelhança histórica entre os cartazes políticos do Chile e de Portugal, revoluções socialistas associadas, pouco documentados e debatidos. Em Portugal, estes objetos de design são analisados genericamente por historiadores de arte, que não aprofundam questões que um historiador de design aborda quando analisa algum artefacto e no ponto de vista de José Bartolo, esta análise deverá ser feita com mais rigor e olhada como parte integrante da nossa história, da história do design no nosso país.
Esta ficha e as entrevistas que Mauricio Vico desenvolveu permitem uma análise mais profunda e rigorosa do cartaz político, pois contemplam vários aspetos que valorizam a perícia de um designer à de um historiador de arte.
Por fim esta reflexão que nos foi passada por estes dois professores, fez-nos refletir o design como uma forte arma para uma mudança politica e social. O designer tem em mãos um forte papel na sensibilização do espetador para vários assusntos e questões de extrema relevância no plano atual e desta forma apelar à consciência de cada um. Mudar o quê e como? Refletindo sobre questões que fazem parte da sociedade que vivemos.

Mónica Medeiros
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Palavras-Chave: Cartaz, Política, Divulgação, Critica Política, Design, Socialismo.

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NOTAS:
(1) http://ddd.uchilefau.cl/2010/11/23/mauricio-vico/
(2) https://fims.up.pt/reconstruir_cidades/ficheiros/conferencistas/curriculum_7.pdf

Bibliografia
Craven, D.; Eckmann, T.; Romo, T.; Stavans, I. (2006): Latinamerican posters. Public Aesthetics and Mass Politics, Santa Fe, Nuevo México, EE.UU., Russ Davidson/ Museum of New Mexico Press/University of New
VVAA. (2004): Cartel chileno, 1968-1973, Santiago, Chile, Ediciones B, 2008.

One thought on “A importância do cartaz na crítica política”

  1. É interessante dizer que o professor José Bartolo teve um grande acesso aos diversos cartazes políticos Portugueses, quando Mauricio Vico teve uma maior dificuldade na recolha dos mesmo, sendo hoje um dos poucos investigadores sobre o cartaz político Chileno. Esse tipo de investigação é de extrema importância para a história de um país em relação a sua cultura, arte e política, reforçando, como foi mencionado no texto, a importância dos designers e artistas, ainda mais quando há uma grande necessidade de reivindicação de direitos e de expressão política, seja de apoio ou repúdio ao governo ou a alguma situação ou instituição, devido ao reforço que os cartazes podem dar ao devido discurso, mas também, num ponto de vista histórico, os cartazes também servem como mais um tipo de registo das lutas em determinadas épocas, dificultando o sumiço de certas heranças, sejam elas políticas, culturais, sociais, boas ou más.

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