Visões e alcances do cartaz político

Nádia Gomes

O cartaz político é por vezes um assunto determinado conforme o contexto onde está inserido. Com o tempo tudo ou quase tudo muda e vão surgindo várias abordagens sobre um mesmo assunto. Em contexto Contemporâneo pode falar-se num cartaz hoje, que não se falava à alguns anos atrás, por motivos de censura em certos casos, pela falta de material de pesquisa ou simplesmente pela definição que o termo cartaz político tem vindo a ter.

Dois autores, duas perspetivas

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Cartaz da conferência de Maurício Vico, Cartel Político en Chile, seguido das Marterclasses, apresentadas por José Bártolo e Maurício Vico, Belas-Artes Lisboa, 2016.
Imagem disponível em: http://www.belasartes.ulisboa.pt/cartel-politico-en-chile-conferencia-de-mauricio-vico/

Temos portanto, as perspetivas de dois ensaístas sobre aquilo que é o cartaz político, onde a intenção é elaborar um pensamento crítico a partir das visões transmitidas pelos autores e relaciona-las com o alcance do cartaz político no Mundo Contemporâneo. No Chile, por exemplo, sobre o difícil, mas forte e sustentado processo de investigação de Maurício Vico (Diretor do Departamento de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Chile), existe uma abordagem ao governo esquerdista de Salvador Allende e os movimentos estudantis, onde nos apercebemos das fragilidades do Design e do alcance social do cartaz político no Chile, na década de 70 mais concretamente entre 1970 e 1973. Uma época de medo e sofisticação naquilo que eram as pesquisas sobre política e onde os Estados Unidos sufocavam gradualmente a economia Chilena. É curioso, pois na altura da sua tese [1] não haviam grandes meios. Foi com base em inúmeras entrevistas, por si concebidas, a várias figuras artísticas que avançou. Estas entrevistas chamaram-me a atenção, por serem tensas, porque não se queria falar de ditadura militar (por aquilo que tinham vivido no decorrer dela), nem referir de que partido político eram, apenas frisavam a sua admiração por Salvador Allende, o que já era bom. Salvador Allende era uma força imperialista e interessava-se realmente pelo país. Motivava de certa forma os que estudavam Design e a política socialista que criou foi uma mais-valia para o pensamento dos mesmos. Vico conseguiu analisar austeramente um arquivo extenso de cartazes político Chilenos. Deixo um que me ficou na memória “Muerte Al Latifundio”, dado o seu contexto. É possível com toda esta severidade de conteúdos, articular um trabalho de pesquisa sobre posters, ditadura, governo, assuntos sociais, políticos e culturais daquela época, no Chile, porque tudo se relaciona. Fazendo uma reflexão sobre o alcance estético que este assunto alcançou com o passar do tempo, é olhar para todas as regras e práticas do design, criando e tendo em conta um pensamento crítico, dentro de um contexto e pensamento político, nunca esquecendo o meio. O meio é o fator principal, para se criar história nestes cartazes, muito mais do que o fator gráfico.

latifundio

Produzido por estudantes Chilenos, Muerte Al Latifundio, Fevereiro de 1970. Cartaz nº001 que compõe a ficha técnica de Maurício Vico a mais de 100 cartazes. Doado à Universidade Católica do Chile.
Imagem disponível em: http://www.oberlin.edu/faculty/svolk/293f04syllabusMain.htm

Em Portugal, temos a perspetiva de José Bártolo (Presidente do Conselho Científico e Professor Coordenador da ESAD – Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos), um autor que investiga projetos e estudos curatoriais a nível do cartaz político português. A partir do seu estudo, é possível descobrir referências reunidas dentro do campo contemporâneo do design gráfico, que caracterizam o tema do cartaz político. Exemplos como Paul Ricoeur e Roland Barthes, que me confrontaram com complexas mas interessantes definições e ensaios sobre aquilo que é o cartaz. É possível avançar e recuar na linha de tempo, porém nunca esquecendo aquilo que é a força de um cartaz, neste contexto, obedecendo à palavra meio, política, ideologia, utopia, crítica, comunicação e mensagem. Em complemento a este pensamento, aproveito para citar uma frase de um ensaio de Roland Barthes, de 1980 [2], que me deixa sempre a pensar: “A verdadeira crítica das instituições e das linguagens consiste em não “julga-las”, mas em distingui-las, separá-las e desdobrá-las.”

Com base nas pesquisas anteriores, foi possível reunir pistas sobre o cartaz político em Portugal. Para se trabalhar o cartaz político português tem de se pensar na sua especificidade como meio, e numa tripla possibilidade de análise aquando da sua criação, isto é a relação com o passante, a estrutura social em causa e a sua preponderante linguagem. No entanto, é fácil colocar várias questões em relação aquilo que era o alcance do cartaz político português e aquilo que hoje é o alcance do mesmo. Porquê? Porque existem dúvidas quanto à capacidade do cartaz português hoje conseguir produzir um cartaz político com impacto. Cada vez mais, em relação ao passado o cartaz político tende a estagnar, são poucos aqueles que queremos recordar ou colocar em arquivo. O mesmo não acontece com o cartaz politico português de à uns bons anos atrás, mais propriamente referindo-me à década de 70, como por exemplo os cartazes icónicos do Movimento das Forças Armadas, ou mesmo das eleições nessa época. Estávamos perante formatos que “tocavam” de certa maneira o passante, e se relacionavam com ele fosse ou não pela oposição. A estrutura social em causa bem como a linguagem naquela época conduziram a este tipo de cartazes portugueses com uma estética icónica inconfundível. Hoje já não é assim. Está tudo muito igualitário, estável, e no sentido estético não parece ser muito criativo, dizia antes que se tenta criar neste caso um cartaz apelativo no sentido de propaganda, com a figura política a sorrir, e a frase típica a seguir. A nossa cultura contemporânea significa muito mais do que esta política de cartaz formatado, e assumido daqui para a frente. Acabamos sempre por recuar ao passado do cartaz político, para tentar perceber o seu presente.

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Unidade MDP/CDE, explorava a aliança entre o  povo e o MFA, Eleições 1975.
Imagem disponível em: http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/recorde-os-cartazes-das-eleicoes-de-1975=f817215

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Cartaz do Movimento das Forças Armadas, 1975.
Imagem disponível em: https://ephemerajpp.com/2016/03/17/movimento-das-forcas-armadas-cartazes/

Alcances e divergências

Sob o meu ponto de vista, estamos perante uma diferenciação sobre aquilo que é o cartaz político, no que toca à investigação em Design. Uma investigação que tem características específicas, uma vez que estamos a falar de dois continentes diferentes, e portanto desenvolvimentos e contextos desiguais. Atualmente, no caso do cartaz em Portugal, os historiadores de arte encontram um ponto de interesse naquilo que é o alcance político, social e cultural do cartaz produzido, em relação à narrativa por de trás dos cartazes políticos em Portugal. Algo que para um historiador de Design pode ser muito incompleto. Uma análise gráfica que não pode ser substituída por outro tipo de análise científica, mas devia ter um pensamento e uma raiz política que se tem vindo a perder. Já no caso do cartaz no Chile, está tudo muito vinculado a questões estéticas e políticas, ligadas ao pensamento do designer. Novamente, e nisto fazendo uma comparação, pelo passado e pela carga política que o Chile teve. No cartaz político Chileno é como se existisse um campo de invenção, que pode ser comunicado em conversa com os investigadores/produtores e que por vezes permite construir novas referências, não proveniente de pesquisas, mas de conversas e pensamentos. No Chile como os recursos/documentos eram mais escassos, a palavra oral foi e ainda é fundamental para obter fontes de pesquisa. Já em Portugal existem inúmeras fontes, opiniões e talvez demasiada informação (que não digo ser má ou boa), mas são ascendências no trabalho daquele que pesquisa e ou produz. Para concluir, no que diz respeito ao alcance social do cartaz político, cada investigação diverge para diferentes campos, isto porque se inserem em contextos dissemelhantes. Assim, nestes campos, os cartazes políticos produzidos ou analisados serão sempre divergentes. Refiro mais uma vez, são continentes distintos sustentados por conceitos diferentes, algo que resulta em cartazes políticos provenientes de culturas inigualáveis. Como dizia José Marmeleira: “Os formatos, os estilos e os objectivos das imagens expostas são diversos. Umas fazem o culto da personalidade, outras servem a campanha eleitoral clássica ou a simples propaganda política. Todas, porém, permitem um reencontro do visitante com o passado e o presente da vida política.” [3]. Estudar o passado destes cartazes políticos é preparar o futuro dos mesmos.

Nádia Gomes


Palavras-chave: Cartaz Politico; Chile; Portugal; Alcance Social; Contexto Contemporâneo;

Bibliografia

[1] Vico, M. El cartel politico, social y cultural de la izquierda Chilena bajo el Gobierno de la Unidad Popular: 1970-1973. (Tese de doutoramento). Universidade do Chile.

[2] Barthes, R (1981), Camera Lucida, New York: Hill and Wang.

[3] https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-cartaz-politico-ainda-e-uma-arma-234402

One thought on “Visões e alcances do cartaz político”

  1. Após a leitura da critica da Nádia Gomes, apercebi-me das convergências de pensamento entre a sua opinião acerca das masterclasses, e a minha na grande maioria dos pontos refletidos. Desta forma e a meu ver, os assuntos abordados são de grande pertinência.
    Em relação à frase transcrita de Roland Barthes, “A verdadeira crítica das instituições e das linguagens consiste em não “julga-las”, mas em distingui-las, separá-las e desdobrá-las”, de 1980, penso que foi extremamente bem escolhida e que se adapta muitíssimo bem ao contexto, uma vez que reflete exatamente a mentalidade aberta e necessária a um processo de investigação. Só “esmiuçando” os alicerces dessas mesmas instituições e linguagens, é possível ir mais além no entendimento e em especial, ir mais além nos nossos próprios projetos sejam eles de que tipo for.
    É também referido na crítica, o facto do cartaz politico atual estar cada vez mais virado para uma politica de propaganda em que o modo de intervenção não é mais como antes, nomeadamente na década de 70 devido à revolução dos cravos e tudo o que girou à sua volta. Sem dúvida que o contexto atual é outro, no entanto e apesar de já não vivermos uma ditadura, continuamos a poder queixar-nos de muitas coisas que estão mal e gostaríamos de ver resolvidas. Porque é que não atuamos de forma semelhantes à de 40 anos atrás? Como referi na minha critica, o povo parece ter perdido voz ativa e isso tem vindo a refletir-se até nos cartazes políticos com mensagens pouco fortes ou na sua quase inexistência. Nos dias de hoje qualquer cartaz politico (salvo exceções) parece ter sido pura e simplesmente encomendado e que por essa razão (quase) nunca contém critica politica. Foi ainda referida outra citação, agora de José Marmeleira, muito pertinente e que sustenta a reflexão acima: “Os formatos, os estilos e os objectivos das imagens expostas são diversos. Umas fazem o culto da personalidade, outras servem a campanha eleitoral clássica ou a simples propaganda política. Todas, porém, permitem um reencontro do visitante com o passado e o presente da vida política.” A autora da crítica conclui com uma frase sua acerca da qual todos devemos estar cientes: “Estudar o passado destes cartazes políticos é preparar o futuro dos mesmos.”
    Durante todo o texto é notória a preocupação com o uso de uma linguagem cuidada e ao mesmo tempo de fácil entendimento e com o uso dos termos corretos; com uma formatação rigorosa tendo em conta o documento solicitado, nomeadamente com a divisão em partes (introdução, reflexão sobre os temas conforme a ordem de importância apresentada no cartaz – primeiro Vico e depois Bártolo – e conclusão relacionando os dois ensaístas), o uso do sublinhado para criar destaques, o uso de diferentes tamanho de letra e por fim os extras, como as palavras-chave e a bibliogafia que enriquecem o comentário . Nada foi deixado ao acaso. Quanto às citações, para além de adequadas como já referi, todas elas estão corretas e vão ao encontro do que foram as masterclasses.

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