Cartaz Político e a sua nova dinâmica

Os cartaz políticos espelham ideologias, manifestações, indignações e apoios a causas. É um objeto contextual, refletindo a sua época, acabando por ter em paralelo uma carga documental. Pretendo abordar o cartaz politico actual e a forma como é difundido em massa por via digital.

Na conferência e masterclass, Mauricio Vito e José Bartolo, abordaram variados temas em volta do cartaz político. Maurício Vito abordou temas como o processo da sua investigação e arquivo de cartazes políticos, sociais e culturais da esquerda Chilena. José Bártolo abordou o cartaz político português, porem incidiu a sua apresentação nos conceitos da base da criação de um cartaz político. Explica que o cartaz têm dois aspetos, o politico, e o social. Com isto querendo explicar que os cartazes políticos também servem como reivindicação social e forma de manifestação – cidadania. Bártolo, explica que o conceito de um cartaz tem várias dimensões: a sua dimensão ideológicas: o seu valor documental, narrativo e estético; a sua relação com a estrutura social e linguagem usada; a sua dimensão semiótica, de “pensar o cartaz”, a retórica da imagem; se faz uso de uma mensagem perceptiva, cultural, linguistica ou irónica; e a sua relação simbólica, paradigmática e sintagmática, com intuito de criar uma reação. Tendo em conta as dimensões e conceitos, por detrás do cartaz politico/social, acho interessante abordar o tema sob o ponto de vista actual.  Mauricio Vito referiu na conferência que actualmente os cartazes políticos têm outras dinâmicas, são divulgados pelos medias sociais e deixaram de ser autorais para serem de coletivos. Os media sociais levam a que cartazes ganhem grandes dimensões. A era digital veio proporcionar um boom para as manifestações políticas e sociais. Acho o assunto pertinente, tendo em conta que estamos no mestrado de Design de Comunicação e Novos Media.

O cartaz político, em suporte de papel, ganhou outras materializações e passa a ter um suporte digital, com a evolução dos media e das redes sociais. Há falta de formação política e cívica, reparamos que, de certo modo, há uma certa indiferença ou banalidade nas reivindicações sociais e políticas. Por outro lado, com as redes sociais observamos que manifestações públicas e física, passam a ser uma manifestação virtual, muitas vezes a uma escala global onde todos nós podemos participar. Gostaria de abordar três exemplos de reivindicações sociais e políticas, que se traduzem de certo modo em cartazes políticos – político e cívico, os dois sentidos que José Bartolo dá à expressão.

Interessou-me abordar o exemplo dos hashtag #blacklivesmatter, #prayfororlando ou #jesuischarlie.  Ao procurarmos por esses hashtag/“slogans”, numa rede social, podemos dizer que temos uma “coleção” quase infinita de cartazes políticos ou de indignação social, onde todos se podem manifestar, expressão, e documentar virtualmente o impacto social de um acontecimento. Percebemos que o site http://art.blacklivesmatter.com/blackfuturesmonth/, reflete a nova dinâmica dos cartazes políticos e acaba por funcionar como um arquivo de “cartazes politicos digitais” do #blacklivesmatter, com um coletivo de cartazes e digital art.

cartazhttp://art.blacklivesmatter.com/blackfuturesmonth/

Sinto que, o “cartaz político” em cima, também reflete os conceitos e dimensões que José Bártolo referiu na apresentação, aplicados a posters atuais.

Gostaria ainda de abordar o cartaz politico portugês. Neste caso direcionado à política e a causas sociais, onde as redes sociais, mais uma, vez acabam por ter um grande impacto na reação que cartazes/outdoor. No inicio do ano 2016 o BE decidiu criar um cartaz político com o intuito de celebrar a aprovação da adoção por casais homossexuais e a dimensão que o cartaz ganhou, foi no mínimo caricata. Em Portugal, um pais maioritariamente católico, seria de esperar que o uso da imagem “Coração de Jesus” num assunto como a adoção homossexual, fosse ter reações interessantíssimas. Aqui, mais uma vez entra os media e a internet, que resultou na replicação de inúmeros cartazes irónicos sobre o assunto. O BE acabou por esclarecer que “Não se trata de um cartaz, mas da forma de, nas redes sociais, com recurso ao humor, chamar a atenção para a conquista da igualdade entre todas as famílias”. Acabou por ser uma jogada interessante, com o uso do cartaz político do BE. Um pouco antes, durante as legislativas de 2015, também acabou por existir um “fenómeno” nas redes sociais, com um site que gerava cartazes (http://geradordecartazes.estapafurdio.net) onde deixava ao critério do utilizador o slogan e a imagem do cartaz, desde figuras políticas nacionais a internacionais e figuras religiosas, com o intuito de em seguida partilhar nas redes sociais .

Com isto, queria fazer uma alusão a cartazes políticos atuais e a sua nova dinâmica. A forma como se viralizam nas redes sociais. Seja de cariz politico, ou reivindicação social e forma de manifestação, os media vieram trazer uma nova utilização e divulgação do cartaz político e a sua documentação pela internet. Na minha opinião, nem sempre têm a melhor utilização, acabando por vezes a banalizar assuntos, mas de modo geral vieram globalizar/ divulgar em massa problemas sociais e, de certo modo, simplificar a forma como todos nós nos podemos manifestar por uma causa.

Leonardo Serralheiro

2 thoughts on “Cartaz Político e a sua nova dinâmica”

  1. Esta análise, da evolução do cartaz afixado para o cartaz ‘postado’, é na minha opinião a abordagem a um dos tópicos mais interessantes levantados na masterclass. É também bastante pertinente na interligação de duas questões. Em primeiro lugar, no papel dos novos media, mais especificamente da Internet, enquanto espaço para a propaganda (nos murais, agora virtuais) e o poder do mediatismo. Em segundo, na posição dos jovens de hoje frente a uma forma de fazer política que se afasta dos moldes ‘tradicionais’.

    A abordagem dos assuntos com uma estrutura e linguagem claras, aliada aos exemplos práticos, permitem um entendimento fácil do tema e da exposição feita. Para além dos coletivos referidos na masterclass achei também interessante o caso das propagandas personalizáveis.

    Pessoalmente fiquei com vontade de aprofundar a percepção da ‘banalidade’ a que te referes no último parágrafo e de compilar autores desta nova forma de propaganda.

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    1. A escolha de tema é deveras pertinente, concordo com a escolha devido à natureza do mestrado (Design de Comunicação e Novos Media), é bem colocado.
      A abordagem do tema, vista dos prismas sociais e políticos foi feito de maneira clara e bem estruturada, penso que é bastante pertinente e realista, especialmente no que toca à ligação das hashtags e do envolvimento dos joven e o seu interesse no cartaz político.
      O ponto de vista da aproximação do público ao cartaz social e vida política foi especialmente pertinente e bem formulado, com a ajuda do exemplo da geração de cartazes e da maneira que liga às reações e envolvimento do público geral.

      Concordo também com o Rui Pedro, onde o tema da banalização dos temas seria interessante de ser discutido.

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