O Arquivo e a Coleção como metodologia no processo em Design Gráfico

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Num período em que as bases intelectuais e teóricas do Design enquanto disciplina estão a ser postas à prova, poderão o arquivo e a coleção ser material de investigação para fortalecer estes mesmos alicerces da disciplina?

Maurício Vico foi dos únicos a criar um arquivo da evolução do cartaz político no Chile, um país marcado pela ditadura, violência e opressão. É possível reconhecer isto com a simples procura no Google – “El Cartel Político en Chile” – e reparar que a maioria dos artigos e informação que existem disponíveis são assinados por ele. Mas o que distingue o seu trabalho do de um colecionador?

Mais do que a pertinência do conteúdo e do cartaz político em si (que é bastante óbvia), é extraordinário atender ao esforço da recolha e posterior análise de um vasto número de cartazes que poderão, neste caso, ser considerados como dados. Maurício Vico preocupou-se em salvaguardar património cultural do Chile, fez com que este conhecimento em forma gráfica não se torna-se efémero acabando mesmo por desaparecer. Neste processo está implícito um enorme conhecimento da história cultural, social e política do Chile por parte de Maurício, é então possível afirmar que nesta metodologia de trabalho em design gráfico começa com a investigação de referências sobre códigos, linguagens e implicações éticas e socioculturais, assim como estudo de acontecimentos históricos e ações na área da comunicação. Maurício categorizou os cartazes que foi recolhendo através de uma ficha técnica com o seu autor, ano de produção, técnica de impressão… muitas vezes não contendo nenhuma destas informações à priori, tendo portanto de fazer uma analise e tentar descobrir em que período de tempo este se inseria melhor pelo seu conteúdo narrativo em relação ao que se passava social e politicamente, ou associar a linguagem gráfica a um determinado autor, por exemplo. É neste momento que o conjunto de cartazes de Maurício Vico deixa de ser uma coleção para passar a ser um arquivo e estes cartazes, além de valor narrativo e estético, passaram a ter ainda valor documental. Foi esta recolha que forneceu material e conteúdo e nos permitiu assistir à conferência e às masterclasses. Poderá até afirmar-se que caso Vico não o tivesse feito poderiam não haver registos do cartaz político no Chile ou, certamente, não haveria tanto conteúdo quanto ele conseguiu recolher.

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O professor José Bártolo avançou um pouco com este tema no mas agora no panorama nacional. Distinguiu a diferença entre coleção que têm apenas o objetivo de se ir enriquecendo e arquivo que constitui um suporte de conhecimento. E adiantou ainda que na verdade, é possível que de coleções possam surgir arquivos como aconteceu com a de Francisco Madeira Luís, o colecionador que doou parte das suas coleções à Universidade de Aveiro. A doação foi efetuada em 2001 e abrange peças de vidro, cerâmica, cerca de 40.000 cartazes. A sua coleção faz agora parte de um arquivo pois o seu conteúdo está disponível ao público, a alunos que a podem explorar. Tal como José Bártolo frisou o ensino e as instituições académicas são um dos contextos onde os arquivos poderão ser mais valorizados pois fornece-se aos alunos e professores matérias de estudo que providenciam a exploração teórica, prática e histórica daquilo que foi o design e, a investigação e criação daquilo que poderá ser.

Uma forma diferente de arquivo em contexto nacional foi “A exposição Ensaio para um Arquivo” uma exposição-arquivo a qual tive a oportunidade de visitar o ano passado, no Mude (Museu do Design e da Moda). Apresentava-se documentação de design português que são recursos para a investigação histórica do design em Portugal. A exposição continha originais de catálogos, publicações importantes e todas as fichas com as peças que da 1ª e 2ª Exposição de Design Português, em 1971 e 1973.

Para concluir, decidi escrever este post não sobre o cartaz em si, ou o conteúdo do cartaz político mas sim na metodologia de investigação que os dois professores Maurício Vico e José Bártolo apresentaram implicitamente no seu trabalho, no processo e investigação em design gráfico. Penso que são evidentes as formas como o arquivo pode ser um método de investigação e mesmo motor de produção em Design Gráfico: no ensino enquanto base de uma instituição e pedagogia; na perseverança do passado e da história do Design; na formulação de alicerces da disciplina em si enquanto método de afirmar o design como parte integrante de cultura. Neste contexto, é pertinente repensar meios e técnicas de recolha e análise de dados destacados pelas ciências sociais e questionar se estes poderão ser adaptados ao Design Gráfico.  

Para quem tiver maior interesse em perceber como vão sendo utilizados os arquivos e as coleções a nível internacional. Fica aqui uma boa plataforma para explorar!

http://blogs.reading.ac.uk/typographycollections/

One thought on “O Arquivo e a Coleção como metodologia no processo em Design Gráfico”

  1. Acho bastante interessante a forma como a Inês escolhe o rumo do seu trabalho. Ao invés de escolher um caminho mais óbvio (bastante válido também), o caminho da analise do cartaz político em si, a Inês centrou-se no arquivo e na colecção para construir o seu Post. O que na minha opinião faz todo o sentido,
    todo o trabalho que está por de trás, a organização, a mais valia que esses arquivos e colecções nos trazem a nós e a todos os que tenham interesse.
    O Post começa com uma questão que a Inês nos faz: “Num período em que as bases intelectuais e teóricas do Design enquanto disciplina estão a ser postas à prova, poderão o arquivo e a colecção ser material de investigação para fortalecer estes mesmos alicerces da disciplina?” – Na minha opinião, os arquivos e as colecções são bases que estão ao nosso dispor (algumas vezes) e que obviamente fortalecem a nossa aprendizagem e a nossa pesquisa. Embora perceba a posição da Inês neste assunto, não estou inteiramente convencida de que o arquivo ou a colecção possam fazer uma diferença tão grande neste assunto, até porque os arquivos e colecções já existem há bastante tempo, claro que têm vindo a crescer cada vez mais, mas será que podem afectar “as bases intelectuais e teóricas do Design”?
    Quanto à continuidade do Post, acho que transmite bem as ideias e nos dá as principais diferenças entre um arquivo e uma colecção.
    Está escrito numa linguagem acessível e ligeiramente formal, que acho que é o que se pretende neste tipo de post’s. A formatação também me parece correcta, falta apenas o nome da autora e talvez uma pequena legenda nas imagens colocadas.
    Para terminar, a Inês coloca um link que dá acesso a vários arquivos de uma universidade no Reino Unido, gostei dessa forma de terminar o post, dando mais informação para o leitor explorar e perceber ainda melhor de todo o assunto que foi falado.

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