Propaganda ou Cartaz Político

Rita Rodrigues

O cartaz político tal como o nome indica, algo de cariz público, foi em tempos uma das formas mais marcantes de propaganda, quer seja para divulgar crenças religiosas, artigos, partidos políticos, ou até mesmo para alistar jovens nas forças armadas. Estes cartazes demonstram um poder de persuasão muito forte pois as suas ilustrações, o seu texto e toda a configuração tinham um poder visual e emocional muito influente. No entanto, essa época (Por volta da segunda metade do século XX) em que a predominante forma de comunicação era o poster, este foi perdendo força à medida que as pessoas começaram a ver televisão e a receber informações através de outros meios de comunicação. O século XX ajudou no salto para a evolução dos Media.
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James Montgomery Flag, I Want You for the U.S. Army, 1917

Cartel Chileno Mauricio Vico

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Tese de doutoramento de Mauricio Vico no Chile
Desde sempre que há diferenças entre países em termos de evolução dos Media, tecnologias e meios de informação e isso é claro com o testemunho do investigador Mauricio Vico, que na época de 1970 realizava a sua tese de doutoramento no Chile, quando se deparou com falta de meios de pesquisa e escassez de informação acerca do cartaz político, não tendo assim bases nem suportes teóricos suficientes para sustentar uma crítica válida. Teve então de ser ele mesmo a reunir as informações, uma vez que no Chile não havia grande interesse/investimento na investigação, nomeadamente na área das artes. Debruçou-se sobre um único cartaz realizado por alunos e doado à universidade do Chile onde M252315.jpgaurício Vico estudava. Assim, adoptou metodologias específicas adequadas à análise do poster relativamente à sua estética, à forma de impressão, etc. Teve acesso a um arquivo importante de um dos seus professores, o que por si é um óptimo suporte documental, tal como foi mencionado por José Bártolo, tendo um grande número de materiais, conteúdos, associação de outros elementos e uma excelente base de conhecimento toda ela devidamente organizada.
Mauricio Vico conseguiu assim concluir a sua tese de doutoramento com todas as informações necessárias, utilizando tudo aquilo que tinha à sua volta e mesmo o que não tinha, chegando mesmo a realizar entrevistas a artistas de modo a obter testemunhos que lhe pudessem garantir o suporte para realizar uma crítica assertiva acerca do cartaz político. Isto significa que analisar um objecto artístico com um cariz tão estético, tão semióti
co, tão utópico, deve ser algo feito com as melhores bases de conhecimento necessárias.
Podemos assim perceber que o design é uma disciplina que requer conhecimento, que é capaz de “mover montanhas” e de comunicar o que a voz não consegue, mas mesmo assim não é visto como uma disciplina que como tantas outras é essencial para o equilíbrio e desenvolvimento do planeta. Deve por isso ser estudada e compreendida de modo a ser aplicada a mais contextos e mais projectos como na política, onde essa disciplina não existe sequer nem é vista como algo que pode ajudar, apesar de ser talvez a disciplina que possui os humanos com mais capacidade de soluções eficazes, não em questões de produto final mas sim em questões projectuais e de concepção de ideias.

O cartaz político ainda é uma arma?

Mário Moura, crítico de design e autor do blog ressabiator.wordpress.com, afirma que “têm sido muito raros os cartazes políticos dos últimos anos que dão vontade de pendurar em casa. A maioria, mesmo os de partidos com ideologias opostas, acaba por ser muito parecida”. Os cartazes contemporâneos não têm tanta riqueza gráfica, são todos semelhantes nas suas composições e todos provocam as mesmas sensações na população, ao invés dos cartazes no seu auge, como por exemplo, os que foram produzidos na época do 25 de Abril.
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J. Howard Miller’s, “We Can Do it”, 1943
Como refere Rick Poyner, no Design Observer,  apesar das previsões regulares de sua morte iminente, o cartaz comprometido mostra todos os indícios de viver para lutar, isto porque apesar de, em termos de comunicação social, os cartazes já não serem produzidos em massa direccionados para a população, hoje esses mesmos cartazes são mais utilizados pela população que se quer dirigir normalmente a partidos políticos ou em determinados manifestos onde a melhor forma de comunicação, afirmação e inspiração dessas pessoas é através dos seus cartazes do it yourself  ou “DIY”, acabando por serem vistos quase como uma marginalidade. Neste sentido, os posters não são algo feito só por designers, é algo que qualquer pessoa pode produzir se sentir necessidade de o fazer. Podemos então afirmar que o cartaz político ainda é uma arma utilizada como forma de expressão.
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Rio de Janeiro (Foto: Rodrigo Gorosito/G1)
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Avenida Paulista, São Paulo (Foto: Caio Kenji/G1)
Podemos assim concluir que o cartaz político tem um enorme valor documental, narrativo e estético. Documental devido à historicidade por detrás de cada cartaz e à riqueza gráfica que determinados cartazes podem demonstrar. Narrativo e estético pela relação do cartaz com a pessoa que o vê, ou seja, a linguagem que o cartaz transmite.

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E eu, onde me posiciono enquanto designer?

Em conclusão posso referir que a nível pessoal e tal como o testemunho, acima abordado, de Maurício Vico, que teve como interesse para a sua investigação o cartaz político, a sua análise e a comunicação em si nele traduzida, o meu grande interesse para investigação no futuro, ainda que não com todas as certezas, será provavelmente a área do Design de Comunicação, não como disciplina mas sim, quem sabe, na forma como por exemplo um cartaz específico ou não comunica com a sociedade e posteriormente, em torno disso, desenvolver uma análise à capacidade de comunicação e de linguagem do design, quer pela sua semiótica, estética, composição, grafismos, tipografias, etc. Um simples cartaz pode levar a caminhos que levantam inúmeras questões relativamente ao papel do design na sociedade contemporânea.

Palavras-Chave: Cartaz, Cultura, Político, Comunicação, Chile, Gráfico, Manifesto

One thought on “Propaganda ou Cartaz Político”

  1. O evento que contou com a presença de Mauricio Vico e de José Bártolo esclarece o uso do cartaz como meio de manipulação e persuasão da sociedade, assumindo a forma de propaganda e divulgando os ideais do regime vigente. A Rita apresenta-nos aqui uma contextualização cuidada da conferência, ressaltando os aspectos mais importantes. Assim, estruturando o texto como uma pequena recensão crítica dos assuntos expostos pelos professores convidados, envolve-nos sobre a sua própria investigação acerca da problemática do alcance social do cartaz político no mundo contemporâneo.
    A síntese que a Rita faz acerca da questão do cartaz politico enquanto arma vai de encontro à análise que realizei no meu post. Aqui encontramos um paralelo entre a valorização e a importância do cartaz político no 25 de Abril e na actualidade. É concluído então (e de se notar) que o cartaz político tem um valor documental, narrativo e estético incomparável. Deste modo, continuará a impoôr-se como arma letal de manipulação e da opinião pública.

    Com uma linguagem clara e concisa, é-nos aqui apresentada uma das realidades actuais do design: a sua aproximação à política e a todas as disciplinas. Através das mensagens claras que o cartaz transmite, podem ser levantadas perguntas que culminem na compreensão do design enquanto disciplina individual e do designer enquanto planificador e construtor. Pode-se, através do meio de comunicação enunciado neste texto, apelar à consciencialização e da mudança activa da sociedade.

    O corpo do texto evidencia uma importante pesquisa e investigação. Nele somos guiados pela sua estrutura concisa e clara, onde os temas são devidamente assinalados pelos subtítulos, ilustrados pelas imagens legendadas e alguns conceitos preenchidos e complementados pelas hiperligações. A Rita optou por anunciar os autores no texto, ao invés de os colocar nas notas, pareceu-me uma solução viável e eficaz.

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