Não é ser contra, é ser crítico.

Rita Rodrigues

ferrismuseum.jpg
Imagem retirada de https://99designs.pt/blog/tips/99designs-guide-to-critiquing-graphic-design/

 

“By being against things, especially when most people agree that the time for being against things is over, you will only make yourself unhappy.” Quando temos a oportunidade de poder aprender com palavras de pessoas que não são contra mas sim críticos, tal como aconteceu nos Encontros de Design, não existe realmente grande vantagem em optar por uma postura contra aquilo que ouvimos, na verdade devemos antes querer incluir-nos no tema e tentar compreendê-lo, investigar, questionar. Existe vantagem em ser contra? Existe vantagem em não receber as palavras de qualquer pessoa e aceitá-las como forma de ampliarmos o nosso conhecimento? E no Design, existe vantagem em ser contra críticas (positivas ou negativas) acerca do nosso ou outro projecto? Não, não, não. Como reflete Rick Poynor, “o tempo para ser contra acabou. A atitude enriquecedora a ter numa disciplina como o Design, que necessita de conhecimento e de outros olhos, de olhos observadores e que o compreendam, o criticismo é a melhor maneira de “querer ser contra” mas a favor. Ser crítico é bastante mais do que isso, envolve não tomar as coisas como garantidas, ser céptico, questionar as coisas, pensar nas limitações, discutir, avançar com uma visão contrária fundamentada, etc. Um crítico apresenta um olhar mais atento e conseguirá explicar um determinado aspecto de uma obra que a maioria de nós não compreende e não consegue visualizar. Quando um crítico não encontra falhas ou não tem uma opinião realmente construtiva formada, ou seja, não vê nada para contestar, não é realmente um crítico no verdadeiro sentido do termo.[1] É precisamente por estas questões que o design crítico é tão importante e cada vez mais a interação entre projectos de Design e críticos é a melhor forma de o pretendido ser realmente conseguido, isto porque, mesmo que um designer trabalhe horas e seja o mais perfeccionista que pode, existe sempre algo relevante que um crítico consegue apreender e comunicar.[2]

344132_dmk65qcxwi_hvbmk3w6cweaui.jpg
Sebastian Popa, Speculative/Critical Design, imagem retirada de http://www.coroflot.com/sebapopa/SpeculativeCritical-Design

Apesar deste papel importante, a crítica em design não tem ainda um significado propriamente definido e o design acaba ele por ser visto e rotulado de crítica mas de uma forma simples o significado pode ser não a procura de soluções mas a procura de problemas. Enquanto Designers devemos ser e ter uma atitude crítica para com a nossa disciplina e ao mesmo tempo trabalhar e investigar de forma a expandir e evoluir aquilo que é o Design e o que as pessoas pensam dele, por isso cada vez mais deixa de ser a opinião do cliente e aquilo que ele acha ser melhor que importa para aquilo que os designers acham mais correto e que terá um maior e mais efectivo resultado no público alvo. [3]

Todas estas questões implicam uma grande relação entre a prática e o ensino, “from the designer as author to the designer as researcher”, ou seja, para ser autor o designer deve querer obter cultura através da investigação acerca da disciplina de forma a amadurecer o seu conhecimento, tal como acontece em outras disciplinas que requerem igual investigação. Tudo indica que se não houver um amadurecimento da disciplina, a procura de problemas, uma cultura vasta e um entendimento profundo, ou seja, um design baseado apenas na prática sem o resultado de pesquisa e investigação, tudo aquilo que for produzido e principalmente se tiver uma intenção crítica, provavelmente não será bem sucedido e não será tão rico como algo que foi posteriormente estudado e desenvolvido a partir daí, até porque, principalmente no design, existem processos próprios e métodos de produção que contribuem para novos conhecimentos nas diferentes áreas, quer no design gráfico como no design de produção, design de interação, etc. [4]

faradaychair.jpg
Faraday Chair, Dunne & Raby, Imagem retirada de http://www.dunneandraby.co.uk/content/projects/67/0

 

O criticismo em design vai sempre ser propício para abrir discussões e mantê-las acesas, no entanto, um projecto não é considerado crítico apenas porque o designer quer que assim seja, ser contra não basta, há que ser crítico. Qualquer outra forma de comunicação desde a música a uma instalação apresentam formas válidas de representar uma crítica, mas é não o querer mas a maneira como o fazemos que importa e acima de tudo os efeitos que essa crítica pode causar. Já num ponto de vista público, não basta apenas uma comemoração cínica através dos meios sociais, que parecem hoje em dia ser a única forma de “criticar” e apresentar pontos de vista, deve realmente haver um manifesto que demonstre a efetividade do projecto enquanto crítica notória, caso contrário, se a função do design é precisamente, comunicar, melhorar, e fazer algo notável, o design poderá tornar-se irrelevante para a sociedade, a menos que esta ajude a salientar a verdadeira importância desta disciplina. Não basta apenas o designer ser crítico, também a sociedade tem de apelar a uma atitude crítica, não só em relação ao design mas em todas as outras áreas e em tudo o que a rodeia, aí sim talvez o mundo possa vir a ser diferente, talvez consigamos mudar o mundo. [4]

Palavras-Chave: Design, CriticismoInvestigação, Sociedade

Referências:
[1] https://www.typotheque.com/articles/the_time_for_being_against
[2] https://99designs.pt/blog/tips/99designs-guide-to-critiquing-graphic-design/
[3] Ramia Mazé, Critical of what?, Transcription of Ramia Mazé’s lecture at the Iaspis Forum on Design and Critical Practice Seminar in Stockholm, December 6, 2008, Disponível em https://www.academia.edu/RegisterToDownload#Download
[4] http://modesofcriticism.org/critical-graphic-design/

One thought on “Não é ser contra, é ser crítico.”

  1. Peço que leias o artigo de Michael Rock em http://www.eyemagazine.com/feature/article/the-designer-as-author porque há uma dimensão crítica que se transfere para o designer enquanto autor e que não chegas a referir no post.
    Todavia, ser crítico é intrínseco ao designer, i.e., está no seu ADN. O que importa saber e analisar é como se pode ser crítico na contemporaneidade onde demasiadas vezes a crítica opera como fator disruptor para os cidadãos (e.g. eleições americanas). Numa sociedade mediatizada e liberalizada, o cidadão tende a olhar a crítica como enraizada em dogmas ultrapassados pela aridez ideológica que invade toda a produção cultural e decide fazer as suas escolhas pessoais, muitas delas desinformadas por opção.
    Pode sentir-se que ‘o tempo de ser contra acabou’, mas o que impera para o designer é a luta constante pela afirmação da diferença que é inerente a sua produção prática e teórica. Ser crítico é ser contra e é ser útil aos outros.
    Talvez fosse de organizar melhor as ideias, mantendo o título como motor do discurso.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s