‘Por la Liberdad… Siempre!’

O lugar dos movimentos estudantis no cartaz político
Rui Pedro Martins

Texto inspirado na conferência “El cartel político en Chile entre 1970 y 2012. El Gobierno de Salvador Allende y los movimentos estudiantiles”, pelo investigador Mauricio Vico, e na Masterclass, com a presença de Mauricio Vico e do designer/professor José Bártolo. As atividades decorreram na Faculdade de Belas-Arte da Universidade de Lisboa, no dia 4 de Outubro de 2016.

Logo após o final da segunda guerra mundial a sociedade de consumo é remodelada com os baby-boomers. De repente, os países mais desenvolvidos sentem o impacto social de uma rápida expansão demográfica e consequentemente de um público jovem que constrói a sua própria “cultura juvenil” [1] à imagem dos seus interesses e causas.

A estética formal e plástica do movimento juvenil americano chega aos adolescentes chilenos sob a forma de revistas orientadas para a classe etária e nos media em geral, numa época marcada pela solidificação da publicidade enquanto paisagem do quotidiano, fruto desta remodelação social.

As revistas ‘Onda’ e ‘Ritmo (de la juventud)’ são exemplos do cariz de entretenimento, música e atividades que propunham a comunicação e partilha de opiniões entre os leitores. Esta foi crucial enquanto rastilho de discussão de valores que resultaram em protestos organizados em meio académico com causas sociais, com o período de 1946 a 1955 marcado por movimentos anti-guerra, feministas e ambientais, numa luta em defesa dos valores de liberdade, experimentação e individualidade.

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Revistas juvenis chilenas (1966)

No entanto, apesar de presente, a revista ‘Ritmo (de la juventud)’ é um caso do direcionamento de uma canalização alternativa à faceta louca e selvagem do rock n’ roll. Esta apelava à expressão mas fortemente aleada à educação, não questionando os valores estabelecidos.

O meio académico foi o atelier da revolução juvenil chilena.

Na Escuela de Artes Aplicadas de la Universidad de Chile, os irmãos Vicente e Antonio Larrea utilizavam técnicas manuais que valorizavam o trabalho humano intrínseco nas campanhas do partido Unidad Popular de Salvador Allende. Na Universidad de Concepción de Valparaíso iniciava-se a reforma popular para a qual a Federación de Estudiantes de la Universidad de Chile, a associação de todos os estudantes da Universidad de Chile fez cartazes. Da FECH surgiram ainda cartazes para a derrocada da ditadura de Carlos Ibañez del Campo, para a oposição ao governo militar de Pinochet, reflexo da frontalidade assumida nestes núcleos estudantis.

As causas sociais eram tema recorrentemente abordado nesses cartazes, como o caso de ‘Muerte Al Latifundio’ (contra as vastas propriedades territoriais exploradas por proprietários não residentes, cultivadas por trabalhadores agrícolas com baixos rendimentos), pela FECH, e de ‘Por la Vida… Siempre!’ (contra a violência inerente ao fascismo), que surgiu na Universidad Técnica del Estado.

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Museu de la Memoria (2011)

Relacionando a propaganda desta época com a dos movimentos estudantis chilenos de 2006 e 2011 continuamos a encontrar estes coletivos inseridos em contexto académico que representam os seus ideais através do cartaz, como o ‘Coletivo Serigrafia Instantanea’, um atelier nómada que percorre o Chile para dar workshops sobre desenho propagandístico e impressão serigráfica.

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Workshop ‘Serigrafia Instantanea’ (2011)

Este e outros utilizam frequentemente a linguagem gráfica dos cartazes propagandísticos da era de Salvador Allende como forma de registar um período sobre o qual existem poucas memórias físicas, depois do regime ditatorial ter destruído quase todos os cartazes. Essa foi a principal dificuldade de Mauricio Vico no processo de recompilar mais de 300 cartazes chilenos produzidos entre 1967 e 1988 no projeto “Un grito en la pared. Psicodelia, compromiso político y exilio en el cartel chileno” [2].

Uma catadupa de gerações que se expressa politicamente mas cada vez menos nos moldes tradicionais.

Vemos num passado recente em Portugal uma Geração Rasca, que protesta contra as provas globais no ensino secundário, sucedida por uma Geração à Rasca, que se manifestou nas ruas a 12 de Março de 2011. Partiu de um evento organizado por um grupo de jovens no facebook e num blogue e levou mais de 400 mil pessoas às ruas de várias cidades do país.

As estudantes Mariana Marques e Inês Luceno são apenas duas no meio da Geração à Rasca, mas José Bártolo destaca a propaganda política desenhada e impressa pela dupla. “O Futuro Entupiu”, destacado.

Questiono se está instalada uma apatia política nos jovens ou se são os sistemas políticos que não se adaptam. Estarão os jovens a afastar-se da política ou a política a afastar-se deles?
No final de contas, opinião nas redes sociais ou fóruns públicos, participação associativa e outros movimentos, tudo isso é fazer política. Por isso, estamos só a remodelar.

Rui Pedro Martins
(10597 | ECD | MDCNM
FBAUL | 2016/2017)

______________________________________

[1] Roberts, J. M.. “A Juventude”, Histórias do Século XX – Volume II, Lisboa: Editorial Presença, 2007
[2] http://www.uchile.cl/publicaciones/66780/libro-un-grito-en-la-pared

One thought on “‘Por la Liberdad… Siempre!’”

  1. Uma abordagem muito completa e expressiva, do ponto de vista histórico. Gostei muito do formato do post pois segue uma espécie de seguimento cronológico que chega até à atualidade da discussão política na opinião pública.

    Este post tem uma investigação a nível histórico detalhada o que confere transparência ao mesmo e clareza no entendimento dos diferentes contextos histórico-políticos ao longo do texto.

    Achei interessante a referência às revistas “Onda” e “Ritmo de la Juventud” pois acho que o formato da revista é muito importante, e muito intuitivo na comunicação de ideias, quer sejam elas de carácter político ou outros. Nestes exemplares vemos que os designers experimentaram novos conceitos irreverentes, sendo que esta irreverência é sempre importante para atrair a atenção de alguém.

    O último ponto deste texto é o que faz com que o texto não passe só de um artigo sobre o cartaz político no Chile. Depois de explorar esta abordagem do cartaz político, o Rui faz um paralelismo com a abordagem política mais contemporânea, o que para mim, enriquece muito este post. De facto, pode não existir uma reflexão política entre os jovens que se calhar seria importante para que estivéssemos todos mais atentos às mudanças que influenciam o contexto social e económico.

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